quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Post 000009

Honoh imediatamente localizou um indivíduo sentado em frente ao computador CTI, que estava funcionando naquele momento. O encosto especial do banco impedia que o indivíduo pudesse vê-lo.

Aproximou-se do outro sorrateiramente, protegido pelo encosto da poltrona, e lhe aplicou um forte golpe em sua parte mais sensível. O ataque fez o indivíduo perder imediatamente os sentidos.

Como já estava na etapa final de seus planos, não precisaria se preocupar em fazer algo permanente – ou seja, matar. Quando o outro se recobrasse, ele pretendia já estar muito, muito longe dali.

Seria este gesto um resquício do temperamento sensível de sua raça, ainda arraigado em seu subconsciente? Mesmo sendo agora uma morte desnecessária – ao contrário do que ocorrera em seu primeiro ataque, onde a vítima teria tempo de acordar e denunciá-lo - o cuidado em não tirar a vida quando isto se tornou uma opção válida o aborreceu. Queria ter a consciência de haver se desvencilhado totalmente de todos os antigos pudores, pois ainda teria muito trabalho duro pela frente ao longo de seus próximos milênios de vida. Mas agora não podia deter-se em reflexões sobre esta questão, perdendo tempo valioso. Precisava de absoluta concentração nos próximos passos.

O renegado precisava agir rápido antes que o cientista acordasse ou outros o descobrissem naquele local.

Encontrou e apertou no painel do computador a tecla de retorno do CTI. Com isto, repentinamente um outro indivíduo materializou-se sobre a plataforma de atuação da máquina.

Em vista de seu regresso abrupto e imprevisto, o cientista mostrava-se muito confuso e Honoh soube se aproveitar disso para pegá-lo desprevenido. Correu até a plataforma e lançou-se sobre o outro, desferindo um potente golpe endereçado à parte mais sensível dos indivíduos de sua raça, ou seja, no espaço localizado entre a borda inferior da boca circular e um dos braços.

Todavia, mesmo pego de surpresa, o adversário ainda conseguiu, por puro instinto, se desviar ligeiramente. Assim, o golpe de Honoh atingiu apenas seu antebraço. Apesar de não ter obtido o efeito desejado, a investida do rebelde serviu para deixar paralisado um dos três braços do cientista.

O povo dos cientistas não conhecia a violência, não sabia agir dentro deste tipo de circunstância. Por isso, somente alguém com as motivações de Honoh seria capaz de enfrentar adequadamente uma luta corpo-a-corpo. Os membros de sua raça não dominavam quaisquer princípios de ataque e muito menos de defesa corporal.

Com a vantagem de um braço a mais, foi fácil para o criminoso decidir a luta a seu favor. O outro posicionou o braço imobilizado à sua frente - no meio do corpo, em relação ao adversário. Assim os dois braços ilesos, um de cada lado do que estava ferido, poderiam defender a área sensível localizada sobre o membro agora imóvel. Mas ele continuava com a desvantagem de ter apenas dois braços para defender três pontos fracos.

Honoh também posicionou um dos braços bem no meio do corpo em relação ao adversário, frontalmente ao braço ferido deste. Quando simulou um ataque com os outros dois braços, posicionados lateralmente, contra as áreas sensíveis sobre os dois braços ilesos do outro, o oponente não teve alternativa. Defendeu as duas áreas visadas, obrigando que os dois braços sãos deixassem de proteger o braço paralisado, para interceptarem os dois ataques simultâneos. Com essa manobra, o terceiro braço de Honoh, bem de frente ao braço ferido do outro, ficou livre para investir contra a parte sensível acima do mesmo , agora desprotegida, atingindo-a fortemente com os dedos.

Seu adversário perdeu a consciência e caiu pesadamente sobre o solo.

Honoh o arrastou para fora da plataforma de projeção do CTI. Agora não tinha tempo a perder.

