sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Post 000014

Ao recobrar a consciência, o cientista se viu cercado pela completa escuridão. Sentiu de imediato a fraqueza da fome, mais intensa do que nunca.

Esforçou-se para movimentar o corpo, percebendo algo que o despertou completamente. Estava mergulhado em uma substância viscosa, um liquido muito grosso que dificultava enormemente seus movimentos.

Ele havia desmaiado porque o esforço emocional exigido pela situação desesperadora fora demais para seu estado debilitado. Escapara por muito pouco, exigindo o máximo de seu corpo e mente – somente para, ao acordar do desmaio, se ver novamente em dificuldades.

Por mais que se debatesse – ou “tentasse” se debater – não conseguia, ao menos aparentemente, sair do lugar.

Mas de que adiantaria tentar se movimentar naquela substância, se não sabia nem mesmo onde era em cima ou embaixo? Se conseguisse avançar, como saberia que a direção escolhida o levaria a superfície? Talvez acabasse se aprofundando ainda mais naquele liquido viscoso.

Aquela viagem ao Microverso estava sendo muito mais difícil e perigosa do que poderia ter imaginado.

Tinha uma enorme e vital tarefa a cumprir – e nem ao menos conseguia se manter vivo sem complicações.

“Só espero” – pensou o cientista – “que o maluco responsável por tudo isso esteja em situação muito pior”.

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A sonda retornou depois de algum tempo. A duração de sua ausência significava que ela não havia encontrado nada além da substância misteriosa numa extensão de 100 metros. O cientista renovou o programa da sonda e a enviou em outra direção, baseado nos resultados anteriores. Esperava que ela encontrasse a superfície e lhe indicasse a direção.

Desde o inicio daquele procedimento ele permanecia completamente imóvel, tanto por reconhecer a inutilidade em se debater dentro daquela espécie de piche, como por ser a imobilidade agora algo vital para o sucesso de seu estratagema.

Todos os instrumentos detectores e analisadores da sonda estavam desligados, e toda a energia do microrreator da mesma estava dirigida apenas aos seus dispositivos de antigravidade e propulsão. Isto era necessário para que ela pudesse se movimentar através daquele ambiente viscoso, que gerava uma atração de aproximadamente 2g.

Pela densidade do material em que estava imerso e pela força gravitacional à qual estava agora submetido, o cientista calculou estar em torno de 50 metros abaixo da superfície. Por segurança, programara a sonda para percorrer sempre 100 metros em linha reta antes de retornar.

Visando ter energia suficiente para se locomover naquele ambiente desfavorável, a sonda não poderia utilizar o seu registrador de índice gravitacional. Mesmo o registrador de consumo energético estava desativado. Com esse aparelho funcionando, a sonda poderia registrar um aumento ou uma redução do consumo energético do antigravitador, caso se afastasse ou se aproximasse da superfície do planeta, respectivamente. Se a sonda registrasse uma redução do consumo, significaria que a gravidade à qual estava submetida era menor do que a do ponto de partida, ou seja, estava se aproximando da superfície, do ambiente livre daquela espécie de piche. Se a sonda, porém, registrasse um aumento do consumo, que já era quase de 100%, estaria se afundando mais naquele “liquido”. De qualquer forma o cientista saberia qual seria a direção correta a seguir para sair daquele lugar.

Contudo, precisando utilizar cada fração de energia disponível para conseguir simplesmente se movimentar, a sonda tinha que dispensar todos os sensores, inclusive os registradores de índice gravitacional e de consumo energético. A sonda estava, portanto, “cega, surda e muda”.

Então, o que faria o cientista para saber a direção da superfície? Não seria seu estratagema inútil?

Não. Não era inútil.

Ironicamente, a própria falta de instrumentos, a “cegueira” da sonda, é o que permitiria agora ao cientista determinar a direção da superfície, Claro, com os sensores tudo seria mais simples e seguro, mas eles não podiam mesmo ser utilizados.

A sonda estava com o detector gravitacional e o registrador de consumo - que também serviam como controladores de potência - desligados. A conclusão era óbvia.

