segunda-feira, 12 de abril de 2010

Post 000019

Quando percebeu os tentáculos o envolvendo e puxando para baixo, o cientista ficou tão assustado que sua mente científica esqueceu por instantes a coerência e ele começou a debater-se furiosa e inutilmente, na tentativa de escapar do abraço alienígena. Só depois de esgotar suas escassas forças é que começou a raciocinar logicamente.

Ele nunca havia enfrentado seres hostis em sua vida, por isso demorou a lembrar-se de que o traje estava preparado para esta eventualidade. Quando resolveu apertar a tecla de ativação do campo elétrico externo do traje, já estava dentro do estômago da criatura.

O campo elétrico defensivo foi ativado. Ao redor do traje, surgiu uma camada de eletricidade com uma característica paralisante que atingia o sistema nervoso do adversário que entrasse em contato com ele. O estômago da criatura parou de se contrair ao redor do cientista, na tentativa inútil de digerir o corpo protegido pelo traje de ribélio.

Mas de que adiantava isso agora? O ideal seria que o campo elétrico fosse ativado enquanto estivesse ainda preso pelos tentáculos. Eles seriam paralisados, permitindo que o cientista, então livre nas águas do lago, escapasse tranquilamente.

Desligou o campo. Agora precisava abrir caminho através do corpo da criatura. Não se sabia a extensão nem o formato do corpo do monstro, e menos ainda que dificuldades surgiriam no processo de tentar sair dali. Talvez não passasse de uma “tentativa” de saída.

No entanto, como que simplesmente para contrariar seus pensamentos, agora sempre propensos ao pessimismo, pelo menos isso acabou se mostrando mais fácil do que esperava.

O corpo da criatura tinha perdido toda a rigidez, e o cientista conseguiu passar através do mesmo caminho pelo qual entrara, ou seja, o tubo que ligava a boca ao estômago, um canal antes estreito que agora estava largo e sem elasticidade.

Do lado de fora, o cientista viu que a boca pela qual entrara e saíra era uma cavidade oval perceptível em meio à areia do fundo do lago, e os tentáculos, agora imóveis, saíam diretamente do solo arenoso. Isso significava que, se a criatura ficava enterrada debaixo da areia, era porque existiam outros seres dentro do lago, que para serem capturados precisavam ser surpreendidos. Ou talvez a criatura se escondesse por temer alguma outra criatura que vivia no lago. Nesse caso, ela certamente seria ainda mais perigosa para o cientista que o monstro tentacular.

De qualquer forma, havia outros seres habitando aquele lago, e ele não desejava encontrá-los tão cedo.

Saiu apressadamente da água, utilizando os microjatos, e olhou ao redor com curiosidade. Observava, agora mais atentamente, a paisagem que já havia comtemplado com enorme satisfação ao completar a descida do espaço.

Em volta do lago, assim como em toda a superfície da lua, estendia-se uma densa e exuberante floresta tropical. Árvores que chegavam a trinta metros de altura cobriam todo o solo, entremeadas por cerrados arbustos e grossos cipós. Para onde quer que olhasse, o cientista só via aquela linda e misteriosa folhagem esverdeada. De todos os lados vinham diversos e constantes ruídos. Salvação estava repleta de vida.

O cientista fechou a faixa ocular por alguns instantes, saboreando o contentamento pelo fato da lua aparentemente justificar o nome que lhe havia sido dado.

Agora restava verificar se ela realmente servia a todos os seus propósitos.

Se não servisse, o Multiverso estaria perdido.

Nesse momento, subitamente, o cientista sentiu-se erguido do solo, ao mesmo tempo em que percebia algo lhe apertando dolorosamente a cintura.

Abriu a faixa ocular e levou um tremendo susto.

Uma garra enorme, em formato de pinça, apertava sua cintura, erguendo-o do chão. A garra estava levando sua presa de encontro a uma também enorme boca, repleta de dentes pontiagudos. O dono destes horrendos pesadelos materializados era uma criatura de cerca de dez metros de circunferência, achatada e envolta por uma couraça escura e aparentemente duríssima, da qual ainda escorria a água do lago de onde acabava de sair. De dois lados da couraça saíam diversas pernas e garras, sendo que nos outros dois lados do ser-cúpula, onde não havia nem garras, nem pernas, existia uma destas bocarras assustadoras.

Pelo jeito, este era um dos motivos pelo qual o ser tentacular se mantinha enterrado na areia, no fundo do lago. Dessa vez, porém, o cientista conseguiu agir em tempo, mantendo uma relativa calma.