Em todo o planeta, não existiam quaisquer sistemas de defesa para proteger as instalações importantes. Os seres do povo cientista desconheciam os conceitos de invasão ou vandalismo, por serem de uma raça totalmente inocente e de alta integridade moral. Por isso, nunca chegaram a imaginar a necessidade de conceber um sistema de alarme que defendesse suas instalações. Tal idéia era realmente inconcebível.

Deste modo, Honoh sentia-se tranqüilo e seguro, a despeito do ataque desferido contra dois cientistas em serviço dentro de um importante laboratório do Instituto Científico. A única coisa que o preocupava agora era a possibilidade da chegada inesperada de alguém ao recinto. Isso justificava sua pressa – além, claro, da alta dose de pura ansiedade em concluir o plano-mestre.

Também não se poderia desconsiderar, claro, a possibilidade de alguma das pessoas com quem ele havia interagido nas últimas horas reconhecê-lo, mesmo que tardiamente. Com a descoberta de sua fuga, seria possível refazerem seus passos até aquele local e capturarem-no em tempo. Algo assim podia estar se desenrolando naquele exato momento.

O delinqüente apanhou sua maleta, deixada ao lado da cabine de teleporte, e foi até um bloco metálico com painéis de controle, encostado à parede. Nele, abriu uma portinhola onde existiam as inscrições: "Compartimento de Projeção".

Naquele momento, no interior do compartimento de projeção do CTI, havia um fragmento rochoso, que estivera servindo como passagem ao Microverso quando Honoh ali chegara. Era ao interior dessa porção de matéria que havia sido enviado (e trazido abruptamente de volta) o cientista com o qual o rebelde havia lutado.

Honoh substituiu a pedra pelo que havia na maleta e fechou a portinhola.

Encaminhou-se novamente ao computador do CTI e, utilizando o manual que ganhara do encarregado morto por ele, selecionou um agrupamento molecular - ou uma galáxia, dependendo do ponto de vista - na porção de matéria que acabara de colocar no compartimento de projeção. Aquela galáxia seria agora o novo ponto de destino de quem fosse unitransportado pelo CTI.

Depois de ajustar corretamente o local escolhido, Honoh programou o computador para apagá-lo de sua memória assim que o próximo unitransporte fosse concluído. Também desativou o sistema que monitorava a matéria transportada pela máquina. O dispositivo permitia ao computador manter contato com o enviado e seus equipamentos, acompanhando seus movimentos e podendo trazê-lo de volta a qualquer instante. Dessa forma, desligando-o, o renegado conseguiria a liberdade definitiva. Agora, depois do unitransporte, ninguém mais poderia rastreá-lo e encontrá-lo no Microverso.

Por fim, Honoh programou o computador para que o CTI realizasse um unitransporte dentro de dez minutos.

Dirigiu-se a um armário e retirou dele um traje espacial, além de suprimento de ar e alimentos para mil e trezentas horas. Vestiu o traje e guardou os suprimentos em uma bolsa especial, bem amarrada ao traje. Então, encaminhou-se para a plataforma de atuação do CTI.

O traje espacial, os suprimentos de ar e os mantimentos seriam necessários caso a máquina o transportasse para o espaço sideral do Microverso. Eles garantiriam sua sobrevivência até que os fantásticos equipamentos do traje o levassem a um mundo com oxigênio respirável.

Além disso, quando subisse na plataforma de atuação do CTI, um campo energético seria ativado ao redor dela, isolando-a totalmente do ambiente do laboratório. Depois, toda e qualquer micromatéria, inclusive o oxigênio, seria sugada da área de atuação do CTI, sobre a plataforma. Assim, toda pessoa enviada ao Microverso sem estar dentro de uma nave espacial forçosamente teria que vestir um traje especial e suprimentos de ar e alimentos. O traje e o ar já seriam necessários antes mesmo de realizado o unitransporte.

Honoh sorriu ao se lembrar de que ele fora o primeiro ser a realizar este processo de preparação e o primeiro a ser transportado pelo CTI.

Agora, seria o primeiro, e provavelmente o único a jamais regressar de um unitransporte interuniversal.