Com a capacidade máxima de impulsão e incapaz de avaliar a força gravitacional à qual estava submetida, quando a sonda se aproximasse ou saísse para a superfície, algo iria mudar: sua velocidade aumentaria. A capacidade máxima, no momento suficiente apenas para locomovê-la a 10m/s sob gravidade de 2g, numa gravidade menor faria com que o deslocamento fosse muito mais rápido (já que o registrador de índice gravitacional, inativo, não cumpriria uma de suas principais funções, que era controlar – no caso, reduzir – automaticamente a potência do microreator, para manter constante a velocidade da sonda).

Caso a sonda se aprofundasse mais no liquido, não tendo mais fontes de energia às quais recorrer (pois os aparelhos estavam na regulagem máxima), não conseguiria prosseguir e retornaria imediatamente após avançar poucos metros. Isso porque apesar de avançar a favor da atração gravitacional, estava programada para anular essa força, que cresceria além da capacidade do antigravitador.

Se o registrador de índice gravitacional estivesse funcionamento, a sonda simplesmente utilizaria a atração como propulsão para prosseguir no deslocamento. Detectaria o incremento natural a favor da direção de seu deslocamento e desativaria o antigravitador, mantendo o aparelho propulsor como base.

O cientista possuía, portanto, dois valores seguros para alcançar seus objetivos.

Se a sonda seguisse paralelamente à superfície, avançando e retrocedendo os 100 metros, retornaria em 20 segundos. Se descesse mais, em 4 segundos estaria de volta.

Portanto, se ela partisse em direção à superfície, voltaria em um intervalo de tempo intermediário entre estes dois valores. Assim, o cientista poderia descobrir a direção desejada, conforme as variações do tempo que a sonda demorasse para retornar até ele.

Descobriu a direção em que a sonda retornava em quatro segundos. Ela ficava sobre a sua cabeça.

Enviou a sonda diversas vezes na direção dos pés até descobrir o ponto em que ela retornava mais rapidamente até ele. Então, fixou nela um cabo de ribélio que fazia parte do equipamento do traje.

Conservando na sonda a potência máxima, programou-a agora para que seguisse continuamente na direção desejada, até que ele desse o sinal de retorno pelo controle remoto. Felizmente, a programação da sonda era realizada através de uma linha especial de radiocomunicação. Seria impraticável qualquer trabalho manual mais complexo, dentro daquela escuridão total e impenetrável por qualquer lanterna ou holofote. Aquele material denso no qual estava mergulhado constituía-se em uma barreira física que impedia a passagem de fótons.

O cientista prendeu a outra extremidade do cabo em uma argola que havia no pulso do traje protetor. Então deu o sinal de partida para a sonda. Ela seguiu imediatamente na direção escolhida, e durante alguns tensos segundos o cientista ficou sentindo o cabo desenrolar-se em suas mãos.

Ele não sabia de onde estava conseguindo forças para executar tais procedimentos, imerso naquela substância que atrapalhava seus movimentos e em vista do estado de extrema fraqueza em que se encontrava. Talvez aquela última reserva de energia recentemente despertada com a descarga de adrenalina durante a queda em direção a OXI-17 ainda não houvesse se esgotado, afinal.

Quando o cabo se esticou, o cientista levou um leve tranco, começando involuntariamente a executar um giro de 180 graus dentro do líquido.

Se a sonda tinha força suficiente para puxá-lo, então forçosamente devia agora já estar sob uma gravidade bem inferior a 2g – ou seja, ao ar livre.

Ele começou a subir bem lentamente, içado pelos aparelhos antigravitacional e propulsor da pequenina sonda. Logo, impaciente graças à debilidade física e mental, cometeu um gesto inconsequente, algo arriscado e desnecessário. Retirou uma das três mãos que seguravam no cabo e ligou os microjatos propulsores do traje, que ainda contavam com os dois microrreatores adicionais. Agora que estava na direção certa, imaginou que aquilo ajudaria, acelerando a subida.