Antes que a garra o atirasse dentro daquela repugnante cavidade bucal, ele ativou o campo elétrico. Imediatamente a garra o libertou para ficar pendendo, paralisada, ao lado da couraça. O ser-cúpula, no entanto, não desistiu e tentou agarrar sua vítima com outra garra. Não conseguiu. Ela entrou em contato com o campo elétrico e teve o mesmo destino à anterior. Permaneceria inerte e inútil até que seu sistema nervoso periférico se recuperasse do choque paralisante, restabelecendo contato com o centro de coordenação motora do cérebro. Com a interrupção do contato com o sistema nervoso central, simplesmente não conseguia receber e reagir aos impulsos cerebrais de comando. No caso do ser tentacular, o cientista já havia atingido diretamente o sistema nervoso central, paralisando todo o organismo da criatura.

Irritado, o crustáceo gigante tentou agarrar o cientista diretamente com uma das bocas, embora ainda lhe restassem quatro garras ativas.

Só conseguiu deixar a boca também dormente.

Confuso e amedrontado, o ser-cúpula desistiu da presa e mergulhou de volta nas águas do lago. Sorte dele possuir duas bocas. Caso contrário, passaria um bom tempo sem comer.

O incidente trouxe uma lição para o cientista. Em Salvação, teria que estar sempre atento ao perigo. Estar sempre esperando pelo inesperado.

Como se isso fosse possível...

sexta-feira, 12 de março de 2010

Post 000018

Espaço sideral.

O cientista quase já não sofria qualquer influência significativa da atração gravitacional de OXI-17. O antigravitador, no momento, era desnecessário.

Os microjatos, no entanto, mesmo com força dobrada ainda levariam quase dois dias para transportar ele até o limite aproximado da esfera gravitacional de Salvação - isto é, caso ela realmente possuísse uma atmosfera. E era na aparência da lua, um azul-esverdeada com esparsos toques de branco, que o cientista depositava todas as suas esperanças.

Os produtos fabricados pelo povo-cientista sempre estavam preparados para enfrentar alguma eventualidade dentro dos limites de maior probabilidade. Tanto o antigravitador da pequenina sonda possuía a mesma potência que o do traje, como também os bocais dos microjatos podiam expelir partículas até oito vezes mais potentes e intensas do que o originalmente proporcionado pelo microrreator inicialmente fornecido. Portanto, os microjatos podiam suportar a carga simultânea de oito microrreatores-padrão – e podiam reagir de acordo com isso em forma de força ou velocidade, multiplicando-as por oito.

Por isso o cientista seria um idiota se não reduzisse à metade o tempo da viagem adicionando aos microjatos os dois microrreatores ligados ao antigravitador. A energia transferida duplicou a velocidade no vácuo espacial entre Salvação e OXI-17.

Assim que começasse a registrar uma atração gravitacional de Salvação sobre ele, o cientista deveria devolver ao antigravitador a energia roubada. Os microjatos seriam desligados e a energia de seus dois microrreatores permaneceria inativa. Não que ela não fosse útil. Seria de grande ajuda para aumentar o desempenho do antigravitador, que seria super-requisitado na tarefa de deter a queda para a superfície de Salvação, refreando a vertiginosa velocidade. Acontece que dois microrreatores simultâneos atingiam o limite máximo da capacidade total do antigravitador. Era o máximo de energia que ele podia suportar, dada sua constituição mais complexa que a dos microjatos, cuja única função era gerar e expelir força propelente.

O cientista procurou relaxar durante aquele percurso através do espaço livre entre os dois astros. Mais tarde precisaria de toda a sua calma a atenção para realizar o complicado processo de aterrissagem em Salvação.

Ele sabia que o pouso seria difícil e perigoso.

E sabia que isso talvez nem chegasse aos pés do que o esperava na lua.


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Salvação possuía uma atmosfera de oxigênio.

E através dessa atmosfera, em direção à superfície do astro, descia vertiginosamente um corpo incandescente. Durante a descida, o corpo foi reduzido gradativamente sua velocidade até alcançar a imobilidade, duzentos metros acima do solo.

Então ele começou a voar paralelamente à superfície, até parar acima de uma área circular com cerca de cem metros de diâmetro, coberta de água. O corpo mergulhou nas águas frias do lago, deixando-se esfriar. Uma espessa coluna de vapor subiu do ponto onde a massa incandescente havia mergulhado.

Momentos depois, quando a água parou de evaporar, o corpo, já resfriado, surgiu à tona e encaminhou-se para a margem mais próxima.