Subiu na plataforma de atuação e foi cercado pelo campo energético.

Olhou para o mostrador em seu pulso e viu que restava apenas meio minuto antes do unitransporte fatídico, do qual não haveria mais retorno. Começou a acompanhar febrilmente a passagem dos segundos quando algo imprevisto ocorreu.

O cientista-analítico que Honoh abatera em primeiro lugar começou a recobrar os sentidos. Com dificuldade, se levantou e viu no chão o companheiro, que deveria ainda estar explorando o microverso rochoso. Seu parceiro estava caído perto da plataforma de atuação, que agora encontrava-se cercada pelo campo energético indicativo de um unitransporte iminente.

Então, o outro olhou em direção à plataforma - em sua direção - vendo-o de pé sobre a área de atuação do CTI através do campo de energia. Deve ter julgado, acertadamente, ser aquele o seu agressor - pois correu de imediato até o computador para tentar impedir que o CTI efetuasse o unitransporte.

Observando o cientista-analítico alcançar o computador, Honoh, preocupado, olhou para o seu mostrador de tempo. Sorriu, então, satisfeito e aliviado.

Tarde demais!

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Subitamente, Honoh viu-se pairando em pleno espaço sideral.

Seu plano havia resultado em êxito total! Nada mais poderia trazê-lo de volta a seu próprio universo. Seu agora odioso universo de origem.

Caso a porção de matéria no compartimento de projeção, para onde o CTI o unitransportara, fosse um objeto sem vida ou mesmo uma criatura inferior qualquer, os outros ainda teriam uma forma de reverter o processo, realizando a troca entre a carga energética de imitação retirada do Microverso e a matéria enviada ao mesmo, que era ele e sua bagagem.

Para isso bastaria que eles destruíssem a estrutura atômica dessa porção de matéria. Automaticamente, o unitransporte seria desfeito.

Acontece que não era esse o caso.

A porção de matéria não era um objeto sem vida ou uma criatura inferior, sem inteligência.

Seus conterrâneos jamais se atreveriam a destruí-la – a não ser que fosse, talvez, por um motivo muito mais forte do que simplesmente ir ao encalço de um ex-exilado que, no final das contas, estava agora novamente exilado, e da forma mais definitiva possível. Talvez, se algo absurdo estivesse em jogo... o fim do mundo ou coisa do gênero... eles cogitassem desintegrar aquela porção de matéria. Mas, claro, “absurdo” era a palavra mandatória nesta idéia, já que Honoh, como um dos primeiros especialistas em unitransporte, confiava plenamente na segurança do processo.

De qualquer forma, no tempo que eles levariam para deliberar a respeito, decidir e efetuar a desintegração, já teriam se transcorrido no microverso alguns dos milhares de anos de vida que restavam a Honoh. Haveria muito tempo para ele planejar e agir à vontade no novo e inexplorado ambiente, realizando os incríveis projetos que lhe povoavam a mente e escapando definitivamente do alcance das garras de seus conterrâneos, a despeito de qualquer ação que eles viessem a adotar.

Agora, ele não tinha a menor pressa. O tempo estava definitivamente a seu favor.


terça-feira, 20 de outubro de 2009

Post 000008

- O código do laboratório do CTI? – repetiu o cientista, olhando para o símbolo desenhado no traje do interlocutor – Mas você não é do Departamento de Genética?

- Sou sim – respondeu Honoh – mas acontece que um amigo meu trabalha aqui com o CTI, e essa entrega para ele é urgente. Ele deve estar lá agora.

- E por que não enviaram um robô-entregador para fazer isso?

- É um assunto delicado e particular. Eu preciso falar pessoalmente com ele.

- Essa aí é a entrega urgente? - perguntou o cientista, apontando para a maleta que o outro segurava.

- É sim – confirmou Honoh – está aqui dentro. E o código?