Sua velocidade de ascensão de fato aumentou. O traje de ribélio não corria perigo com a energia represada pela substância viscosa que o cercava, mas o cientista se arriscava a perder o equipamento propulsor. Com os bocais dos jatos entupidos pelo líquido espesso, poderia ter ocorrido uma implosão. Felizmente, a força das emissões de partículas em alta temperatura foi suficiente para calcinar imediatamente a matéria que bloqueava os bocais de saída dos jatos.

Após alguns minutos de enorme expectativa, o cientista saiu abruptamente para a luz do sol. Ofuscado, mas muito aliviado, demorou alguns instantes para se adaptar à claridade e lançar um olhar ao redor.

Desligou os jatos e trouxe a sonda de volta. Estava tão aliviado que mal conseguiu evitar um desmaio por esgotamento psíquico. Ele precisava encontrar comida dentro de poucas horas. Se perdesse os sentidos agora, talvez nunca mais acordasse.

Viu que estava no meio de um mar. Num raio de aproximadamente 10 metros à sua volta, a substância viscosa apresentava-se negra, provavelmente afetada pelo calor que ele emanara quando, incandescente, mergulhara do céu naquele ponto. Após esta circunferência negra, o mar viscoso assumia uma coloração marrom.

Ao longe o cientista avistou uma pequena ilha rochosa, sobressaindo solitária em meio àquela paisagem monótona.

Permanecendo presa ao cabo que a ligava ao traje, a sonda, ainda regulada na potência máxima, recebeu uma ordem para seguir na direção da ilha. Sem dificuldades, o cientista foi rebocado pela sonda com o auxílio adicional dos microjatos do traje, até chegar à estéril formação rochosa. Ele agarrou-se às pedras do litoral, desativou a sonda e os jatos e, com algum esforço, conseguiu se arrastar para cima da ilha, saindo do mar escuro. Deitou-se sobre as pedras, exausto.

Sentiu vontade de dormir, uma vontade quase irresistível. Estava muito, mas muito cansado mesmo. Dois dias sem dormir, aliados ao esforço físico-psíquico das últimas horas e à fraqueza provocada pela fome o deixavam no auge da exaustão.

Começou a pegar no sono. Como ansiava por um pequeno descanso! Apenas para relaxar um pouco e recuperar as forças... tão cansado...que mal havia num pequeno cochilo?

Tão relaxante... gostoso... necessário... tão... t...

Não!

Levantou-se do chão com um salto, apavorado. Às portas da morte, quase havia dormido! Poderia ter sido o sono definitivo!

Procurou clarear o raciocínio embotado. Em hipótese alguma poderia dormir agora. Não antes de se alimentar.

Se dormisse, dificilmente acordaria. Seria o fim.

Desprendeu a sonda do cabo e mandou-a localizar as formas de vida que ela havia detectado antes da sua trágica queda em OXI-17. Agora com todos os sensores reativados, ela retornou após apenas alguns segundos percorrendo as redondezas. Sequer saíra do campo de visão do cientista, que estranhou o ocorrido – afinal, não se avistavam quaisquer indícios de vida, sequer vegetal. O enfraquecido analista estudou ansiosamente os resultados.

Em toda a redondeza vasculhada, somente em dois pontos a sonda não detectara vida: na área negra do mar, onde o cientista mergulhara, e, com exceção dele próprio, na área ocupada pela ilha rochosa. Fora isso, a sonda registrou emissão de pulsos orgânicos por toda parte. Eles não se movimentavam e não podiam ser focalizados, estavam em todo o mar escuro.

O cientista raciocinou um pouco – agora já com certa dificuldade, diga-se de passagem.

Aquela vida não estava em todo o mar.

Era o próprio mar.

Aquela substância escura e viscosa, na qual há pouco estava imerso, consistia em uma exótica forma de vida. Provavelmente, era o único habitante e o dono absoluto de OXI–17. Não era como os mares de outros planetas, que possuíam microorganismos em abundância misturados com o líquido. A sonda, em sua atual programação, não registraria isso como forma de vida. Aquele mar era um único ser, evoluído e fragmentário, sem coesão.