Todavia, antes que ele pudesse atingir a terra firme, alguns tentáculos saíram da água às suas costas, envolvendo-o.

Enrolando-se totalmente nele, o puxaram de volta para dentro da água, onde permaneceu submerso.

Alguns minutos mais tarde, a água do lago já havia se imobilizado completamente, retomando sua serenidade anterior e não deixando qualquer vestígio do acontecimento incomum ali transcorrido.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Post 000017

Num último lampejo de raciocínio coerente, o cientista decidira que, diante da morte iminente, só havia uma coisa a fazer para se salvar.

O ser-mar não era a única matéria orgânica em OXI-17. Ele próprio também era um ser orgânico. Na situação em que estava, impossibilitado de se alimentar do ser-mar, a única solução era (inspirado no exemplo daquela inusitada nova forma de vida) alimentar-se de si mesmo.

Antes de desmaiar, conseguira retirar o traje do corpo, reconectar o tubo do Alimentador ao ventre e inserir nova matéria-prima dentro do aparelho que criava plasma alimentício. E essa matéria-prima fora uma de suas mãos!!!

Olhou ao redor e avistou a faca que fazia parte de seu equipamento e com a qual amputara a mão. A extremidade do braço desfalcado mostrava um rústico curativo, meramente destinado a conter o escoamento de sangue. Se antes de desmaiar não houvesse conseguido aplicar o spray estancador na ferida, teria morrido de qualquer forma. A hemorragia faria o serviço.

E, provavelmente, fora justamente o estado entorpecido, “anestesiado” em que se encontrava ao tomar a decisão, que lhe permitira colocar a idéia efetivamente em prática. Em sã consciência, talvez não conseguisse reunir o sangue-frio necessário para se auto-mutilar.

O cientista começou a pensar no que fazer dali em diante.

O equipamento STEP fora inutilizado. Estava preso em OXI-17.

Também não poderia continuar arrancando partes de seu corpo para utilizar como alimento. O organismo não resistiria a mais alguns desses ferimentos. Além disso, de que adiantaria continuar naquilo se depois estaria totalmente aleijado?

O cientista chegou a uma triste conclusão.

Não havia realmente evitado a morte. Apenas a retardara um pouco.

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Caiu num terrível estado de depressão.

Mais uma vez tinha escapado da morte iminente, e mais uma vez ela se apresentava à sua frente, como um fato muito próximo... e aparentemente inevitável.

O cientista ainda estava cansado. Se a morte não podia ser mesmo evitada e ele não conseguia mais imaginar qualquer meio de contornar a situação, bem que poderia passar pela transição durante o sono, relaxado. Seria o mais agradável, evitando o sofrimento e a angústia das últimas horas. Além do mais, o cansaço era tanto que a vontade de dormir tornava-se quase irresistível. Diante disto e da aparente inevitabilidade do fim, manter-se acordado exigia agora uma força de vontade monumental. O único fator que o despertara pouco depois do desmaio fora a ansiedade subconsciente, inerente à mentalidade de seu povo, em conhecer os resultados de um experimento crítico (no caso, a amputação e utilização de um de seus membros como alimento). De qualquer forma, o descanso agora seria tranqüilizador, quase indispensável.

Deitou-se no solo, apoiando a “cabeça” numa parte macia do interior do traje de sobrevivência.

Vislumbrou a abóbada celeste sobre si. Observou a beleza do firmamento de OXI-17, enquanto sua visão começava a anuviar-se, vítima do sono.

Percorrendo o céu do planeta, de repente seu olhar pousou sobre um determinado ponto - no qual fixou-se.

Uma súbita descarga de adrenalina espantou o sono, e ele ergueu-se rapidamente do solo.

Ainda havia uma esperança!

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Post 000016

Sentado no solo rochoso, o cientista - arrasado e sem esperanças - esvaziou o analisador, jogando fora a amostra do ser-mar.

Estava resignado com a morte, agora pelo jeito inevitável. Ele já conseguira retardar sua chegada o máximo possível. Para tudo devia existir um limite, e talvez o de postergar o fim (de si próprio e de tudo o mais) houvesse sido finalmente atingido.

Ele tentou se levantar.

Não teve forças.

A definitiva perda de sentidos, que precederia a morte por desnutrição, parecia muito próxima. Sua mente estava nublada, confusa, e o corpo se rebelava contra seus comandos. Não conseguia pensar com clareza.

Não havia mais nada a fazer.

Então, num último lampejo, seu cérebro conseguiu trazer à tona um raciocínio coerente, antes de esgotar sua energia ativa. Apenas uma pequena fração ainda restava da inteligência, esvaindo-se, confinada no fundo de sua mente agora trôpega.