- Ah, sim. Desculpe – disse o cientista que Honoh havia interpelado, fornecendo-lhe enfim o código do laboratório onde estava instalado o CTI – Neste momento só há duas pessoas trabalhando lá. Uma delas deve ser a que você quer encontrar. Acho que estão realizando os testes finais na máquina, antes do desmonte.

- Obrigado, colega.

- Por nada, colega.

Honoh afastou-se do outro, tomando a direção da cabine interna mais próxima.

“Testes finais antes do desmonte?”. O comentário deixou o renegado um pouco espantado, mas não se atreveu a perguntar de que se tratava. Não seria conveniente agora, tão próximo do sucesso completo de seu plano-mestre, assumir qualquer espécie de risco, por mínimo que fosse. Da forma com que falara, seu interlocutor dera a impressão de se tratar de um assunto sobre o qual todos estariam mais do que cientes. Provavelmente planejava-se a transferência daquele CTI para outro local, talvez até para outra cidade (se isto representasse a inauguração de uma laboratório novo naquele prédio, em lugar do antigo, era natural se esperar que todos os membros do instituto na cidade estivessem a par do caso, acompanhando-o com interesse).

Honoh chegou à cabine interna amarela, entrou e digitou o código recém adquirido.

O único indício de que o teleporte havia ocorrido foi uma luz azulada que por um breve instante substitui a iluminação interna da cabine fechada. Mas aquela luz azulada não era emitida no interior da cabine onde entrara o indivíduo. Era a iluminação projetada após uma recepção, ou seja, o indivíduo já se encontrava em outra cabine, a receptora dona do código digitado na primeira.

Honoh abriu a porta e saiu da cabine instalada no laboratório em que se encontrava seu objetivo final.

Um Conversor de Transporte Interuniversal.


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Ele estava monitorando o computador da máquina.

Isso, agora, era obrigatório – e aquela era uma experiência classificada como altamente perigosa. Uma experiência para a qual só poderia ser incumbido um dos melhores elementos, um dos operativos cientistas mais qualificados do Instituto.

Não havia mais pessoas no laboratório. Ele precisava dedicar sua total atenção às indicações do computador e não necessitava de qualquer auxílio – e muito menos da ocasional e involuntária distração proporcionada pela presença de outra pessoa.

O banco onde ele estava sentado fora equipado com uma espécie de encosto alto, para impedir que a chegada de alguém no recinto o distraísse ou incomodasse. Aquilo impedia que sua visão global abrangesse o resto da sala, além do painel do computador. Ninguém suspeitava que justamente esta medida, ao invés de ajudar, traria a desgraça.

Quem recearia a inesperada e completamente improvável ação de um criminoso? A própria noção de “crime” era desconhecida no planeta Ro.

Até alguns segundos atrás, houvera um outro indivíduo com ele no laboratório. Agora este outro já se encontrava no interior de um átomo, átomo este que estava no interior de uma molécula, que por sua vez estava no interior de uma pedra que fora depositada no interior do compartimento de projeção da máquina.

Cabia a ele evitar que um eventual imprevisto impedisse o enviado de retornar dentro do prazo combinado e programado no computador da máquina, previamente estipulado em metade do prazo de estabilidade da imitação energética. Era uma dupla medida de segurança.

Esta era uma das últimas experiências permitidas, atendendo ao apelo de uma facção de cientistas interessados em completar os registros iniciais referentes ao processo como um todo.

Contudo, esta sua atual obrigação - por sinal de enorme responsabilidade - não chegava nem aos pés da que lhe estava destinada para um futuro próximo. Como poderia suspeitar o quanto aquela tarefa simples, embora vital, se complicaria?

Naquele momento, aquele cientista cônscio de seus deveres estava absolutamente longe de desconfiar até que ponto tais deveres chegariam. Algo certamente além de sua atual capacidade de fantasiar. Imaginava que não teria muito mais ação além de simplesmente observar os monitores, mas não poderia estar mais enganado...

Ele jamais teria adivinhado a tarefa que o Destino lhe reservara.

