segunda-feira, 24 de agosto de 2009

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O encarregado de transportar as periódicas remessas com mantimentos para o local onde residia o cientista exilado considerava a tarefa como um desagradável inconveniente em sua vida. Aquele trabalho em particular o incomodava mais que o normal. Era, claro, apenas uma dentre as várias atividades comunitárias destacadas a si (como a todo e qualquer cidadão). Mas sim, "pesava" um pouco mais que as outras. Isto porque, de tempos em tempos, o obrigava a interromper seu gratificante serviço no laboratório de genética... para então ter que voar em um aerocarro até aquele lugar distante e inóspito, onde agora residia o rebelde Honoh.

Mas a necessidade de destacar alguém para a tarefa era clara: não seria prudente enviar um carro-automático com robô- carregador, pois Honoh tinha conhecimento e capacidade suficientes para conseguir interferir na programação dos autômatos a aprontar alguma. Após o comportamento explosivo que o ex-cientista demonstrara perante o Conselho, era melhor se precaver contra qualquer novo absurdo revolucionário de sua parte.

No entanto, o geneticista não odiava o pária por isso. A personalidade de seu povo, com ênfase na racionalidade, normalmente não lhes permitia nutrir ressentimentos ou outras emoções negativas por tempo prolongado. Pelo contrário, agora o transportador na verdade já sentia muita pena de Honoh. Naquele momento, pilotando o aerocarro com mais uma remessa de suprimentos, novamente foi acometido pela familiar sensação de tristeza (inevitável em tais ocasiões), ao pensar como o castigo recebido pelo rebelde era demasiadamente cruel, mais do que suficiente para compensar os seus graves delitos. Não desejaria aquilo a quem quer que fosse.

Com o passar do tempo, o encarregado acabara fazendo amizade com Honoh, contrariando um pouco suas instruções relativas à tarefa em questão. Mas ficou à vontade em ceder a esta tentação. Uma aproximação inocente, uma conversa casual, uma certa empatia entre pares... tornara-se algo importante para si próprio, também. Obvimente, atenuava bastante o desconforto que lhe causava aquela atividade comunitária (todos os cidadãos de seu povo exerciam alguma tarefa em prol do bem-comum, em detrimento de um pouco do tempo que obvimente prefeririam direcionar à suas respectivas paixões científicas. Tal método possibilitava um atendimento e administração serenos de todas as necessidades sociais, e uma situação de igualdade entre os indivíduos bem sintonizada ao temperamento daquele povo).

Não era concedido a Honoh qualquer aparelho que lhe permitisse acompanhar as notícias, ou mesmo algum equipamento relativamente complexo, que pudesse ser desmontado e utilizado como passatempo. Em comparação com o resto do mundo, aquela era uma vida primitiva e incrivelmente limitada. Assim, criando um vínculo de cordialidade com o pobre-coitado, o entregador de suprimentos acabara se tornando sua única fonte de contato com o mundo exterior, seu único alento em uma existência dolorosamente estagnada. Além do mais, fora interessante ao ingênuo conterrâneo descobrir que ele e o rebelde possuíam uma instigante afinidade em uma série de interesses - como os resultados das competições semanais no Grande Desafio de Nanorobótica, onde o grupo para o qual o geneticista torcia geralmente ganhava da equipe defendida por Honoh (em mais um aspecto onde o pária mostrava-se acuado pelos reveses de uma vida desafortunada. Como não se sensibilizar com a situação dele?).

O ex-cientista havia ficado especialmente feliz e excitado quando o novo amigo lhe contara sobre a versão revisada do CTI, capaz agora de atuar sobre qualquer matéria. O fim da dependência do ribélio o deixara muito animado. Para o entregador de suprimentos, que era sua única conexão restante com o mundo, aquilo era sinal de que Honoh ainda possuía forte envolvimento emocional com o projeto e ansiava pelo avanço e sucesso dos conterrâneos na área do transporte interuniversal. Nem lhe passou pela cabeça que a alegria do outro pudesse ser motivada por idéias bem menos nobres...

Também contrariando as ordens que havia recebido, o encarregado levava desta vez para o prisioneiro domiciliar um manual que explicava o manuseio do novo CTI. Era um inocente pedido de um espírito científico curioso e condenado à inatividade, que queria apenas entender de que modo fora superado aquele obstáculo tido como intransponível durante sua gestão no projeto, tempos atrás.

O manual manteria o exilado ocupado. Serviria apenas para distraí-lo um pouco, ajudando-o a esquecer a solidão e o sofrimento, salvando-o do terrível tormento de todo o cientista criativo – o tédio obrigatório.

Por isso o entregador levava este presente tão desejado pelo amigo. Seria um gratificante gesto de solidariedade.

Que mal poderia haver nisto, já que Honoh jamais voltaria a obter acesso ao laboratório do CTI?

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Honoh viu o aerocarro pousando diante de sua casa – ou melhor, de sua prisão. Saiu na varanda para receber o encarregado dos mantimentos com quem gradualmente estabelecera uma amizade, tal qual planejado como primeiro e imprescindível passo de quaisquer planos que viesse a conceber.

O “amigo” saiu do carro com uma expressão satisfeita e caminhou em sua direção.

- Trouxe o manual? – indagou Honoh após os devidos cumprimentos recíprocos, quando o outro postou-se à sua frente.

- Trouxe, sim – veio a resposta, enquanto era retirado da sacola um pequeno vídeo-instrutor, que foi estendido em direção ao rebelde.

O exilado pegou o aparelho, que continha todas as instruções de funcionamento e manejo do CTI aperfeiçoado, colocando-o em um bolso da roupa.

- Vou mandar o robô trazer os mantimentos para dentro – disse o entregador, prosseguindo: - Daqui há pouco eu entro para conversarmos. Com licença, colega.

E o ex-membro do Instituto Científico viu seu interlocutor voltar a atenção para o aerocarro, apertando um botão no controle remoto que ativaria o robô-carregador. No momento em o outro parou de prestar atenção em Honoh, este retirou do bolso, com extrema rapidez, a mão que lá permanecera ao guardar o vídeo-instrutor.

A mão que agora voltava a aparecer segurava um objeto pesado e pontudo.

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A coisa toda fora muito fácil.

Uma idéia até então quase inconcebível tornara-se enfim uma chocante realidade.

Mas quem poderia sequer imaginar que um indivíduo do povo cientista seria capaz de cometer assassinato?

Um ser do povo cientista tem uma constituição física que lhe permite enxergar simultaneamente em todas as direções. Mas não possui reações rápidas, já que isto nunca se mostrara necessário ao longo de sua evolução - dada a ausência de inimigos naturais e uma índole extremamente pacífica.

Alguém se decidiu, um braço se ergueu, alguém se surpreendeu, um braço desceu. Um objeto sem vida chocou-se violentamente com um objeto vivo – e o objeto vivo também se tornou um objeto sem vida.