O cientista foi até a margem da ilha e colheu uma amostra do mar. Colocou a amostra no analisador do traje, ligando-o.

O resultado foi decepcionante.

Mais que decepcionante, completamente desesperador.

E o cientista já se considerou um indivíduo morto.

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quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Post 000013

O alimentador do traje espacial, que agora só tinha reservas para mais 30 horas de consumo, era um equipamento automático. O alimento era colocado em seu interior e transformado em plasma alimentício, que ficava armazenado. Periodicamente, o alimentador, ligado diretamente ao corpo da pessoa por um tubo hipodérmico flexível, injetava uma determinada quantidade de plasma alimentício no organismo do indivíduo, o suficiente para mantê-lo abastecido de nutrientes até a próxima dose. Era um sistema inteiramente independente, que mantinha a pessoa alimentada mesmo se ela estivesse inconsciente. Neste processo, os sistemas digestivo e excretor do individuo permaneciam quase inativos. Não havia realmente alimento para ser processado pelo organismo - o plasma alimentício era composto exclusivamente pelos ingredientes absorvidos, essenciais à sobrevivência do corpo. Ou seja, apenas aquilo que seria efetivamente aproveitado pelo organismo após uma refeição normal.

O cientista abandonou OXI-8, programando o STEP para transportá-lo ao espaço. De lá, escolheu uma estrela próxima e saltou novamente.

No interior do sistema, gastou algumas horas saltando de planeta em planeta detectado pelo rastreador de eco gravitacional, um pequeno e fantástico aparelho de longo alcance. O sistema possuía uma larga e animadora faixa de vida, ou seja, planetas que ofereciam condições adequadas de temperatura para o surgimento espontâneo de vida nativa. Talvez isto realmente ocorresse em alguns desses mundos, mas o cientista não teve qualquer razão para verificar pessoalmente. A sonda exploradora fez o seu serviço.

Nenhum planeta de oxigênio nesse sistema.

Continuou saltando de estrela em estrela, seguindo uma imaginária linha reta utilizando como ponto de referência o superluminoso centro da galáxia. Aquela era uma galáxia muito pequena. E muito jovem, também. Por isso, em tese, seria difícil encontrar planetas que já houvessem produzido formas de vida mais desenvolvidas – mais ainda que no aglomerado galáctico de origem do povo cientista, que os decepcionara profundamente ao não lhes revelar qualquer outra civilização, à despeito de ser uma região estelar já bem antiga.

Eventualmente, o cientista encontrava mundos de oxigênio - sem que qualquer deles, por um motivo ou outro, servisse a seus propósitos. Alguns eram desprovidos de vida, outros eram nocivos ao seu organismo. Encontrava planetas e luas muito promissores, mas acabava descobrindo que eram radioativos ou possuíam microorganismos perigosos, como OXI-8.

Com suas reservas alimentares recém-esgotadas e já se sentindo um pouco debilitado, materializou-se na esfera gravitacional de OXI-17. A sonda foi enviada para analisar a superfície do planeta. Quando ela retornou, o cientista constatou que não foram registradas situações de alerta, como radiações ou microorganismos nocivos. Em contrapartida, detectara uma forma de vida... mas não havia conseguido determinar a fonte dos impulsos orgânicos. Simplificando, não se sabia de que espécie era a vida nativa daquele planeta.

Mas aquilo era o suficiente para o cientista. No estado de fraqueza em que se encontrava, desnutrido e desesperado, ele não estava em condições de ficar aguardando uma determinação segura sobre o que realmente havia naquele mundo. Seu raciocínio já estava ficando lento, o temperamento revelava uma irritação atípica e o corpo apresentava um leve tremor. Assim, resolveu arriscar um micro-salto até a superfície do planeta.

O STEP foi acionado.

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Se o cientista estivesse com seu raciocínio em ordem e não fosse tão precipitado e descuidado – justificadamente, é claro – teria verificado em seus instrumentos que OXI-17 emitia ininterruptos impulsos energéticos que interferiam no sobreespaço. Claro, não se poderia esperar que alguém no estado físico e psicológico em que o pobre analista se encontrava no momento conseguisse de fato ser meticuloso a ponto de examinar uma possibilidade tão remota quanto aquela.