Mas, afinal, quem poderia ter previsto a inacreditável crise que estava por vir?

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Post 000007



O cientista-analítico que monitorava o computador do CTI estava aborrecido. Particularmente, ele achava aquele serviço uma perda de tempo, sem qualquer utilidade prática. Travava-se, pura e simplesmente, de acompanhar o funcionamento da máquina e analisar suas reações durante o unitransporte.

Por que ele ainda precisava ficar de olho nos indicadores? Não havia mais motivos para isso. Todas as reações e processos que ocorriam quando alguém permanecia no Microverso já eram conhecidos, estavam extensivamente analisados e registrados.

Não existia mais qualquer perigo, todos os fatores de compensação interuniversal já estavam mapeados e eram meticulosamente conhecidos. O equipamento transportava alguém para o Microverso e mantinha uma carga de energia equivalente em seu lugar, extraída do local de destino – evitando, assim, um desequilíbrio energético entre os universos. Quando o enviado retornava, o CTI desfazia a carga energética, até então estabilizada em compartimentos especiais nas entranhas da máquina. Ambos os procedimentos precisavam ser absolutamente simultâneos, claro, para manter a integridade entre os dois níveis universais.

O processo era seguro. A carga energética era retirada do Microverso no mesmo instante em que se realizava a emissão do indivíduo e da nave ou qualquer equipamento que este porventura levasse consigo. A energia retirada do Microverso equivalia exatamente à representada pela matéria enviada através do CTI. Quando a massa retornava ao seu universo, imediatamente a carga energética retornava ao Microverso.

Esta era um processo perfeito e exaustivamente estudado. Até agora nada de anormal fora registrado.

O Cientista-Chefe do Instituto (antes cientista-chefe apenas do projeto CTI, agora promovido graças ao sucesso obtido) porém, exigira que durante aquele específico unitransporte houvesse um cientista-analítico monitorando o computador. Questão adicional de segurança, já que desta vez o enviado permaneceria durante muito mais tempo no Microverso. Poderia acontecer algo inédito durante a experiência. O enviado permaneceria por quase 5.700 anos no Microverso, ou seja, quase três minutos no tempo normal do universo (TNU).

A última remessa já estava há meio minuto TNU no Microverso, e até agora nada de especial fora constatado. Foi quando, após exatos 36 segundos transcorridos, algo no monitor do computador chamou a atenção do analítico.

“Pelos primeiros cientistas” – pensou ele, assustado – “Isso não pode ser verdade! Não pode!”

Seus dedos treinados correram rapidamente sobre as teclas no painel do console do computador, solicitando uma análise equidinamofásica imediata.

Quarenta e um segundos e trinta e nove centésimos.

O computador colocou a análise na tela e o cientista não quis acreditar no que viu. Tinha que tomar uma providência imediata.

Quarenta e oito segundos, setecentos e sessenta e dois milésimos.

Não podia permitir que a marca de cinqüenta segundos e doze milésimos fosse atingida. Tudo dependia dele agora.

Sua mão caiu sobre a tecla de emergência.

Sem perda de tempo mensurável, o CTI trouxe o enviado de volta a seu universo. O cientista-analítico olhou apavorado para o monitor de permanência, agora parado.

Cinqüenta segundos e meio milésimo!

Respirou aliviado. Por uma questão de onze e meio milésimos de segundo, acabara de salvar o Multiverso da destruição total, pelo simples pressionar de uma tecla em tempo.

Evitara a ocorrência da maior catástrofe imaginável.

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Uma reunião de emergência dos cientistas envolvidos com o CTI foi imediatamente convocada.

Os registros do computador referentes ao incidente foram analisados cuidadosamente e não restou dúvida a respeito do perigo.

O transporte interuniversal não era seguro.

