Aterrissou o veículo diante de uma construção imponente. Acima do portal de entrada via-se uma placa com as seguintes inscrições:
Centro de Geração e Tutela Inicial
Cidade Guzug
Centro de Geração e Tutela Inicial
Cidade Guzug
Honoh, vestindo a roupa característica do Departamento de Genética do Instituto e utilizando as credenciais de sua recente vítima, atravessou o limiar do salão de visitas do edifício e dirigiu-se à recepção.
- O que deseja, colega – indagou a voz agradável e artificialmente produzida do recepcionista-robô.
Honoh apresentou o documento do Instituto, dizendo:
- Departamento de Genética. Vim para fazer uma vistoria em um dos robôs semi-orgânicos experimentais.
O autômato especializado apanhou delicadamente o documento das mãos do criminoso (cuja coleção de diferentes delitos crescia espantosamente) e submeteu o cartão à uma rápida checagem, no interior do seu corpo metálico flutuante. Dadas as características sociológicas de seu povo. às quais estava mais que habituado, Honoh não receava que a farsa na identidade fosse detectada. Verificações de segurança baseadas em voz, impressões corporais ou algo do gênero, que poderiam denunciá-lo, sequer existiam naquela civilização que sempre fora plenamente idônea em todos os aspectos. O Primeiro Criminoso, como certamente ele viria a ser conhecido (e Honoh sentiu um arrepio de orgulho ao pensar nisto, sinal de como sua intrigante e bem-vinda mudança fora profunda) não poderia ter desejado um ambiente mais propício do que aquele planeta para desempenhar as ações que planejara durante o exílio.
- Pois não – respondeu o recepcionista-robô, devolvendo as credenciais do Instituto ao visitante e indagando – Qual o setor, senhor Demed?
- Dezessete. Manutenção dos Suportes Vitais – dadas as conversas habilmente conduzidas com o falecido Demed sobre o seu dia-a-dia de trabalho, Honoh conhecia bem o interior do edifício.
- Vou avisar o Responsável. As cabines internas são as amarelas.
- Sei.
- Então pode ir – o recepcionista entregou a Honoh um cartão vibratório, que permitia o livre trânsito no interior do edifício – quando chegar lá, o Responsável do setor já estará a espera.
- Obrigado.
- Disponha, colega.
Honoh dirigiu-se à cabine amarela mais próxima, entrou, inseriu o cartão vibratório em uma fenda no console operativo e apertou uma tecla com o número dezessete impresso sobre ela. A iluminação no interior da cabine sofreu uma breve e intensa alteração, e Honoh ficou autorizado a sair. Quando o fez, deparou-se com um indivíduo que o aguardava ao lado da cabine.
- Saudações, colega – veio o cumprimento tradicional do Responsável pelo setor dezessete.
- Saudações, colega.
- Muito bem, em que posso lhe ser útil?
- O Departamento de Genética me encarregou de fazer uma vistoria nos robôs semi-orgânicos experimentais que trabalham neste setor.
Honoh sabia tudo a respeito daquela nova linhagem de autômatos em fase de teste, graças às informações de seu solícito e falecido “amigo”. Ou ao menos era o que imaginava. Mas seu aprendizado na “carreira” de contraventor mostraria agora que nem o melhor dos planejamentos e o ambiente mais favorável tornam uma ação imune a imprevistos. Capacidade de improviso sempre seria algo necessário e fundamental.
- Mas aqui na Manutenção de Suportes Vitais só há um único R-SO – comentou o Responsável, estranhando o uso do plural na explicação do outro.
- É mesmo? – surpreendeu-se Honoh, genuinamente – espere um pouco... deixe-me ver aqui...
Honoh pegou do bolso o vídeo-instrutor sobre o neo-CTI e fingiu que estava consultando seus registros, como se fosse aquele o aparelho onde guardava suas informações sobre a distribuição dos R-SOs.
- Ah, está certo! – exclamou o criminoso – setor dezessete, Manutenção dos Suportes Vitais... uma única unidade R-SO. Devo ter me distraído quando deram a ordem e digitado na consulta o setor sete, Processamento de Nutrientes, ao invés do dezessete.
- Deve ser isso – disse o Responsável – No setor sete nós temos cinco unidades de R-SO.
Honoh quase não conseguiu esconder seu alívio pelo sucesso da temerária tentativa de consertar a falha inicial. Tinha arriscado muito nesse lance. Nem queria imaginar o que poderia ter acontecido se no setor sete houvesse apenas um ou nenhum robô semi-orgânico experimental.
Talvez fosse obrigado a tentar um novo assassinato.
- Você pode me levar até ele agora? – perguntou Honoh
- Claro. Me acompanhe – o Responsável do setor guiou o rebelde pelos corredores, continuando: - Como toda unidade nova, o R-SO 331 está sempre em atividade. Neste momento ele se encontra monitorando o único suporte vital que está em uso. A criança que o ocupa está quase pronta e liberada para a vida ativa. Em pouco tempo, talvez amanhã ou depois, ela já estará preparada para sair. Por isso, o R-SO quase não tem trabalho, e só precisa de três por cento de sua capacidade na função que executa. É só o que está usando agora.
- Excelente! – exclamou Honoh – Desse modo não há necessidade de retirá-lo do serviço para realizar a vistoria. Só preciso ter acesso à oitenta por cento da capacidade dele para fazer o meu trabalho – assegurou impulsivamente, em mais uma jogada de risco.
- Isso é ótimo – disse o outro, mostrando uma porta – Olhe, já chegamos. O 331 está nesta sala.
Quer que o acompanhe?
