Quando, subitamente, viu-se em meio a uma escuridão completa, o cientista acendeu as luzes externas do traje e olhou para o cronômetro.
No momento do unitransporte, a contagem inicial fora interrompida, registrando 3 minutos 47 segundos e 99 centésimos.
Apenas dois centésimos de segundo antes do Juízo Final.
Caso esses dois centésimos houvessem transcorrido antes do unitransporte, seria impossível restabelecer o equilíbrio entre os dois universos sequenciais.
Agora, precisava substituir a remessa anterior do CTI, voltando a seu universo de origem com uma carga bem maior do que carregava no momento.
Assim, após esgotados os 3:48:01 minutos do prazo de eficácia da imitação energética que o CTI retirara do Microverso, esta matéria “roubada” manteria perpetuamente o equilíbrio comprometido. Não importaria o que acontecesse com ela depois, sua função já estaria cumprida – afinal, nada se perde, tudo se transforma. O que importava ali era o local onde esta transformação ocorreria.
O cientista obrigatoriamente deveria retirar do Microverso a quantidade de matéria orgânica viva equivalente ao conterrâneo desaparecido, somada à quantidade de matéria inorgânica sem vida e energia que o fugitivo carregava, equivalente a seus equipamentos.
Isso tudo, naturalmente, teria que acontecer antes que transcorressem os dois centésimos de segundo que faltavam em seu universo original, o que equivalia a pouco mais de um ano e um mês no Microverso. Esse era todo o tempo de que dispunha o cientista para cumprir sua tarefa.
Após este prazo, o equilíbrio entre os universos não mais poderia ser restabelecido, o que quer que se fizesse depois. A carga energética que substituía a matéria unitransportada entraria em colapso e uma nova matéria enviada no sentido inverso seria considerada pelo Cosmos com uma anomalia inteiramente nova, que também precisaria ser eventualmente compensada. Mas isto já não teria importância, não faria diferença. No exato momento do colapso anterior seria disparada, a partir dos dois universos envolvidos, uma espécie de onda de choque que avançaria nível após nível, como um câncer se alastrando pela infindável sequência de universos - em tese, iniciando um processo que faria suas estruturas ruírem em cascata, uma após a outra.
Obviamente, estes eram resultados teóricos que seu povo não fazia a menor questão em testar e comprovar na prática, a despeito de sua inerente ânsia em conhecer a fundo cada detalhe das engrenagens que faziam o Todo funcionar. De nada adiantaria submeter o que fora postulado a uma verificação real... e não sobrar alguém vivo para colher os resultados depois. Em casos assim, o melhor era confiar nos cálculos minuciosa e exaustivamente realizados. Apoiar-se no vasto e profundo conhecimento que detinham sobre as leis do Cosmo, por constituírem uma raça que nascera para a ciência, com currículo há milênios impecável.
Pouco mais de um ano um mês.
Esse era o intervalo de que dispunha o cientista para salvar o Multiverso.
Esse era o todo o tempo que poderia usar para encontrar as matérias que precisavam ser levadas ao seu universo de origem, salvando o Multiverso da destruição total. Era seu prazo limite para evitar que tudo deixasse de existir como era conhecido. Enfim, era a divisa que agora guiava as ações daquele despretensioso, porém destemido, cientista analítico do Instituto Científico.
Ele olhou para a nova contagem em seu cronômetro, iniciada assim que fora unitransportado. Já haviam se passado mais de dez minutos desde a sua chegada, desde o inicio de sua viagem não programada ao Microverso. Estava agora em missão vital e precisava começar a agir. Continuaria meditando quando pudesse.
Pareceu a ele que estava neste momento em pleno espaço entre constelações, um extenso vazio distante das aglomerações de estrelas mais próximas. Podia ver ao longe alguns pontos ofuscantes e irregulares. Eram as constelações daquela galáxia do Microverso, que, em seu universo de origem, o cientista sabia serem moléculas ou grupos de moléculas do objeto que estava no interior do compartimento de projeção do CTI.
Ele nunca havia sido unitransportado antes, e tampouco realizara longas viagens estelares em seu universo. Por isso, não possuía qualquer experiência
Confirmou as impressões visuais com os limitados sensores do traje - que ainda não conseguiam medir a distância exata até a estrela mais próxima, sinal inequívoco de que estava em uma região relativamente vazia daquela galáxia. Assim, ajustou o gerador STEP (equipamento de Salto Sobreespacial Portátil), que era parte primordial de seu equipamento espacial, para que realizasse um deslocamento em direção à constelação mais próxima.
