Honoh imediatamente localizou um indivíduo sentado em frente ao computador CTI, que estava funcionando naquele momento. O encosto especial do banco impedia que o indivíduo pudesse vê-lo.
Aproximou-se do outro sorrateiramente, protegido pelo encosto da poltrona, e lhe aplicou um forte golpe em sua parte mais sensível. O ataque fez o indivíduo perder imediatamente os sentidos.
Como já estava na etapa final de seus planos, não precisaria se preocupar em fazer algo permanente – ou seja, matar. Quando o outro se recobrasse, ele pretendia já estar muito, muito longe dali.
Seria este gesto um resquício do temperamento sensível de sua raça, ainda arraigado em seu subconsciente? Mesmo sendo agora uma morte desnecessária – ao contrário do que ocorrera em seu primeiro ataque, onde a vítima teria tempo de acordar e denunciá-lo - o cuidado em não tirar a vida quando isto se tornou uma opção válida o aborreceu. Queria ter a consciência de haver se desvencilhado totalmente de todos os antigos pudores, pois ainda teria muito trabalho duro pela frente ao longo de seus próximos milênios de vida. Mas agora não podia deter-se em reflexões sobre esta questão, perdendo tempo valioso. Precisava de absoluta concentração nos próximos passos.
O renegado precisava agir rápido antes que o cientista acordasse ou outros o descobrissem naquele local.
Encontrou e apertou no painel do computador a tecla de retorno do CTI. Com isto, repentinamente um outro indivíduo materializou-se sobre a plataforma de atuação da máquina.
Em vista de seu regresso abrupto e imprevisto, o cientista mostrava-se muito confuso e Honoh soube se aproveitar disso para pegá-lo desprevenido. Correu até a plataforma e lançou-se sobre o outro, desferindo um potente golpe endereçado à parte mais sensível dos indivíduos de sua raça, ou seja, no espaço localizado entre a borda inferior da boca circular e um dos braços.
Todavia, mesmo pego de surpresa, o adversário ainda conseguiu, por puro instinto, se desviar ligeiramente. Assim, o golpe de Honoh atingiu apenas seu antebraço. Apesar de não ter obtido o efeito desejado, a investida do rebelde serviu para deixar paralisado um dos três braços do cientista.
O povo dos cientistas não conhecia a violência, não sabia agir dentro deste tipo de circunstância. Por isso, somente alguém com as motivações de Honoh seria capaz de enfrentar adequadamente uma luta corpo-a-corpo. Os membros de sua raça não dominavam quaisquer princípios de ataque e muito menos de defesa corporal.
Com a vantagem de um braço a mais, foi fácil para o criminoso decidir a luta a seu favor. O outro posicionou o braço imobilizado à sua frente - no meio do corpo, em relação ao adversário. Assim os dois braços ilesos, um de cada lado do que estava ferido, poderiam defender a área sensível localizada sobre o membro agora imóvel. Mas ele continuava com a desvantagem de ter apenas dois braços para defender três pontos fracos.
Honoh também posicionou um dos braços bem no meio do corpo em relação ao adversário, frontalmente ao braço ferido deste. Quando simulou um ataque com os outros dois braços, posicionados lateralmente, contra as áreas sensíveis sobre os dois braços ilesos do outro, o oponente não teve alternativa. Defendeu as duas áreas visadas, obrigando que os dois braços sãos deixassem de proteger o braço paralisado, para interceptarem os dois ataques simultâneos. Com essa manobra, o terceiro braço de Honoh, bem de frente ao braço ferido do outro, ficou livre para investir contra a parte sensível acima do mesmo , agora desprotegida, atingindo-a fortemente com os dedos.
Seu adversário perdeu a consciência e caiu pesadamente sobre o solo.
Honoh o arrastou para fora da plataforma de projeção do CTI. Agora não tinha tempo a perder.
Em todo o planeta, não existiam quaisquer sistemas de defesa para proteger as instalações importantes. Os seres do povo cientista desconheciam os conceitos de invasão ou vandalismo, por serem de uma raça totalmente inocente e de alta integridade moral. Por isso, nunca chegaram a imaginar a necessidade de conceber um sistema de alarme que defendesse suas instalações. Tal idéia era realmente inconcebível.
Deste modo, Honoh sentia-se tranqüilo e seguro, a despeito do ataque desferido contra dois cientistas em serviço dentro de um importante laboratório do Instituto Científico. A única coisa que o preocupava agora era a possibilidade da chegada inesperada de alguém ao recinto. Isso justificava sua pressa – além, claro, da alta dose de pura ansiedade em concluir o plano-mestre.
Também não se poderia desconsiderar, claro, a possibilidade de alguma das pessoas com quem ele havia interagido nas últimas horas reconhecê-lo, mesmo que tardiamente. Com a descoberta de sua fuga, seria possível refazerem seus passos até aquele local e capturarem-no em tempo. Algo assim podia estar se desenrolando naquele exato momento.
O delinqüente apanhou sua maleta, deixada ao lado da cabine de teleporte, e foi até um bloco metálico com painéis de controle, encostado à parede. Nele, abriu uma portinhola onde existiam as inscrições: "Compartimento de Projeção".
Naquele momento, no interior do compartimento de projeção do CTI, havia um fragmento rochoso, que estivera servindo como passagem ao Microverso quando Honoh ali chegara. Era ao interior dessa porção de matéria que havia sido enviado (e trazido abruptamente de volta) o cientista com o qual o rebelde havia lutado.