- Não há necessidade, obrigado.
- Mas eu...
- Além do mais, eu gosto de fazer este trabalho sozinho.
O Responsável falara com a voz ligeiramente alterada, meio hesitante – talvez, receou Honoh, até meio desconfiada... embora, em tese, não devessem existir motivos para desconfiança entre pessoas de seu povo. A não ser que seus primeiros atos rebeldes, amplamente divulgados ao redor do planeta por ocasião do evento que o conduziu ao exílio, estivessem agora influenciando o comportamento normal, abalando a confiança mútua dentro daquela sociedade até então sempre estável. Afinal, realmente fora aberto um precedente chocante e capaz de perturbar mentes mais melindrosas.
- Tudo bem. Sabe, eu pensei que os R-SO já não estivessem mais em fase experimental. A última vistoria foi há mais de setenta dias e os especialistas do seu departamento disseram que os robôs já estavam totalmente testados , aprovados e liberados para o uso permanente
- Bem, é que nunca se pode ter certeza absoluta, não é mesmo? Essa minha vistoria é apenas por garantia. Sabe como é, uma espécie de revisão de rotina – Honoh estava mais assustado do que nunca, porém, conseguiu aparentar desenvoltura e tranqüilidade.
- Ah, bom. Então deve ser por isso que você só precisa de oitenta por cento da capacidade do robô, enquanto os outros necessitavam de noventa e seis por cento para realizar as vistorias anteriores. – houve uma certa descontração no tom de voz do Responsável setorial.
- É isso mesmo – assentiu Honoh, diminuindo sua inquietação.
- Então está certo. Pode ficar à vontade, e, se precisar de alguma coisa, é só me chamar pelo interfone.
- Obrigado, colega.
O Responsável afastou-se, deixando atrás de si um renegado contente e aliviado, que entrou triunfante na sala onde trabalhava o R-SO 331.
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O R-SO 331 convinha perfeitamente aos planos do rebelde. Ele era não apenas a desculpa que Honoh arranjou para entrar no setor dezessete, como seria involuntariamente o instrumento com o qual ele atingiria seu objetivo imediato e encobriria as suas ações posteriormente.
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O R-SO 331 convinha perfeitamente aos planos do rebelde. Ele era não apenas a desculpa que Honoh arranjou para entrar no setor dezessete, como seria involuntariamente o instrumento com o qual ele atingiria seu objetivo imediato e encobriria as suas ações posteriormente.
Honoh possuía todos os conhecimentos necessários para ser capaz de reprogramar um robô, mesmo que fosse semi-orgânico – conhecia tanto os procedimentos eletrônicos, que dominava naturalmente, como os genéticos, fornecidos inadvertidamente por sua primeira vítima fatal durante seus longos bate-papos. Então ele introduziu com sucesso no guia-mestre do R-SO 331 um programa-pirata que indicaria sempre a presença de uma criança saudável dentro do suporte vital sob a responsabilidade do autômato.
O ex-cientista e ex-exilado havia trazido consigo uma pequena maleta que encontrara no aerocarro. O Responsável obviamente imaginara que o objeto continha as ferramentas necessárias para a realização da vistoria no R-SO.
Não teria motivos para supor a verdade: o fato de que não havia absolutamente nada no interior da maleta.
Ao menos não na chegada.
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- Está tudo perfeito com o R-SO 331 – assegurou Honoh ao sair minutos depois, acrescentando maiores detalhes – dentre todos os R-SO que estão aqui no Centro de Geração e Tutela Inicial, ele é o que foi produzido primeiro. Por isso, teve de ser o primeiro a sofrer a revisão de rotina. Logo eu voltarei para vistoriar os demais.
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- Está tudo perfeito com o R-SO 331 – assegurou Honoh ao sair minutos depois, acrescentando maiores detalhes – dentre todos os R-SO que estão aqui no Centro de Geração e Tutela Inicial, ele é o que foi produzido primeiro. Por isso, teve de ser o primeiro a sofrer a revisão de rotina. Logo eu voltarei para vistoriar os demais.
- Entendi – o Responsável do setor dezessete parecia livrar-se de sua última desconfiança.
Honoh inteligentemente havia se antecipado aos receios do interlocutor acerca da vistoria ser feita apenas no R-SO 331, evitando assim que o Responsável setorial decidisse fazer uma consulta sobre isso ao departamento de genética. Ninguém poderia descobrir sua falsa identidade antes que o plano todo fosse concluído.
- Agora eu tenho que ir – despediu-se Honoh, à frente da cabine amarela – Até breve, colega.
- Até breve, colega.
“Até nunca mais, idiota” – pensou Honoh.
Entrou na cabine, inseriu o cartão vibratório e apertou a tecla “recepção”. Saiu da cabine na recepção, atravessou a sala, devolveu o cartão vibratório ao robô-recepcionista e foi para a rua, recebendo do autômato outro cordial “até breve”.
Agora já podia passar às próximas fases do plano.
No setor dezessete, o Responsável talvez ficasse inutilmente aguardando, por vários dias, que o R-SO 331 desse o sinal de que a criança sob seus cuidados estava pronta para sair do suporte vital.
Quando se cansasse de esperar, descobriria que o suporte vital estava vazio.
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Como toda boa fã,vou ter que ser paciente até a chegada do post 00007...esse monte de zero já me fala que terei muuuuuuuito que ler né???
ResponderExcluirRsrsrsrsrsrsrs.
Muito bom mesmo Alê...muito bom!
Ee aqui... sempre a postos e aguardando mais um episódio dessa saga!
Beijo na alma
Tua fã n° ZERO
Eu