Honoh havia discutido violentamente com os demais cientistas presentes na reunião.
Mas de nada adiantara.
Ninguém apoiou sua espantosa idéia de enviar comandos especiais para a galáxia ribeliana, com o propósito de subjugar os seres de tecnologia subdesenvolvida que nela habitavam. Era uma proposta revolucionária, sim, mas – ora! – coerente. Também não era absolutamente revolucionária a fase em que a cultura científica estava agora entrando, com o sucesso da exploração interuniversal? Eles precisavam adaptar sua mentalidade a este novo cenário, evoluir enquanto cultura no alvorecer de uma nova era. Honoh achava que seu povo devia se aproveitar da superioridade científica em relação aos ribelianos para dominá-los, usá-los como mão-de-obra (em substituição aos robôs e suas limitações inerentes) e matéria-prima para pesquisa genética. E retirar das galáxias ribelianas tudo que fosse útil e valioso.
Abismados, todos os seus velhos colegas, sem exceção, foram contrários ao que propusera. Imediatamente condenaram seu projeto como ridículo, cruel e radicalmente oposto aos preceitos morais do povo dos cientistas. Não se deram nem ao trabalho de discutir ou colocar em votação a idéia.
Perdendo o controle, Honoh ofendera e até agredira os cientistas presentes - uma conduta inaceitável, nunca antes registrada entre membros do instituto (o que equivalia a quase toda população do planeta desde eras atrás).
Sua chocante conduta não poderia, é evidente, ser perdoada. De maneira alguma os cientistas aceitariam tal quebra de alguns dos mais importantes protocolos que norteavam sua convivência absolutamente harmoniosa.
Assim, Honoh precisou ser expulso do Instituto Científico e impedido terminantemente de entrar em um laboratório ou praticar qualquer tipo de ciência.
E isto era a pior coisa que poderia acontecer com alguém de seu povo.
Talvez até pior do que a morte.
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O cientista cuja licença fora cassada – agora um pária naquela sociedade completamente dedicada à ciência - estava elaborando seus planos em um local isolado do planeta, longe de qualquer indício de população. Tratava-se de uma pequena casa nas montanhas – mais precisamente, o local para onde fora “convidado” a se exilar. Honoh era abastecido regularmente, pela Defensoria Civil planetária, apenas com alimentos e outros produtos de primeira necessidade.
Claro, ele não se conformava com a decisão do Conselho CTI. Estivera no microverso ribeliano e vira que os habitantes de lá eram submissos e primitivos. Eram ingênuos e ignorantes. Indefesos, selvagens e com um enorme potencial a ser explorado e usufruído. Os seres perfeitos para serem dominados (com benevolência e a devida assistência de seus superiores, obviamente) e usados em benefício do povo científico.
Honoh dissera tudo isso aos outros, mas fora em vão. Como eles não conseguiram ver isso, vislumbrar as vantagens que seu povo teria ao adotar aquela proposta? Por quê só ele era sensato, só ele enxergava as coisas? Por quê era tão diferente do resto do povo cientista?
De nada adiantara tentar convencer os outros a aceitar, ao menos parcialmente, sua idéia. Mostraram-se chocados, classificando seu projeto como algo degenerado e absurdo, como delírios de uma mente prejudicada pelo stress de ter se submetido à transição interuniversal, cujos efeitos colaterais ainda não eram plenamente conhecidos. Nem ao menos deram-se ao trabalho de formalizar sua sugestão como pauta a ser discutida e votada.
Fizeram-lhe um sermão sobre o inabalável caráter moral, a ética irrestrita do povo científico. Sua atitude de apoio ao que chamaram de bárbaro escravagismo ia contra todos os princípios de conduta pacífica, adotados desde tempos remotíssimos no planeta, foi o que alegaram.
Então ele acabou perdendo a paciência. Ofendeu e agrediu.
E foi punido.
Mas isso não importava. Ele obteria sozinho o que todos poderiam ter compartilhado com ele. Seria muito melhor, e algum dia eles se arrependeriam de tê-lo desprezado e ignorado sua idéia de conquista.
Tolos! Durante milhares de anos seu povo havia vasculhado a galáxia e suas vizinhas, na febril esperança de encontrar vida inteligente. Mas acabaram se decepcionando, descobrindo que estavam sozinhos e dominavam seu aglomerado estelar com exclusividade, sem qualquer tipo de compartilhamento - seja como aliança, seja como oposição. Agora, que finalmente encontraram outras formas de vida inteligente e galáxias inteiras (que, em última análise, estavam sendo fabricadas por eles mesmos!) ao alcance da mão, o que faziam?
Nada! Apenas observar. Tão-somente estudar e acompanhar a evolução. Quanta estupidez!
Era para isso que esperavam há tanto tempo? Aguardavam ansiosamente um contrato com outras inteligências para fazer... nada?
Já que seu povo não pretendia fazer algo, ele sozinho faria, sem ter que dividir suas conquistas com outrem. Ele agora teria tempo de sobra para elaborar seus planos. Quando menos esperassem, ele agiria... e então os idiotas acabariam se dando conta do erro que cometeram ao não lhe dar atenção. Neste dia eles pagariam pelo que lhe haviam feito, por aquela punição absurdamente cruel para quem deveria estar é sendo ovacionado, na qualidade de explorador e visionário.
Dia após dia, Honoh ficava pensando incessantemente em um plano de ação para atingir seus objetivos nada modestos. Algo que, inevitavelmente, acabaria sendo tão ousado como jamais fora registrado na história de seu planeta!
Por isso, quando ficou sabendo que seus ex-colegas conseguiram aperfeiçoar uma versão do CTI capaz de funcionar realizando unitransportes sobre qualquer matéria (e não mais exclusivamente com o ribélio), ele teve uma idéia incrível, que solucionaria todos os seus problemas.
Finalmente seu plano tornava-se perfeito, restando agora apenas colocá-lo em prática.
Imediatamente.
Estou Voltando!
Há 7 anos