O STEF (Saltador Sobreespacial Fixo, que em naves espaciais era bem maior devido à maior quantidade de massa que deveria “carregar”) era um aparelho que movimentava uma porção de matéria sem a mínima perda de tempo e por enormes distâncias, através da Quinta Dimensão (mais conhecida como Sobreespaço). Quando ativado, o STEF “perfurava” a barreira dimensional entre o espaço-tempo normal (Quarta Dimensão) e o Sobreespaço, onde o fator tempo não existia. Com a manipulação da própria energia sobreespacial que o STEF usava como combustível, a matéria que ele era encarregado de deslocar conseguia sustentar-se no ambiente estranho, penetrando através da fenda criada e saindo instantaneamente por outro rombo na parede dimensional – este, criado no ponto de destino de volta à Quarta Dimensão, previamente determinado pelo operador. Era como se o objeto fosse removido de um ponto do espaço normal e retornasse em outro, subvertendo e desprezando os fatores distância e tempo.
Assim como no sistema de cabines teleportadoras no planeta natal dos cientistas, o STEF constituía-se de um método de transporte instantâneo - mas não poderia ser acionado no interior da esfera gravitacional de um planeta. As fendas abertas no espaço-tempo através dele, ao cooptar maiores doses de energia que permitiam vencer distâncias astronômicas, geravam ondas que seriam prejudiciais aos fluxos de energia naturais e artificiais de uma região. Nas imediações de um astro - e próximo a uma civilização avançada - isto seria desastroso. Já o sistema de cabines, embora se valesse de princípios idênticos aos STE’s, não permitia que os choques dimensionais se propagassem. Eles eram criados, contidos e camuflados no interior das cabines especialmente projetadas. Algo que, por sua vez, limitava o alcance do equipamento.
O uso dos STE’s era proibitivo dentro de uma esfera planetária ainda por outras razões. Tratava-se de um método impreciso, só aconselhável para cobrir distâncias espaciais, sempre com margem de erro de alguns segundos-luz. Isso porque o operador muitas vezes não tinha como visualizar ou conhecer propriamente um ponto exato de destino. Apenas definia a distância, muitas vezes estipulando o salto na base do palpite, de acordo com dados dos sensores de longa distância e seu próprio senso de avaliação.
De qualquer forma, o sistema STE era o mais rápido e eficiente meio conhecido de realizar viagens interestelares ou até intergalácticas. E para utilizá-lo, não importava em que universo se estivesse, pois cada nível do Multiverso possuía as mesmas regras cósmicas, a mesma base da física, as mesmas conexões com todas as demais dimensões.
Quando a breve contagem regressiva do aparelho terminou, o salto foi realizado.
O cientista olhou em direção à constelação de destino. Não parecia estar mais perto, e de qualquer forma a distância ainda era grande demais para que seus limitados sensores portáteis pudessem medir adequadamente.
Ou seja, o salto fora muito curto.
Realizou outro deslocamento, desta vez ajustando o STEP para uma distância dez vezes maior.
Agora sim, já se notava uma ligeira aproximação.
Conforme ia saltando e avançando em direção a seu objetivo imediato, o cientista acostumava-se com o processo, tanto na sensação imediata de locomover-se a tal “velocidade” como no manejo adequado e seguro do STEP.
Quando finalmente chegou na constelação desejada, enfim se tornou um especialista em determinar as distâncias dos saltos entre a posição em que se encontrava e um ponto especifico escolhido no espaço, mais freqüentemente composto de uma estrela-alvo qualquer. Com a perícia inerente a sua raça, dominou rapidamente a técnica de conjugar dados dos sensores com avaliação visual, para se deslocar através de uma região espacial desconhecida da melhor forma possível.
Então resolveu começar logo a procurar um planeta adequado para a realização de sua tarefa principal. Sua reserva de oxigênio contava com pouco mais de 194 horas de ar respirável, e suas rações alimentares já estavam reduzidas à metade.
Saltando de um sistema solar a outro, procurava um mundo de oxigênio apropriado a sanar uma dupla - e vital - função: suprir sua necessidade de renovar os suprimentos para sua própria sobrevivência e obter os materiais que deveriam ser enviados a seu universo de origem dentro de 13 meses.
Bom dia meu jovem e amado escritor!
ResponderExcluirÉ preciso que se crie algo parecido ao STEP pra mim,mas para cobrir uma distância menor,
assim,poderei usá-lo para estar mais junto desse ilustre menino quando a saudade bater,rsrsrsrsrs.(Pretensiosa eu não????)
Estarei sempre no aguardo de um novo post,e à espera de saber quais serão os próximos "passos" desse cientista,ok???
Beijos Vulcânicos
Ro