Próximo de um planeta comum, o uso do STEP já seria arriscado. Em OXI-17, porém, era simplesmente impossível.

No momento do salto, os impulsos pentadimensionais do planeta interferiram no funcionamento do aparelho, provocando o desastre.

O cientista não saiu do lugar. O salto não se concretizou.

Contorcendo-se de dor, ele sentiu como se o universo ao seu redor estivesse explodindo. Depois de intermináveis segundos de sofrimento e perplexidade, os efeitos do choque sobreespacial passaram, devolvendo-lhe a percepção das coisas.

Então, surpreso ao ver que ainda estava vivo, o cientista prestou atenção à paisagem que o rodeava e localizou OXI-17, imóvel, ainda ocupando o mesmo ponto no espaço antes da tentativa do salto, em relação à sua própria posição.

Alguns momentos de observação a mais, contudo, puseram abaixo esta primeira impressão. Imóvel?

Imóvel, não! O planeta parecia se aproximar vertiginosamente dele.

Percebeu apavorado o que acontecia.

Estava caindo.

O micro-aparelho antigravitacional do seu traje, que até então anulava a força da gravidade de OXI-17, mantendo-o pairando em um ponto fixo do espaço atmosférico, não estava mais funcionando. Certamente era uma conseqüência do choque sobreespacial.

O cientista caia cada vez mais rápido, conforme a atração gravitacional do planeta se tornava mais intensa em função da assustadoramente crescente proximidade da superfície. Se ele não fizesse algo para impedir o choque com a superfície de OXI-17, A violência do impacto reduziria seu corpo a uma pasta orgânica quase liquefeita encerrada no interior de um traje espacial intacto.

O campo protetor, devidamente ajustado na amplitude máxima e em regulagem bem aberta, teria a capacidade de amortecer o impacto fatal, conforme uma maior porcentagem dele fosse entrando em contacto com o solo. Não era a finalidade para a qual o campo fora projetado, mas salvaria a vida do cientista, reduzindo gradativamente a velocidade da queda.

Uma redução abrupta seria tão fatal quando um impacto direto. Sem uma inicialização em amplitude máxima, na situação atual o campo energético de nada valeria como proteção à sua integridade física. Mesmo sem entrar em contato direto com a superfície, o cientista seria destroçado quando a queda terminasse abruptamente, graças aos princípios da inércia sobre massa. A questão não era colocar algo entre ele e o solo que se aproximava, mas utilizar um recurso (mesmo improvisado) de frenagem da velocidade de queda.

Extrapolando o sentido literal para o qual fora projetado, o campo teria sua potência, normalmente concentrada em uma esfera com diâmetro inferior a dois metros, distribuída num raio de quilômetros. Durante o procedimento que estava imaginando, conforme se aproximasse do planeta estaria reduzindo o tamanho da esfera, cuja consistência cada vez mais densa em contato com o solo seria como uma almofada, reduzindo a velocidade da queda. No final, assumiria suas dimensões compactas, normais, adquirindo a consistência sólida que em outras situações seria a proteção ideal contra algum tipo de agressão.

Mas a sincronia entre a compressão do campo expandido e a aproximação final do solo precisaria ser bem manipulada. No final da queda, readquirindo a consistência de um campo capaz de repelir frio, calor, descargas energéticas e objetos sólidos em alta velocidade, a pequena esfera estaria envolvendo o cientista em um raio de dois metros, impedindo que tocasse no chão. Neste momento, o campo já teria cumprido sua finalidade improvisada, podendo ser desativado.

O percurso da queda, antes do campo amplificado ter contato com o solo e agir como amortecedor, não oferecia perigo, apesar do intenso calor provocado pela entrada na atmosfera, graças ao atrito entre a massa atraída pela gravidade e as moléculas de oxigênio e outros gases atmosféricos presentes em sua trajetória. O traje espacial do cientista, além de boa parte de seu equipamento, era feito de ribélio com uma camada isolante interna de teomulida, protegendo-o totalmente contra as condições de atrito e temperatura do ambiente externo.