Honoh substituiu a pedra pelo que havia na maleta e fechou a portinhola.
Encaminhou-se novamente ao computador do CTI e, utilizando o manual que ganhara do encarregado morto por ele, selecionou um agrupamento molecular - ou uma galáxia, dependendo do ponto de vista - na porção de matéria que acabara de colocar no compartimento de projeção. Aquela galáxia seria agora o novo ponto de destino de quem fosse unitransportado pelo CTI.
Depois de ajustar corretamente o local escolhido, Honoh programou o computador para apagá-lo de sua memória assim que o próximo unitransporte fosse concluído. Também desativou o sistema que monitorava a matéria transportada pela máquina. O dispositivo permitia ao computador manter contato com o enviado e seus equipamentos, acompanhando seus movimentos e podendo trazê-lo de volta a qualquer instante. Dessa forma, desligando-o, o renegado conseguiria a liberdade definitiva. Agora, depois do unitransporte, ninguém mais poderia rastreá-lo e encontrá-lo no Microverso.
Por fim, Honoh programou o computador para que o CTI realizasse um unitransporte dentro de dez minutos.
Dirigiu-se a um armário e retirou dele um traje espacial, além de suprimento de ar e alimentos para mil e trezentas horas. Vestiu o traje e guardou os suprimentos em uma bolsa especial, bem amarrada ao traje. Então, encaminhou-se para a plataforma de atuação do CTI.
O traje espacial, os suprimentos de ar e os mantimentos seriam necessários caso a máquina o transportasse para o espaço sideral do Microverso. Eles garantiriam sua sobrevivência até que os fantásticos equipamentos do traje o levassem a um mundo com oxigênio respirável.
Além disso, quando subisse na plataforma de atuação do CTI, um campo energético seria ativado ao redor dela, isolando-a totalmente do ambiente do laboratório. Depois, toda e qualquer micromatéria, inclusive o oxigênio, seria sugada da área de atuação do CTI, sobre a plataforma. Assim, toda pessoa enviada ao Microverso sem estar dentro de uma nave espacial forçosamente teria que vestir um traje especial e suprimentos de ar e alimentos. O traje e o ar já seriam necessários antes mesmo de realizado o unitransporte.
Honoh sorriu ao se lembrar de que ele fora o primeiro ser a realizar este processo de preparação e o primeiro a ser transportado pelo CTI.
Agora, seria o primeiro, e provavelmente o único a jamais regressar de um unitransporte interuniversal.
Subiu na plataforma de atuação e foi cercado pelo campo energético.
Olhou para o mostrador em seu pulso e viu que restava apenas meio minuto antes do unitransporte fatídico, do qual não haveria mais retorno. Começou a acompanhar febrilmente a passagem dos segundos quando algo imprevisto ocorreu.
O cientista-analítico que Honoh abatera em primeiro lugar começou a recobrar os sentidos. Com dificuldade, se levantou e viu no chão o companheiro, que deveria ainda estar explorando o microverso rochoso. Seu parceiro estava caído perto da plataforma de atuação, que agora encontrava-se cercada pelo campo energético indicativo de um unitransporte iminente.
Então, o outro olhou em direção à plataforma - em sua direção - vendo-o de pé sobre a área de atuação do CTI através do campo de energia. Deve ter julgado, acertadamente, ser aquele o seu agressor - pois correu de imediato até o computador para tentar impedir que o CTI efetuasse o unitransporte.
Observando o cientista-analítico alcançar o computador, Honoh, preocupado, olhou para o seu mostrador de tempo. Sorriu, então, satisfeito e aliviado.
Tarde demais!
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Subitamente, Honoh viu-se pairando em pleno espaço sideral.
Seu plano havia resultado em êxito total! Nada mais poderia trazê-lo de volta a seu próprio universo. Seu agora odioso universo de origem.
Caso a porção de matéria no compartimento de projeção, para onde o CTI o unitransportara, fosse um objeto sem vida ou mesmo uma criatura inferior qualquer, os outros ainda teriam uma forma de reverter o processo, realizando a troca entre a carga energética de imitação retirada do Microverso e a matéria enviada ao mesmo, que era ele e sua bagagem.
Para isso bastaria que eles destruíssem a estrutura atômica dessa porção de matéria. Automaticamente, o unitransporte seria desfeito.
Acontece que não era esse o caso.
A porção de matéria não era um objeto sem vida ou uma criatura inferior, sem inteligência.
Seus conterrâneos jamais se atreveriam a destruí-la – a não ser que fosse, talvez, por um motivo muito mais forte do que simplesmente ir ao encalço de um ex-exilado que, no final das contas, estava agora novamente exilado, e da forma mais definitiva possível. Talvez, se algo absurdo estivesse em jogo... o fim do mundo ou coisa do gênero... eles cogitassem desintegrar aquela porção de matéria. Mas, claro, “absurdo” era a palavra mandatória nesta idéia, já que Honoh, como um dos primeiros especialistas em unitransporte, confiava plenamente na segurança do processo.
De qualquer forma, no tempo que eles levariam para deliberar a respeito, decidir e efetuar a desintegração, já teriam se transcorrido no microverso alguns dos milhares de anos de vida que restavam a Honoh. Haveria muito tempo para ele planejar e agir à vontade no novo e inexplorado ambiente, realizando os incríveis projetos que lhe povoavam a mente e escapando definitivamente do alcance das garras de seus conterrâneos, a despeito de qualquer ação que eles viessem a adotar.
Agora, ele não tinha a menor pressa. O tempo estava definitivamente a seu favor.
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