Sentado no solo rochoso, o cientista - arrasado e sem esperanças - esvaziou o analisador, jogando fora a amostra do ser-mar.
Estava resignado com a morte, agora pelo jeito inevitável. Ele já conseguira retardar sua chegada o máximo possível. Para tudo devia existir um limite, e talvez o de postergar o fim (de si próprio e de tudo o mais) houvesse sido finalmente atingido.
Ele tentou se levantar.
Não teve forças.
A definitiva perda de sentidos, que precederia a morte por desnutrição, parecia muito próxima. Sua mente estava nublada, confusa, e o corpo se rebelava contra seus comandos. Não conseguia pensar com clareza.
Não havia mais nada a fazer.
Então, num último lampejo, seu cérebro conseguiu trazer à tona um raciocínio coerente, antes de esgotar sua energia ativa. Apenas uma pequena fração ainda restava da inteligência, esvaindo-se, confinada no fundo de sua mente agora trôpega.
Mas tal reflexão ficou disponível por tempo suficiente para disparar um pensamento - uma ordem - que ficou então boiando na semi-consciência, esperando uma reação do corpo.
Lentamente, seus braços começaram a mover-se, obedecendo ao último comando da mente adormecida. Como um autômato, o corpo do cientista tentava fazer algo que o consciente já se esquecia. Algo que logo se tornou desvinculado do restante de sua decrescente razão.
Presa e incapacitada nos recônditos da inconsciência, que tomava conta da parte consciente cada vez mais, avançando de forma inexorável pra engoli-la totalmente e levar o cientista para as trevas permanentes, a inteligência fazia votos para que seu corpo conseguisse terminar o que lhe fora ordenado, antes que fosse tarde.
Não era apenas a sua vida que estava
Por pior que estivesse, um cientista não podia se render à morte.
Em qualquer situação, sempre devia haver uma saída.
Algo ainda podia ser feito!
__________________________________________________
Subitamente, o cientista acordou.
Havia de fato desmaiado.
Mas, contrariando toda a lógica, conseguira acordar depois!
O cérebro, ainda longe de sua melhor forma, registrou o fato e começou a se esforçar em entender seu significado.
Por algum tempo, o cientista permaneceu entorpecido, confuso - esperando uma reação de sua mente outrora aguçada, que tentava agora recuperar a firmeza após a quase-extinção.
As idéias começaram a tomar forma, e ele enfim soube o que havia ocorrido. Fizera alguma coisa que o salvara da morte, mas ainda não conseguia lembrar o que era. Seus pensamentos ainda não haviam adquirido contornos definidos, e sua mente sugeriu que a resposta estava ao seu lado, sobre a superfície pedregosa da ilha.
Abriu a faixa ocular e viu o traje protetor no chão, perto dele. Do traje saía um tubo hipodérmico que terminava sobre o seu ventre. Era o tubo do Alimentador, que estava fornecendo plasma alimentício ao seu organismo debilitado.
Mas por que tivera que despir-se do traje para realizar o processo de alimentação? E, mais importante, o que fora utilizado como matéria-prima para o plasma alimentício?
De repente, soube a resposta para ambas as perguntas.
Percorreu com o olhar a extensão dos seus braços e, estarrecido, confirmou suas suspeitas.
Em um dos braços, faltava a mão na extremidade.