quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Post 000016

Sentado no solo rochoso, o cientista - arrasado e sem esperanças - esvaziou o analisador, jogando fora a amostra do ser-mar.

Estava resignado com a morte, agora pelo jeito inevitável. Ele já conseguira retardar sua chegada o máximo possível. Para tudo devia existir um limite, e talvez o de postergar o fim (de si próprio e de tudo o mais) houvesse sido finalmente atingido.

Ele tentou se levantar.

Não teve forças.

A definitiva perda de sentidos, que precederia a morte por desnutrição, parecia muito próxima. Sua mente estava nublada, confusa, e o corpo se rebelava contra seus comandos. Não conseguia pensar com clareza.

Não havia mais nada a fazer.

Então, num último lampejo, seu cérebro conseguiu trazer à tona um raciocínio coerente, antes de esgotar sua energia ativa. Apenas uma pequena fração ainda restava da inteligência, esvaindo-se, confinada no fundo de sua mente agora trôpega.

Mas tal reflexão ficou disponível por tempo suficiente para disparar um pensamento - uma ordem - que ficou então boiando na semi-consciência, esperando uma reação do corpo.

Lentamente, seus braços começaram a mover-se, obedecendo ao último comando da mente adormecida. Como um autômato, o corpo do cientista tentava fazer algo que o consciente já se esquecia. Algo que logo se tornou desvinculado do restante de sua decrescente razão.

Presa e incapacitada nos recônditos da inconsciência, que tomava conta da parte consciente cada vez mais, avançando de forma inexorável pra engoli-la totalmente e levar o cientista para as trevas permanentes, a inteligência fazia votos para que seu corpo conseguisse terminar o que lhe fora ordenado, antes que fosse tarde.

Não era apenas a sua vida que estava em jogo. Se morresse, o fim de tudo que existia poderia ser inevitável.

Por pior que estivesse, um cientista não podia se render à morte.

Em qualquer situação, sempre devia haver uma saída.

Algo ainda podia ser feito!

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Subitamente, o cientista acordou.

Havia de fato desmaiado.

Mas, contrariando toda a lógica, conseguira acordar depois!

O cérebro, ainda longe de sua melhor forma, registrou o fato e começou a se esforçar em entender seu significado.

Por algum tempo, o cientista permaneceu entorpecido, confuso - esperando uma reação de sua mente outrora aguçada, que tentava agora recuperar a firmeza após a quase-extinção.

As idéias começaram a tomar forma, e ele enfim soube o que havia ocorrido. Fizera alguma coisa que o salvara da morte, mas ainda não conseguia lembrar o que era. Seus pensamentos ainda não haviam adquirido contornos definidos, e sua mente sugeriu que a resposta estava ao seu lado, sobre a superfície pedregosa da ilha.

Abriu a faixa ocular e viu o traje protetor no chão, perto dele. Do traje saía um tubo hipodérmico que terminava sobre o seu ventre. Era o tubo do Alimentador, que estava fornecendo plasma alimentício ao seu organismo debilitado.

Mas por que tivera que despir-se do traje para realizar o processo de alimentação? E, mais importante, o que fora utilizado como matéria-prima para o plasma alimentício?

De repente, soube a resposta para ambas as perguntas.

Percorreu com o olhar a extensão dos seus braços e, estarrecido, confirmou suas suspeitas.

Em um dos braços, faltava a mão na extremidade.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Post 000015

O mar escuro era composto por células.

E as células do ser-mar alimentavam-se de outras células do ser-mar.

A natureza surpreendente de OXI–17 desenvolvera uma forma de vida auto-suficiente. Não havia outras formas de vida no planeta. Não existiam alimentos no planeta. Em OXI–17 existiam apenas as rochas e o ser-mar. Mas o ser-mar não era capaz de se alimentar das rochas. Ele era ao mesmo tempo uma só criatura e várias lutando entre si. Ininterruptamente, uma célula devorava a outra, alimentando-se com ela, para depois fragmentar-se em duas partes, que partiam para devorar outra ou serem devoradas. Este era o ciclo de vida do ser-mar. Estava sempre se alimentando dele mesmo, e não aumentava nem diminuía seu volume total.

Uma célula virtualmente comia a outra, absorvendo-lhe totalmente a massa (que era inteiramente aproveitável). Durante esse processo, a célula predadora duplicava o seu tamanho e completava seu desenvolvimento. Sua individualidade, contudo, durava pouquíssimo tempo. Ela era parte de um ser maior, mas também era, de certa forma, um ser independente, com uma limitada consciência de sim mesmo e lutando contra seus irmãos gêmeos. Depois de devorar uma célula similar (vencendo uma espécie de combate psíquico) e adquirir o dobro do tamanho original, sua curta vida individual estava encerrada. Automaticamente, seguindo os desígnios da natureza, ela se dividiria em duas partes iguais, que seriam duas novas células que não possuiriam a memória da célula-máter. Imediatamente após a fissão – ou, de certo modo, nascimento – as duas já tinham que enfrentar imediatamente suas irmãs, na luta pela sobrevivência por alguns segundos a mais. Suas oponentes também seriam recém-nascidas, e a que se defendesse, instintivamente, de forma mais rápida e eficaz seria a vencedora-mãe. Eventualmente, também, as duas células de mesma origem se enfrentavam, logo após sua separação-concepção. O tempo de vida individual das células, propriamente dito, variava de acordo com a duração do primeiro e último combate psíquico que enfrentavam – ou seja, segundos.

Essa curiosa e singular forma de vida, realmente inédita, constituía a personificação de um dos maiores desejos do povo-cientista (naquele momento e por razões nada científicas, claro, principalmente do cientista quase morto de fome que estava preso em OXI–17). Ou seja, ser uma criatura auto-suficiente em matéria de alimentação. Um processo onde não havia respiração, ingestão, metabolismo, excreção ou queima de nutrientes para geração de energia. Claro, precisava existir um combustível para o processo, mas a solução para este mistério seria certamente um mecanismo ainda desconhecido para o povo cientista, que atualmente julgava já ter decifrado quase por completo os meandros da biologia. Mas uma coisa agora parecia evidente – a fonte de energia que permitia às células se digladiarem com fusões e cisões deveria estar diretamente relacionada às emissões energéticas que se originavam no planeta, afetando o sobreespaço (causadoras da pane nos equipamentos do cientista e subseqüente explosão que causara sua queda). Seria fascinante investigar a fundo o mecanismo da natureza que tornara tal inexplicável fenômeno possível, decifrando a forte que sustentava a biologia do ser-mar em sua inusitada existência. Seria aquele o caminho para a receita da imortalidade?

A forma excepcional pela qual o ser-mar se mantinha vivo não ofereceria empecilho algum para o cientista produzir nutrientes em seu alimentador, utilizando uma porção dessa matéria orgânica como matéria-prima para converter em plasma alimentício.

Se não fosse por um fator. Um terrível fator.

O analisador não conseguiu descobrir qualquer forma de matar as células sem tornar o alimento impróprio para o consumo. E para o plasma alimentício poder ser utilizado pelo cientista, seria absolutamente indispensável que estas células estivessem mortas.

As células do ser-mar, vivas dentro do organismo indefeso do cientista (ou de qualquer outro ser), iriam atacar com sua energia psiônica as células originais do indivíduo, matando-as. Mesmo que, por incompatibilidade genética, não lhes fosse possível se fundir à célula estranha, absorvendo-a, elas continuariam atacando, enquanto se espalhavam como um câncer, destruindo órgão após órgão até a falência das funções vitais.

Ou seja, o ser-mar não lhe servia como alimento.

E era o único material orgânico em OXI–17.