Esses pensamentos não duraram mais que alguns segundos, enquanto o cientista levava sua mão ao dispositivo que acionaria o campo de força protetor. Ele ainda não havia olhado para a sua cintura, onde estariam presos todos os instrumentos. Por isso, quando seu dedo tocou a tecla de ativação do campo e não aconteceu nada, o choque que levou ao finalmente dirigir seu olhar para a faixa de equipamentos foi indescritível. Pânico era um termo que não expressava suficientemente o estado de desespero que o dominou.

Tinha motivos de sobra para tanto.

No local onde antes ficava instalado o STEP, agora não havia absolutamente mais nada! E tanto o gerador de campo protetor, instalado à direita do STEP, quanto o gerador antigravitacional, localizado à esquerda, estavam obviamente incapacitados – já que, de ambos, só restava uma metade da peça. Não se viam mais as outras metades, antes encostadas ao também desaparecido STEP. A parte do traje sobre a qual haviam sido instalados estes equipamentos mostrava agora um remendo, certamente providenciado pelo sistema de reparo instantâneo da vestimenta espacial (que, no entanto não acionara o alarme de vazamento. Provavelmente o alarme de danos também fora avariado pelo choque sobreespacial).

Quando viu o remendo no traje espacial, o cientista subitamente tomou consciência de uma dor intensa na parte de seu corpo abaixo dele. Bom, seria mesmo de se esperar que um choque capaz de obliterar até mesmo algo feito de ribélio pudesse também ter causado um ferimento no vulnerável material orgânico logo abaixo. Provavelmente perdera um naco de carne da cintura. Mas não podia se preocupar com isso agora. Suas atuais chances de sobrevivência eram ridículas, e qualquer outra coisa perdia toda a importância frente a este fato aterradoramente real.

Todas estas considerações consumiram mais alguns preciosos instantes. Ele já começava a perceber detalhes geográficos da superfície de OXI-17.

Com dificuldade, obrigou sua mente cientifica a calcular uma forma de salvá-lo. Nunca havia sentido a morte tão próxima. Seu cérebro fez um esforço supremo para encontrar uma saída enquanto suas mãos há trabalhavam no equipamento do traje, avaliando os danos e possibilidades.

Sua vida sempre fora calma, tranqüila. Agora, tudo mudara. De repente, se via envolvido em situações que o obrigavam a sobrecarregar seu cérebro e suas emoções até os últimos limites. Em um prazo de poucas horas, agora pela segunda vez, estava sendo obrigado a conhecer e lidar com uma sensação completamente nova não apenas em sua vida, mas na da maioria absoluta de seus conterrâneos ao longo dos últimos milênios: o desespero máximo. Seus novos aprendizados eram à base de um tratamento de choque. Aprenda ou morra - e leve todo o Multiverso consigo.

No estado de nervosismo em que se encontrava, vendo sua vida tão perto de chegar ao fim, ele até se esqueceu da debilidade que atacava seu organismo faminto. Era como se novas reservas de energia saíssem de dentro de si, um último e secreto recurso despertado pelo perigo da situação. Sua mente, que antes do desastre estava embotada, confusa e lenta, agora parecia mais desperta e ágil do que nunca. Uma súbita – e talvez derradeira – onda de vitalidade invadiu seu corpo e mente.

Já conseguira elaborar mentalmente o único procedimento que poderia salvá-lo agora. A última esperança. Talvez – provavelmente, até – não funcionasse, mas não poderia deixar de ao menos tentar.

Ágil e focado como nunca antes, o cientista fez todas as ligações necessárias entre os equipamentos do traje, numa velocidade e precisão jamais experimentadas por ele. Nas metades que sobraram dos semidesaparecidos projetores de antigravidade e de campo protetor, felizmente estavam salvos e intactos os microrreatores que forneciam energia a esses dois aparelhos. Em poucos segundos, já percebendo a incandescência que estava surgindo ao redor do traje, fez uma ligação precária entre os dois microreatores e o equipamento propulsor.