A carga energética retirada do Microverso não garantia o equilíbrio perenemente. Após transcorrido um certo prazo, variável de acordo com o tipo e quantidade do volume unitransportado, a carga entraria em colapso, e a matéria enviada ao Microverso não poderia mais retornar. Neste caso, haveria um desequilíbrio permanente entre os dois universos subsequentes e então fatalmente o Multiverso teria o seu tempo contado. O conjunto de universos não resistiria à tensão causada por aquela desarmonia e, em dado momento, desabaria sobre si mesmo, desmantelando-se a partir do uninível doente, em uma reação em cadeia.

Tudo deixaria de existir da forma que era conhecida.

Os cientistas realizaram uma seqüência de testes, determinando que cada tipo ou quantidade diferente de matéria possuía seu próprio prazo de permanência no Microverso. Também influía decisivamente no prazo a natureza da substância utilizada como meio de ingresso, em lugar do outrora exclusivo ribélio.

No caso do incidente, a carga energética corresponde ao enviado, sua nave e seus equipamentos levaria cinqüenta segundos e doze milésimos para entrar em colapso.

Havia apenas uma maneira de manter o equilíbrio seguramente.

Para cada porção de matéria enviada ao Microverso, uma porção equivalente, do mesmo tipo e volume, deveria ser retirada do uninível de destino. Uma troca real e exata precisaria ser feita. Isso significa que, depois de enviar uma criatura viva através do CTI, outra criatura viva e de mesma massa corporal teria que ser deixada em seu lugar, retirada do próprio Microverso. O mesmo ocorreria com um pedaço de rocha ou qualquer outra espécie de objeto.

Seqüestrar, arrancar um ser vivo de seu meio e mantê-lo hibernando, para depois colocá-lo em seu ambiente milhares de anos depois não atendia nem um pouco aos preceitos de conduta moral do povo cientista – mesmo que se tentasse justificar tal atrocidade como algo necessário em prol do desenvolvimento científico.

Além disso, mesmo efetuando tal processo utilizando matéria inorgânica, como robôs especializados, o fator de risco era demasiadamente alto para ser aceito. Uma falha em algum ponto e... o Multiverso encontraria o seu fim. Não se podia incorrer em perigos de tal amplitude, era o tipo de decisão e risco que ser algum – ou raça alguma – deveria possuir o direito de lidar.

O transporte interuniversal não era seguro.

E uma característica profunda e marcante do povo cientista era o firme propósito de jamais executarem qualquer experiência que soubessem ser perigosa. Ainda mais se a magnitude do perigo fosse tão absurdamente grande.

O conselho tomou uma decisão. A prática do transporte interuniversal deveria ser suspensa.

O uso do CTI estava proibido.

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Em todo o planeta, os CTIs estavam sendo gradativamente desmantelados. Os laboratórios do Instituto onde o projeto era realizado foram temporariamente desativados. O caso todo começara a se desenrolar pouco antes do falecido encarregado pelo abastecimento entrar no aerocarro e tomar, pela última vez, o rumo da “residência” de Honoh. Enquanto o renegado iniciava a parte ativa de seus planos, escondendo o cadáver de sua primeira vítima fatal e fugindo do exílio, a decisão de abortar o projeto e inativar os equipamentos corria pelo planeta.

A sede do Instituto em cidade Guzug nunca possuíra um CTI, e a máquina mais próxima deste local, onde Honoh executara a ação no Centro de Geração e Tutela Inicial, estava localizada em Cidade Arera. Assim, foi para lá que Honoh se dirigiu.

Ele não sabia de nada a respeito da descoberta do perigo representado pelo transporte interuniversal. Afinal, não estava mais conectado à rede de informações do Instituto - através da qual um alarme planetário fora divulgado, alertando sobre os riscos e proibindo o uso do CTI.

Por outro lado, algumas sedes do Instituto ainda estavam realizando pequenos testes com as máquinas antes de desmontá-las.

Parecia que o destino estava favorecendo Honoh na realização de seus planos, pois uma destas máquinas, ainda funcionais, estava localizada justamente na sede do Instituto em Cidade Arera.

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Honoh chegou em Cidade Arera e estacionou o aerocarro.

