A reunião dos cientistas envolvidos com o transporte interuniversal teve início. Nela seriam decididos os próximos passos, o rumo a ser seguido, a meta a ser atingida na pesquisa das galáxias ribelianas.
O ribélio era a única substância que permitia um transporte para o Microverso, por enquanto - já que o procedimento ainda exigia como foco um material cuja estrutura atômica possuísse o máximo potencial de estabilidade estrutural possível.
A princípio, o ribélio fora desenvolvido tempos atrás para ser a matéria mais resistente conhecida. E tal objetivo obtivera, com sua criação, um êxito pleno. Virtualmente indestrutível e impossível de se encontrar em condições naturais, sua utilidade era extensa e seu uso abundante no mundo dos cientistas. Era a única substância existente de estrutura atômica perfeita sobre todos os aspectos. Seus átomos complexos se integravam em total harmonia, em inacreditável e inviolável equilíbrio, sem se agrupar em moléculas - o que, por si só, já era uma fenomenal e exclusiva demonstração de perfeição atômica. Uma peça de ribélio, qualquer que fosse suas dimensões, constituía-se em uma única molécula. Cada insignificante micropartícula do átomo de Ribélio contribuía decisivamente em sua condição harmoniosa e perfeita. Tratava-se de uma substância de intrínseca e plena estabilidade. Um átomo de ribélio só poderia se combinar unicamente com os outros átomos de ribélio. Nenhuma substância conseguiria se unir a ele na formação de uma molécula. A própria existência de um átomo isolado era impossível, pois, para se estabilizar, ele precisava estar conectado a um certo volume de átomos similares.
O cientista-chefe do projeto deu início às deliberações:
- Caros colegas cientistas, membros do instituto, está aberta a sessão. Em pauta, a definição da futura utilização do CTI.
- Peço a palavra, colega – solicitou um dos presentes.
- A palavra é sua – permitiu o presidente da sessão e cientista-chefe do grupo responsável pelo vitorioso projeto CTI.
- Caros colegas cientistas, desejo expor minhas idéias relativas ao uso adequado do CTI, e desde já pretendo solicitar que ela seja posta em votação, contando com a concordância da maioria sobre seus fundamentos. Caso ela seja aceita, peço que todos dêem suas críticas e opiniões, sem restrições, de modo que as bases dessas idéias sejam complementadas com a participação geral, contribuindo para torná-la mais coerente, justa e mais que unânime – ou seja, que o conceito, em cada pormenor, conte com a plena aceitação dos membros do instituto ora presentes.
O cientista orador fez uma pausa, antes de prosseguir:
- Com as informações trazidas pelo colega Honoh, descobrimos finalmente outras formas de vida inteligente. Proponho uma atitude sensata de não-interferência na evolução dos seres. Com o fator temporal de compensação interuniversal, os acontecimentos na galáxia deles desenrolam-se um bilhão de vezes mais rápido que em nosso universo. Essa é uma oportunidade fantástica de acompanhar o desenvolvimento ou degeneração de civilizações em ritmo sucessivo, com raças detentora de potencial intelectual e emocional diferente do nosso. Podemos acompanhar a evolução de povos com várias etnias regionais, diferenciadas e exóticas, e estudar todo o seu aperfeiçoamento. Trata-se de uma pesquisa inédita, um estudo gratificante para a nossa ciência! Nosso próximo grande desafio, sempre desejado e até então jamais possibilitado pelas circunstâncias de nosso próprio universo. Por isso, minha opinião é de que devemos estudar e analisar, sem interferir. Devemos nos restringir apenas a registrar e observar cientificamente cada evento de grandeza cultural ou tecnológica nos planetas habitáveis da galáxia ribeliana. Imaginem uma galáxia eterna e em seu interior raças inteligentes similares em todo os sistemas solares vivendo inúmeras e sucessivas, talvez muitas vezes inesperadas e chocantes fases da evolução ou involução, um bilhão de unidades temporais mais rápido do que em nosso universo, permitindo que possamos observar sempre novas eras geológicas e metamorfoses biológicas, culturais e científicas a cada dia que se passa para nós aqui!
O cientista orador, entusiasmado, concluiu a exposição de idéias e retornou ao seu lugar, agora aguardando uma votação contra ou a favor. Pelo que conhecia do caráter do seu povo e do comportamento da comunidade científica do instituto, ele estava tranqüilo em acreditar que o resultado da votação seria unanimemente favorável à sua sugestão de projeto.
O cientista-chefe autorizou o pleito.
Apenas dois dos cientistas presentes não votaram a favor.
- Qual sua objeção, colega? - Perguntou o cientista-chefe à um deles.
- Em linhas gerais, a idéia apresentada merece minha aprovação, sim, colegas – respondeu – porém eu discordo de um de seus tópicos, e quero apresentar minha opinião a respeito. A meu ver, a idéia de não-interferência é muito sensata, porém, não pode ser adotada com rigidez exagerada. No caso de prevermos uma tragédia de proporções cósmicas, por exemplo, ignorada pelos seres ameaçados, acho que não podemos permanecer inativos e insensíveis, sem encontrar uma forma – talvez até indireta – de lhes dar ao menos um aviso sobre o perigo.
O comentário do cientista foi discutido e sua sugestão acatada por todos, exceto um, o mesmo que discordara do projeto inicial. As opiniões desse insatisfeito sobre a utilização do CTI eram radicalmente opostas às dos colegas que pretendiam um estudo baseado na observação discreta.
O insatisfeito era justamente o cientista-viajante Honoh, que, ao enfim manifestar suas opiniões e idéias acerca do uso futuro para o CTI, conseguiu deixar todos os controlados colegas completamente estarrecidos – como nunca antes em uma reunião daquelas.
Estou Voltando!
Há 7 anos