segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Post 000006



O “amigo” encarregado dos mantimentos tivera uma morte instantânea. Mas Honoh já não pensava mais nisso enquanto dirigia o aerocarro do morto em direção à cidade onde se encontrava o primeiro objetivo, o que garantiria a sua segurança posteriormente. Aquele ato já houvera sido pensado e ensaiado há tempo suficiente para que a mente distorcida de Honoh não mais o enxergasse como uma cena tão impactante. Após ter determinado como inevitável a necessidade de eliminar o indivíduo, e sentir certo mal-estar ao simular a coisa algumas vezes em pensamento, avançara no desenvolvimento de seu plano e não mais se permitira afetar pela situação. Agora, pensava exclusivamente na próxima fase daquilo que planejara cuidadosamente.

Aterrissou o veículo diante de uma construção imponente. Acima do portal de entrada via-se uma placa com as seguintes inscrições:

Centro de Geração e Tutela Inicial
Cidade Guzug

Honoh, vestindo a roupa característica do Departamento de Genética do Instituto e utilizando as credenciais de sua recente vítima, atravessou o limiar do salão de visitas do edifício e dirigiu-se à recepção.

- O que deseja, colega – indagou a voz agradável e artificialmente produzida do recepcionista-robô.

Honoh apresentou o documento do Instituto, dizendo:

- Departamento de Genética. Vim para fazer uma vistoria em um dos robôs semi-orgânicos experimentais.

O autômato especializado apanhou delicadamente o documento das mãos do criminoso (cuja coleção de diferentes delitos crescia espantosamente) e submeteu o cartão à uma rápida checagem, no interior do seu corpo metálico flutuante. Dadas as características sociológicas de seu povo. às quais estava mais que habituado, Honoh não receava que a farsa na identidade fosse detectada. Verificações de segurança baseadas em voz, impressões corporais ou algo do gênero, que poderiam denunciá-lo, sequer existiam naquela civilização que sempre fora plenamente idônea em todos os aspectos. O Primeiro Criminoso, como certamente ele viria a ser conhecido (e Honoh sentiu um arrepio de orgulho ao pensar nisto, sinal de como sua intrigante e bem-vinda mudança fora profunda) não poderia ter desejado um ambiente mais propício do que aquele planeta para desempenhar as ações que planejara durante o exílio.

- Pois não – respondeu o recepcionista-robô, devolvendo as credenciais do Instituto ao visitante e indagando – Qual o setor, senhor Demed?

- Dezessete. Manutenção dos Suportes Vitais – dadas as conversas habilmente conduzidas com o falecido Demed sobre o seu dia-a-dia de trabalho, Honoh conhecia bem o interior do edifício.

- Vou avisar o Responsável. As cabines internas são as amarelas.

- Sei.

- Então pode ir – o recepcionista entregou a Honoh um cartão vibratório, que permitia o livre trânsito no interior do edifício – quando chegar lá, o Responsável do setor já estará a espera.

- Obrigado.

- Disponha, colega.

Honoh dirigiu-se à cabine amarela mais próxima, entrou, inseriu o cartão vibratório em uma fenda no console operativo e apertou uma tecla com o número dezessete impresso sobre ela. A iluminação no interior da cabine sofreu uma breve e intensa alteração, e Honoh ficou autorizado a sair. Quando o fez, deparou-se com um indivíduo que o aguardava ao lado da cabine.

- Saudações, colega – veio o cumprimento tradicional do Responsável pelo setor dezessete.

- Saudações, colega.

- Muito bem, em que posso lhe ser útil?

- O Departamento de Genética me encarregou de fazer uma vistoria nos robôs semi-orgânicos experimentais que trabalham neste setor.

Honoh sabia tudo a respeito daquela nova linhagem de autômatos em fase de teste, graças às informações de seu solícito e falecido “amigo”. Ou ao menos era o que imaginava. Mas seu aprendizado na “carreira” de contraventor mostraria agora que nem o melhor dos planejamentos e o ambiente mais favorável tornam uma ação imune a imprevistos. Capacidade de improviso sempre seria algo necessário e fundamental.

- Mas aqui na Manutenção de Suportes Vitais só há um único R-SO – comentou o Responsável, estranhando o uso do plural na explicação do outro.

- É mesmo? – surpreendeu-se Honoh, genuinamente – espere um pouco... deixe-me ver aqui...

Honoh pegou do bolso o vídeo-instrutor sobre o neo-CTI e fingiu que estava consultando seus registros, como se fosse aquele o aparelho onde guardava suas informações sobre a distribuição dos R-SOs.

- Ah, está certo! – exclamou o criminoso – setor dezessete, Manutenção dos Suportes Vitais... uma única unidade R-SO. Devo ter me distraído quando deram a ordem e digitado na consulta o setor sete, Processamento de Nutrientes, ao invés do dezessete.

- Deve ser isso – disse o Responsável – No setor sete nós temos cinco unidades de R-SO.

Honoh quase não conseguiu esconder seu alívio pelo sucesso da temerária tentativa de consertar a falha inicial. Tinha arriscado muito nesse lance. Nem queria imaginar o que poderia ter acontecido se no setor sete houvesse apenas um ou nenhum robô semi-orgânico experimental.

Talvez fosse obrigado a tentar um novo assassinato.

- Você pode me levar até ele agora? – perguntou Honoh

- Claro. Me acompanhe – o Responsável do setor guiou o rebelde pelos corredores, continuando: - Como toda unidade nova, o R-SO 331 está sempre em atividade. Neste momento ele se encontra monitorando o único suporte vital que está em uso. A criança que o ocupa está quase pronta e liberada para a vida ativa. Em pouco tempo, talvez amanhã ou depois, ela já estará preparada para sair. Por isso, o R-SO quase não tem trabalho, e só precisa de três por cento de sua capacidade na função que executa. É só o que está usando agora.

