Ao recobrar a consciência, o cientista se viu cercado pela completa escuridão. Sentiu de imediato a fraqueza da fome, mais intensa do que nunca.
Esforçou-se para movimentar o corpo, percebendo algo que o despertou completamente. Estava mergulhado em uma substância viscosa, um liquido muito grosso que dificultava enormemente seus movimentos.
Ele havia desmaiado porque o esforço emocional exigido pela situação desesperadora fora demais para seu estado debilitado. Escapara por muito pouco, exigindo o máximo de seu corpo e mente – somente para, ao acordar do desmaio, se ver novamente em dificuldades.
Por mais que se debatesse – ou “tentasse” se debater – não conseguia, ao menos aparentemente, sair do lugar.
Mas de que adiantaria tentar se movimentar naquela substância, se não sabia nem mesmo onde era em cima ou embaixo? Se conseguisse avançar, como saberia que a direção escolhida o levaria a superfície? Talvez acabasse se aprofundando ainda mais naquele liquido viscoso.
Aquela viagem ao Microverso estava sendo muito mais difícil e perigosa do que poderia ter imaginado.
Tinha uma enorme e vital tarefa a cumprir – e nem ao menos conseguia se manter vivo sem complicações.
“Só espero” – pensou o cientista – “que o maluco responsável por tudo isso esteja em situação muito pior”.
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A sonda retornou depois de algum tempo. A duração de sua ausência significava que ela não havia encontrado nada além da substância misteriosa numa extensão de 100 metros. O cientista renovou o programa da sonda e a enviou em outra direção, baseado nos resultados anteriores. Esperava que ela encontrasse a superfície e lhe indicasse a direção.
Desde o inicio daquele procedimento ele permanecia completamente imóvel, tanto por reconhecer a inutilidade em se debater dentro daquela espécie de piche, como por ser a imobilidade agora algo vital para o sucesso de seu estratagema.
Todos os instrumentos detectores e analisadores da sonda estavam desligados, e toda a energia do microrreator da mesma estava dirigida apenas aos seus dispositivos de antigravidade e propulsão. Isto era necessário para que ela pudesse se movimentar através daquele ambiente viscoso, que gerava uma atração de aproximadamente 2g.
Pela densidade do material em que estava imerso e pela força gravitacional à qual estava agora submetido, o cientista calculou estar em torno de 50 metros abaixo da superfície. Por segurança, programara a sonda para percorrer sempre 100 metros em linha reta antes de retornar.
Visando ter energia suficiente para se locomover naquele ambiente desfavorável, a sonda não poderia utilizar o seu registrador de índice gravitacional. Mesmo o registrador de consumo energético estava desativado. Com esse aparelho funcionando, a sonda poderia registrar um aumento ou uma redução do consumo energético do antigravitador, caso se afastasse ou se aproximasse da superfície do planeta, respectivamente. Se a sonda registrasse uma redução do consumo, significaria que a gravidade à qual estava submetida era menor do que a do ponto de partida, ou seja, estava se aproximando da superfície, do ambiente livre daquela espécie de piche. Se a sonda, porém, registrasse um aumento do consumo, que já era quase de 100%, estaria se afundando mais naquele “liquido”. De qualquer forma o cientista saberia qual seria a direção correta a seguir para sair daquele lugar.
Contudo, precisando utilizar cada fração de energia disponível para conseguir simplesmente se movimentar, a sonda tinha que dispensar todos os sensores, inclusive os registradores de índice gravitacional e de consumo energético. A sonda estava, portanto, “cega, surda e muda”.
Então, o que faria o cientista para saber a direção da superfície? Não seria seu estratagema inútil?
Não. Não era inútil.
Ironicamente, a própria falta de instrumentos, a “cegueira” da sonda, é o que permitiria agora ao cientista determinar a direção da superfície, Claro, com os sensores tudo seria mais simples e seguro, mas eles não podiam mesmo ser utilizados.
A sonda estava com o detector gravitacional e o registrador de consumo - que também serviam como controladores de potência - desligados. A conclusão era óbvia.