Os jatos de propulsão do traje, que não haviam sido atingidos pelo choque sobreespacial, serviam para locomover o individuo submetido à ação do aparelho antigravitacional dentro do raio de atuação da força atrativa de algum astro. No espaço sideral, onde não havia força gravitacional, os jatos atuavam independentemente do antigravitador, impulsionando a pessoa na direção desejada. Os jatos, em número de três, eram cilindros de dez centímetros de diâmetro e trinta de comprimento, dispostos a distâncias iguais ao redor da cintura do traje e presos sobre um eixo móvel, que direcionava os bocais dos jatos de acordo com a vontade do operador. Dos três bocais eram expelidos feixes de partículas gerados por um único microrreator. Os bocais, para movimentar adequadamente o indivíduo, deviam ser apontados na direção oposta à desejada. Os feixes de partículas, então, impulsionariam o corpo sem ação da gravidade. Um método simples, um sistema até primitivo para os padrões da raça-cientista, embora, claro, perfeitamente eficaz dentro da situação a que se propunha ser necessário.

Sem o auxilio do antigravitador, estando o corpo submetido à gravidade de um planeta como OXI-17, contudo, os jatos tornavam-se inúteis. O microrreator que os alimentava não produzia energia suficiente para criar feixes de partículas fortes o bastante, que conseguissem vencer a atração gravitacional de um astro volumoso.

Era um ponto falho no equipamento, só agora notado, pois só agora se tornava relevante. A energia do microrreator era insuficiente para competir com uma força de atração superior a 0,3g. Não se fora cogitada a hipótese de pane no aparelho antigravitacional do traje.

Os jatos estavam agora com os bocais apontados na direção da superfície que se aproximava vertiginosa e inexoravelmente. A força gravitacional de OXI-17 era de 1g exato.

Sabendo que precisava conseguir na primeira tentativa, o cientista ligou os microrreatores dos aparelhos semidesaparecidos ao distribuidor de energia dos jatos. A energia destes dois microrreatores foi somada à do microrreator original do equipamento de propulsão. Como todos os microrreatores do traje eram do tipo padrão M-9, os dois adicionais, somados ao convencional dos jatos, produziam em conjunto energia suficiente para criar feixes de partículas capazes de vencer uma atração gravitacional de 0,9g, um décimo de g a menos do que a de OXI-17.

Os últimos ajustes foram angustiantes para o cientista. Ele já não tinha uma visão direta do equipamento, em função da incandescência que cercava o traje no choque da entrada na atmosfera em grande velocidade. Foi obrigado a completar a operação improvisada exclusivamente pelo tato, sabendo que não poderia falhar na primeira vez. Um erro e seria tarde demais para tentar novamente.

Quando completou o serviço, apenas seis quilômetros antes de chegar à superfície do planeta, ligou imediatamente a chave de ativação dos jatos. Percebeu, com enorme satisfação, a súbita vibração deles através do traje e o choque provocado pela frenagem repentina.

No último quilômetro a velocidade já estava reduzida a ponto de não poder lhe causar danos fatais no impacto. O choque com a superfície poderia ser evitado caso os três microreatores produzissem energia para anular ao menos 1g, porém, anulando 0,9g, isso era impossível, e o impacto inevitável. Mas a descida seria suficientemente retardada.

Enquanto percorria o quilômetro final, o cientista teve um segundo para desejar ardentemente que a superfície de OXI-17, especialmente no ponto de choque com a superfície, fosse bem macia. Sem campo de força protetor, poderia sair bem ferido dessa queda.

Mais tarde se arrependeu por ter desejado isso.

Alguma força cósmica pareceu ouvir seu pedido – e exagerou ao atendê-lo.

Chegou ao final da queda e, de modo um tanto brusco, estabeleceu contato com a superfície do planeta.Ainda teve tempo de reverenciar a memória dos Primeiros Cientistas pelo fato de estar e poder continuar vivo. Ao menos por enquanto.

Então perdeu os sentidos.