- Excelente! – exclamou Honoh – Desse modo não há necessidade de retirá-lo do serviço para realizar a vistoria. Só preciso ter acesso à oitenta por cento da capacidade dele para fazer o meu trabalho – assegurou impulsivamente, em mais uma jogada de risco.

- Isso é ótimo – disse o outro, mostrando uma porta – Olhe, já chegamos. O 331 está nesta sala.

Quer que o acompanhe?

- Não há necessidade, obrigado.

- Mas eu...

- Além do mais, eu gosto de fazer este trabalho sozinho.

O Responsável falara com a voz ligeiramente alterada, meio hesitante – talvez, receou Honoh, até meio desconfiada... embora, em tese, não devessem existir motivos para desconfiança entre pessoas de seu povo. A não ser que seus primeiros atos rebeldes, amplamente divulgados ao redor do planeta por ocasião do evento que o conduziu ao exílio, estivessem agora influenciando o comportamento normal, abalando a confiança mútua dentro daquela sociedade até então sempre estável. Afinal, realmente fora aberto um precedente chocante e capaz de perturbar mentes mais melindrosas.

- Tudo bem. Sabe, eu pensei que os R-SO já não estivessem mais em fase experimental. A última vistoria foi há mais de setenta dias e os especialistas do seu departamento disseram que os robôs já estavam totalmente testados , aprovados e liberados para o uso permanente

- Bem, é que nunca se pode ter certeza absoluta, não é mesmo? Essa minha vistoria é apenas por garantia. Sabe como é, uma espécie de revisão de rotina – Honoh estava mais assustado do que nunca, porém, conseguiu aparentar desenvoltura e tranqüilidade.

- Ah, bom. Então deve ser por isso que você só precisa de oitenta por cento da capacidade do robô, enquanto os outros necessitavam de noventa e seis por cento para realizar as vistorias anteriores. – houve uma certa descontração no tom de voz do Responsável setorial.

- É isso mesmo – assentiu Honoh, diminuindo sua inquietação.

- Então está certo. Pode ficar à vontade, e, se precisar de alguma coisa, é só me chamar pelo interfone.

- Obrigado, colega.

O Responsável afastou-se, deixando atrás de si um renegado contente e aliviado, que entrou triunfante na sala onde trabalhava o R-SO 331.

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O R-SO 331 convinha perfeitamente aos planos do rebelde. Ele era não apenas a desculpa que Honoh arranjou para entrar no setor dezessete, como seria involuntariamente o instrumento com o qual ele atingiria seu objetivo imediato e encobriria as suas ações posteriormente.

Honoh possuía todos os conhecimentos necessários para ser capaz de reprogramar um robô, mesmo que fosse semi-orgânico – conhecia tanto os procedimentos eletrônicos, que dominava naturalmente, como os genéticos, fornecidos inadvertidamente por sua primeira vítima fatal durante seus longos bate-papos. Então ele introduziu com sucesso no guia-mestre do R-SO 331 um programa-pirata que indicaria sempre a presença de uma criança saudável dentro do suporte vital sob a responsabilidade do autômato.

O ex-cientista e ex-exilado havia trazido consigo uma pequena maleta que encontrara no aerocarro. O Responsável obviamente imaginara que o objeto continha as ferramentas necessárias para a realização da vistoria no R-SO.

Não teria motivos para supor a verdade: o fato de que não havia absolutamente nada no interior da maleta.

Ao menos não na chegada.

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- Está tudo perfeito com o R-SO 331 – assegurou Honoh ao sair minutos depois, acrescentando maiores detalhes – dentre todos os R-SO que estão aqui no Centro de Geração e Tutela Inicial, ele é o que foi produzido primeiro. Por isso, teve de ser o primeiro a sofrer a revisão de rotina. Logo eu voltarei para vistoriar os demais.

- Entendi – o Responsável do setor dezessete parecia livrar-se de sua última desconfiança.

Honoh inteligentemente havia se antecipado aos receios do interlocutor acerca da vistoria ser feita apenas no R-SO 331, evitando assim que o Responsável setorial decidisse fazer uma consulta sobre isso ao departamento de genética. Ninguém poderia descobrir sua falsa identidade antes que o plano todo fosse concluído.

- Agora eu tenho que ir – despediu-se Honoh, à frente da cabine amarela – Até breve, colega.

- Até breve, colega.

“Até nunca mais, idiota” – pensou Honoh.

Entrou na cabine, inseriu o cartão vibratório e apertou a tecla “recepção”. Saiu da cabine na recepção, atravessou a sala, devolveu o cartão vibratório ao robô-recepcionista e foi para a rua, recebendo do autômato outro cordial “até breve”.

Agora já podia passar às próximas fases do plano.

No setor dezessete, o Responsável talvez ficasse inutilmente aguardando, por vários dias, que o R-SO 331 desse o sinal de que a criança sob seus cuidados estava pronta para sair do suporte vital.

Quando se cansasse de esperar, descobriria que o suporte vital estava vazio.

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Um comentário:

  1. Como toda boa fã,vou ter que ser paciente até a chegada do post 00007...esse monte de zero já me fala que terei muuuuuuuito que ler né???
    Rsrsrsrsrsrsrs.
    Muito bom mesmo Alê...muito bom!
    Ee aqui... sempre a postos e aguardando mais um episódio dessa saga!

    Beijo na alma

    Tua fã n° ZERO

    Eu

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