Com a capacidade máxima de impulsão e incapaz de avaliar a força gravitacional à qual estava submetida, quando a sonda se aproximasse ou saísse para a superfície, algo iria mudar: sua velocidade aumentaria. A capacidade máxima, no momento suficiente apenas para locomovê-la a 10m/s sob gravidade de 2g, numa gravidade menor faria com que o deslocamento fosse muito mais rápido (já que o registrador de índice gravitacional, inativo, não cumpriria uma de suas principais funções, que era controlar – no caso, reduzir – automaticamente a potência do microreator, para manter constante a velocidade da sonda).
Caso a sonda se aprofundasse mais no liquido, não tendo mais fontes de energia às quais recorrer (pois os aparelhos estavam na regulagem máxima), não conseguiria prosseguir e retornaria imediatamente após avançar poucos metros. Isso porque apesar de avançar a favor da atração gravitacional, estava programada para anular essa força, que cresceria além da capacidade do antigravitador.
Se o registrador de índice gravitacional estivesse funcionamento, a sonda simplesmente utilizaria a atração como propulsão para prosseguir no deslocamento. Detectaria o incremento natural a favor da direção de seu deslocamento e desativaria o antigravitador, mantendo o aparelho propulsor como base.
O cientista possuía, portanto, dois valores seguros para alcançar seus objetivos.
Se a sonda seguisse paralelamente à superfície, avançando e retrocedendo os 100 metros, retornaria em 20 segundos. Se descesse mais, em 4 segundos estaria de volta.
Portanto, se ela partisse em direção à superfície, voltaria em um intervalo de tempo intermediário entre estes dois valores. Assim, o cientista poderia descobrir a direção desejada, conforme as variações do tempo que a sonda demorasse para retornar até ele.
Descobriu a direção em que a sonda retornava em quatro segundos. Ela ficava sobre a sua cabeça.
Enviou a sonda diversas vezes na direção dos pés até descobrir o ponto em que ela retornava mais rapidamente até ele. Então, fixou nela um cabo de ribélio que fazia parte do equipamento do traje.
Conservando na sonda a potência máxima, programou-a agora para que seguisse continuamente na direção desejada, até que ele desse o sinal de retorno pelo controle remoto. Felizmente, a programação da sonda era realizada através de uma linha especial de radiocomunicação. Seria impraticável qualquer trabalho manual mais complexo, dentro daquela escuridão total e impenetrável por qualquer lanterna ou holofote. Aquele material denso no qual estava mergulhado constituía-se em uma barreira física que impedia a passagem de fótons.
O cientista prendeu a outra extremidade do cabo em uma argola que havia no pulso do traje protetor. Então deu o sinal de partida para a sonda. Ela seguiu imediatamente na direção escolhida, e durante alguns tensos segundos o cientista ficou sentindo o cabo desenrolar-se em suas mãos.
Ele não sabia de onde estava conseguindo forças para executar tais procedimentos, imerso naquela substância que atrapalhava seus movimentos e em vista do estado de extrema fraqueza em que se encontrava. Talvez aquela última reserva de energia recentemente despertada com a descarga de adrenalina durante a queda em direção a OXI-17 ainda não houvesse se esgotado, afinal.
Quando o cabo se esticou, o cientista levou um leve tranco, começando involuntariamente a executar um giro de 180 graus dentro do líquido.
Se a sonda tinha força suficiente para puxá-lo, então forçosamente devia agora já estar sob uma gravidade bem inferior a 2g – ou seja, ao ar livre.
Ele começou a subir bem lentamente, içado pelos aparelhos antigravitacional e propulsor da pequenina sonda. Logo, impaciente graças à debilidade física e mental, cometeu um gesto inconsequente, algo arriscado e desnecessário. Retirou uma das três mãos que seguravam no cabo e ligou os microjatos propulsores do traje, que ainda contavam com os dois microrreatores adicionais. Agora que estava na direção certa, imaginou que aquilo ajudaria, acelerando a subida.
Sua velocidade de ascensão de fato aumentou. O traje de ribélio não corria perigo com a energia represada pela substância viscosa que o cercava, mas o cientista se arriscava a perder o equipamento propulsor. Com os bocais dos jatos entupidos pelo líquido espesso, poderia ter ocorrido uma implosão. Felizmente, a força das emissões de partículas em alta temperatura foi suficiente para calcinar imediatamente a matéria que bloqueava os bocais de saída dos jatos.
