O mar escuro era composto por células.
E as células do ser-mar alimentavam-se de outras células do ser-mar.
A natureza surpreendente de OXI–17 desenvolvera uma forma de vida auto-suficiente. Não havia outras formas de vida no planeta. Não existiam alimentos no planeta. Em OXI–17 existiam apenas as rochas e o ser-mar. Mas o ser-mar não era capaz de se alimentar das rochas. Ele era ao mesmo tempo uma só criatura e várias lutando entre si. Ininterruptamente, uma célula devorava a outra, alimentando-se com ela, para depois fragmentar-se em duas partes, que partiam para devorar outra ou serem devoradas. Este era o ciclo de vida do ser-mar. Estava sempre se alimentando dele mesmo, e não aumentava nem diminuía seu volume total.
Uma célula virtualmente comia a outra, absorvendo-lhe totalmente a massa (que era inteiramente aproveitável). Durante esse processo, a célula predadora duplicava o seu tamanho e completava seu desenvolvimento. Sua individualidade, contudo, durava pouquíssimo tempo. Ela era parte de um ser maior, mas também era, de certa forma, um ser independente, com uma limitada consciência de sim mesmo e lutando contra seus irmãos gêmeos. Depois de devorar uma célula similar (vencendo uma espécie de combate psíquico) e adquirir o dobro do tamanho original, sua curta vida individual estava encerrada. Automaticamente, seguindo os desígnios da natureza, ela se dividiria em duas partes iguais, que seriam duas novas células que não possuiriam a memória da célula-máter. Imediatamente após a fissão – ou, de certo modo, nascimento – as duas já tinham que enfrentar imediatamente suas irmãs, na luta pela sobrevivência por alguns segundos a mais. Suas oponentes também seriam recém-nascidas, e a que se defendesse, instintivamente, de forma mais rápida e eficaz seria a vencedora-mãe. Eventualmente, também, as duas células de mesma origem se enfrentavam, logo após sua separação-concepção. O tempo de vida individual das células, propriamente dito, variava de acordo com a duração do primeiro e último combate psíquico que enfrentavam – ou seja, segundos.
Essa curiosa e singular forma de vida, realmente inédita, constituía a personificação de um dos maiores desejos do povo-cientista (naquele momento e por razões nada científicas, claro, principalmente do cientista quase morto de fome que estava preso em OXI–17). Ou seja, ser uma criatura auto-suficiente em matéria de alimentação. Um processo onde não havia respiração, ingestão, metabolismo, excreção ou queima de nutrientes para geração de energia. Claro, precisava existir um combustível para o processo, mas a solução para este mistério seria certamente um mecanismo ainda desconhecido para o povo cientista, que atualmente julgava já ter decifrado quase por completo os meandros da biologia. Mas uma coisa agora parecia evidente – a fonte de energia que permitia às células se digladiarem com fusões e cisões deveria estar diretamente relacionada às emissões energéticas que se originavam no planeta, afetando o sobreespaço (causadoras da pane nos equipamentos do cientista e subseqüente explosão que causara sua queda). Seria fascinante investigar a fundo o mecanismo da natureza que tornara tal inexplicável fenômeno possível, decifrando a forte que sustentava a biologia do ser-mar em sua inusitada existência. Seria aquele o caminho para a receita da imortalidade?
A forma excepcional pela qual o ser-mar se mantinha vivo não ofereceria empecilho algum para o cientista produzir nutrientes em seu alimentador, utilizando uma porção dessa matéria orgânica como matéria-prima para converter em plasma alimentício.
Se não fosse por um fator. Um terrível fator.
O analisador não conseguiu descobrir qualquer forma de matar as células sem tornar o alimento impróprio para o consumo. E para o plasma alimentício poder ser utilizado pelo cientista, seria absolutamente indispensável que estas células estivessem mortas.
As células do ser-mar, vivas dentro do organismo indefeso do cientista (ou de qualquer outro ser), iriam atacar com sua energia psiônica as células originais do indivíduo, matando-as. Mesmo que, por incompatibilidade genética, não lhes fosse possível se fundir à célula estranha, absorvendo-a, elas continuariam atacando, enquanto se espalhavam como um câncer, destruindo órgão após órgão até a falência das funções vitais.
Ou seja, o ser-mar não lhe servia como alimento.
E era o único material orgânico em OXI–17.
Que impasse terrível...e agora,como sobreviverá esse nobre rapaz sem se alimentar?
ResponderExcluirEita ferro...
já sei....já sei...aguarde com paciência dona fã número Zero...
Pois é, heroísmo requer sofrimento e sacrifício espontâneos... e ele mal começou a encarar as consequências da monumental tarefa que assumiu.
ResponderExcluirCalma, nada como um desastre após o outro, rsrsrs...