segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

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Num último lampejo de raciocínio coerente, o cientista decidira que, diante da morte iminente, só havia uma coisa a fazer para se salvar.

O ser-mar não era a única matéria orgânica em OXI-17. Ele próprio também era um ser orgânico. Na situação em que estava, impossibilitado de se alimentar do ser-mar, a única solução era (inspirado no exemplo daquela inusitada nova forma de vida) alimentar-se de si mesmo.

Antes de desmaiar, conseguira retirar o traje do corpo, reconectar o tubo do Alimentador ao ventre e inserir nova matéria-prima dentro do aparelho que criava plasma alimentício. E essa matéria-prima fora uma de suas mãos!!!

Olhou ao redor e avistou a faca que fazia parte de seu equipamento e com a qual amputara a mão. A extremidade do braço desfalcado mostrava um rústico curativo, meramente destinado a conter o escoamento de sangue. Se antes de desmaiar não houvesse conseguido aplicar o spray estancador na ferida, teria morrido de qualquer forma. A hemorragia faria o serviço.

E, provavelmente, fora justamente o estado entorpecido, “anestesiado” em que se encontrava ao tomar a decisão, que lhe permitira colocar a idéia efetivamente em prática. Em sã consciência, talvez não conseguisse reunir o sangue-frio necessário para se auto-mutilar.

O cientista começou a pensar no que fazer dali em diante.

O equipamento STEP fora inutilizado. Estava preso em OXI-17.

Também não poderia continuar arrancando partes de seu corpo para utilizar como alimento. O organismo não resistiria a mais alguns desses ferimentos. Além disso, de que adiantaria continuar naquilo se depois estaria totalmente aleijado?

O cientista chegou a uma triste conclusão.

Não havia realmente evitado a morte. Apenas a retardara um pouco.

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Caiu num terrível estado de depressão.

Mais uma vez tinha escapado da morte iminente, e mais uma vez ela se apresentava à sua frente, como um fato muito próximo... e aparentemente inevitável.

O cientista ainda estava cansado. Se a morte não podia ser mesmo evitada e ele não conseguia mais imaginar qualquer meio de contornar a situação, bem que poderia passar pela transição durante o sono, relaxado. Seria o mais agradável, evitando o sofrimento e a angústia das últimas horas. Além do mais, o cansaço era tanto que a vontade de dormir tornava-se quase irresistível. Diante disto e da aparente inevitabilidade do fim, manter-se acordado exigia agora uma força de vontade monumental. O único fator que o despertara pouco depois do desmaio fora a ansiedade subconsciente, inerente à mentalidade de seu povo, em conhecer os resultados de um experimento crítico (no caso, a amputação e utilização de um de seus membros como alimento). De qualquer forma, o descanso agora seria tranqüilizador, quase indispensável.

Deitou-se no solo, apoiando a “cabeça” numa parte macia do interior do traje de sobrevivência.

Vislumbrou a abóbada celeste sobre si. Observou a beleza do firmamento de OXI-17, enquanto sua visão começava a anuviar-se, vítima do sono.

Percorrendo o céu do planeta, de repente seu olhar pousou sobre um determinado ponto - no qual fixou-se.

Uma súbita descarga de adrenalina espantou o sono, e ele ergueu-se rapidamente do solo.

Ainda havia uma esperança!