Escolheu um lugar qualquer para pousar. A rua, que não se dedicava ao trânsito de veículos, e sim, a proporcionar vagas de estacionamento de aerocarros e movimentação de pedestres, não possuía qualquer característica especial.

A única coisa que interessava ao rebelde naquela rua era um acessório encontrado em qualquer quadra de qualquer rua, bem como em qualquer edifício do planeta. Eram os notórios pontos de teleporte, compostos por um par de cabines. Sua presença caracterizava aquele mundo tanto quanto a dos seres nativos.

Honoh desceu do aerocarro, postou-se próximo a uma cabine teleportadora e ficou estudando os arredores, disfarçando e esperando que alguém vestindo um traje de membro do Instituto Científico se aproximasse dela.

O primeiro criminoso do povo cientista possuía o cartão vibratório do encarregado que havia matado. O cartão teria que ser inserido na fenda do console interno da cabine, para que fosse permitido o teleporte ao interior do edifício do instituto em Cidade Arera. Além de utilizar o cartão específico correspondente, quem quisesse ser teleportado à cabine receptora da sede do Instituto deveria também digitar o código do edifício no painel de console da cabine.

Contudo Honoh não conhecia tal código.

Por isso, estava aguardando o surgimento de alguém que desejasse usar aquela cabine com um destino idêntico ao dele.

Meia hora depois Honoh viu, do lado oposto da rua, um indivíduo de marcação verde aproximando-se da cabine. Honoh então caminhou em sua direção, controlando a velocidade dos passos, evitando ser percebido pelo outro e tentando aparentar naturalidade, alcançando-o a dois metros da cabine.

- Saudações, colega – disse ele ao indivíduo, enquanto terminavam juntos de caminhar, parando em frente à cabine – Está indo ao Instituto?

O inimigo planetário nº1 fez como se tivesse acabado de notar a presença do outro, apesar de possuir, como o resto de seu povo, visão global. Qualquer pessoa, ao ver um desconhecido aproximando-se de uma cabine teleportadora a qual ele mesmo se dirigia, não faria o mínimo esforço para alcançá-la antes que o outro entrasse nela, já que o sistema de transporte por teleporte era instantâneo, e não havia qualquer sentido em pegar carona com alguém para economizar tempo.

Como aquele indivíduo não era conhecido seu – o que, por sinal, não seria nada bom, dada sua atual condição de renegado e criminoso exilado – Honoh teve que simular uma situação casual com ele, chegando à cabine no mesmo instante, sem deixar que o outro percebesse antes que também caminhava em direção à ela e fingindo também não o ter notado durante o percurso.

O ex-membro do Instituto havia conseguido fazer com que chegassem à cabine juntos, mas, para evitar que o outro lhe fizesse uma gentileza, cedendo-lhe o uso do terminal de teleporte em primeiro lugar, perguntou se ele também iria para o Instituto. Caso a resposta fosse afirmativa, seria natural que ambos entrassem juntos, já que teriam o mesmo destino.

- Saudações, colega – disse o indivíduo, antes de responder a pergunta de Honoh – Sim, estou indo para lá. E você?

Pronto!

- Também – respondeu, abrindo a porta para que o outro entrasse primeiro – Vamos entrar.

Para que o estratagema de Honoh desse resultado, era imprescindível que o outro entrasse primeiro na cabine.

Deu certo! Quando o rebelde entrou, o indivíduo já estava no console, digitando o código do Instituto de Ciências da Cidade. O problema estava resolvido. O computador já tinha o endereço desejado, mas, registrando a presença de duas pessoas em seu interior, seria necessário que houvesse a apresentação de dois cartões vibratórios do Instituto distintos, um para cada usuário.

E isso Honoh possuía.

Os dois inseriram seus cartões na fenda e a cabine teleportadora os transportou, transmitindo suas estruturas atômicas pelo hiperespaço para o terminal receptor instalado na sede do Instituto em Cidade Arera.

De todas as “cenas de crime” que Honoh estava colecionando, aquela estava destinada a ser a principal.