Após alguns minutos de enorme expectativa, o cientista saiu abruptamente para a luz do sol. Ofuscado, mas muito aliviado, demorou alguns instantes para se adaptar à claridade e lançar um olhar ao redor.
Desligou os jatos e trouxe a sonda de volta. Estava tão aliviado que mal conseguiu evitar um desmaio por esgotamento psíquico. Ele precisava encontrar comida dentro de poucas horas. Se perdesse os sentidos agora, talvez nunca mais acordasse.
Viu que estava no meio de um mar. Num raio de aproximadamente 10 metros à sua volta, a substância viscosa apresentava-se negra, provavelmente afetada pelo calor que ele emanara quando, incandescente, mergulhara do céu naquele ponto. Após esta circunferência negra, o mar viscoso assumia uma coloração marrom.
Ao longe o cientista avistou uma pequena ilha rochosa, sobressaindo solitária em meio àquela paisagem monótona.
Permanecendo presa ao cabo que a ligava ao traje, a sonda, ainda regulada na potência máxima, recebeu uma ordem para seguir na direção da ilha. Sem dificuldades, o cientista foi rebocado pela sonda com o auxílio adicional dos microjatos do traje, até chegar à estéril formação rochosa. Ele agarrou-se às pedras do litoral, desativou a sonda e os jatos e, com algum esforço, conseguiu se arrastar para cima da ilha, saindo do mar escuro. Deitou-se sobre as pedras, exausto.
Sentiu vontade de dormir, uma vontade quase irresistível. Estava muito, mas muito cansado mesmo. Dois dias sem dormir, aliados ao esforço físico-psíquico das últimas horas e à fraqueza provocada pela fome o deixavam no auge da exaustão.
Começou a pegar no sono. Como ansiava por um pequeno descanso! Apenas para relaxar um pouco e recuperar as forças... tão cansado...que mal havia num pequeno cochilo?
Tão relaxante... gostoso... necessário... tão... t...
Não!
Levantou-se do chão com um salto, apavorado. Às portas da morte, quase havia dormido! Poderia ter sido o sono definitivo!
Procurou clarear o raciocínio embotado. Em hipótese alguma poderia dormir agora. Não antes de se alimentar.
Se dormisse, dificilmente acordaria. Seria o fim.
Desprendeu a sonda do cabo e mandou-a localizar as formas de vida que ela havia detectado antes da sua trágica queda em OXI-17. Agora com todos os sensores reativados, ela retornou após apenas alguns segundos percorrendo as redondezas. Sequer saíra do campo de visão do cientista, que estranhou o ocorrido – afinal, não se avistavam quaisquer indícios de vida, sequer vegetal. O enfraquecido analista estudou ansiosamente os resultados.
Em toda a redondeza vasculhada, somente em dois pontos a sonda não detectara vida: na área negra do mar, onde o cientista mergulhara, e, com exceção dele próprio, na área ocupada pela ilha rochosa. Fora isso, a sonda registrou emissão de pulsos orgânicos por toda parte. Eles não se movimentavam e não podiam ser focalizados, estavam em todo o mar escuro.
O cientista raciocinou um pouco – agora já com certa dificuldade, diga-se de passagem.
Aquela vida não estava em todo o mar.
Era o próprio mar.
Aquela substância escura e viscosa, na qual há pouco estava imerso, consistia em uma exótica forma de vida. Provavelmente, era o único habitante e o dono absoluto de OXI–17. Não era como os mares de outros planetas, que possuíam microorganismos em abundância misturados com o líquido. A sonda, em sua atual programação, não registraria isso como forma de vida. Aquele mar era um único ser, evoluído e fragmentário, sem coesão.
O cientista foi até a margem da ilha e colheu uma amostra do mar. Colocou a amostra no analisador do traje, ligando-o.
O resultado foi decepcionante.
Mais que decepcionante, completamente desesperador.
E o cientista já se considerou um indivíduo morto.
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O que esse cientista fez contra a sua pessoa hein???
ResponderExcluirrsrsrsrsrs
Brincadeirinha...brincadeirinha...
Putz...e agora?