Mas tal reflexão ficou disponível por tempo suficiente para disparar um pensamento - uma ordem - que ficou então boiando na semi-consciência, esperando uma reação do corpo.

Lentamente, seus braços começaram a mover-se, obedecendo ao último comando da mente adormecida. Como um autômato, o corpo do cientista tentava fazer algo que o consciente já se esquecia. Algo que logo se tornou desvinculado do restante de sua decrescente razão.

Presa e incapacitada nos recônditos da inconsciência, que tomava conta da parte consciente cada vez mais, avançando de forma inexorável pra engoli-la totalmente e levar o cientista para as trevas permanentes, a inteligência fazia votos para que seu corpo conseguisse terminar o que lhe fora ordenado, antes que fosse tarde.

Não era apenas a sua vida que estava em jogo. Se morresse, o fim de tudo que existia poderia ser inevitável.

Por pior que estivesse, um cientista não podia se render à morte.

Em qualquer situação, sempre devia haver uma saída.

Algo ainda podia ser feito!

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Subitamente, o cientista acordou.

Havia de fato desmaiado.

Mas, contrariando toda a lógica, conseguira acordar depois!

O cérebro, ainda longe de sua melhor forma, registrou o fato e começou a se esforçar em entender seu significado.

Por algum tempo, o cientista permaneceu entorpecido, confuso - esperando uma reação de sua mente outrora aguçada, que tentava agora recuperar a firmeza após a quase-extinção.

As idéias começaram a tomar forma, e ele enfim soube o que havia ocorrido. Fizera alguma coisa que o salvara da morte, mas ainda não conseguia lembrar o que era. Seus pensamentos ainda não haviam adquirido contornos definidos, e sua mente sugeriu que a resposta estava ao seu lado, sobre a superfície pedregosa da ilha.

Abriu a faixa ocular e viu o traje protetor no chão, perto dele. Do traje saía um tubo hipodérmico que terminava sobre o seu ventre. Era o tubo do Alimentador, que estava fornecendo plasma alimentício ao seu organismo debilitado.

Mas por que tivera que despir-se do traje para realizar o processo de alimentação? E, mais importante, o que fora utilizado como matéria-prima para o plasma alimentício?

De repente, soube a resposta para ambas as perguntas.

Percorreu com o olhar a extensão dos seus braços e, estarrecido, confirmou suas suspeitas.

Em um dos braços, faltava a mão na extremidade.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Post 000015

O mar escuro era composto por células.

E as células do ser-mar alimentavam-se de outras células do ser-mar.

A natureza surpreendente de OXI–17 desenvolvera uma forma de vida auto-suficiente. Não havia outras formas de vida no planeta. Não existiam alimentos no planeta. Em OXI–17 existiam apenas as rochas e o ser-mar. Mas o ser-mar não era capaz de se alimentar das rochas. Ele era ao mesmo tempo uma só criatura e várias lutando entre si. Ininterruptamente, uma célula devorava a outra, alimentando-se com ela, para depois fragmentar-se em duas partes, que partiam para devorar outra ou serem devoradas. Este era o ciclo de vida do ser-mar. Estava sempre se alimentando dele mesmo, e não aumentava nem diminuía seu volume total.

Uma célula virtualmente comia a outra, absorvendo-lhe totalmente a massa (que era inteiramente aproveitável). Durante esse processo, a célula predadora duplicava o seu tamanho e completava seu desenvolvimento. Sua individualidade, contudo, durava pouquíssimo tempo. Ela era parte de um ser maior, mas também era, de certa forma, um ser independente, com uma limitada consciência de sim mesmo e lutando contra seus irmãos gêmeos. Depois de devorar uma célula similar (vencendo uma espécie de combate psíquico) e adquirir o dobro do tamanho original, sua curta vida individual estava encerrada. Automaticamente, seguindo os desígnios da natureza, ela se dividiria em duas partes iguais, que seriam duas novas células que não possuiriam a memória da célula-máter. Imediatamente após a fissão – ou, de certo modo, nascimento – as duas já tinham que enfrentar imediatamente suas irmãs, na luta pela sobrevivência por alguns segundos a mais. Suas oponentes também seriam recém-nascidas, e a que se defendesse, instintivamente, de forma mais rápida e eficaz seria a vencedora-mãe. Eventualmente, também, as duas células de mesma origem se enfrentavam, logo após sua separação-concepção. O tempo de vida individual das células, propriamente dito, variava de acordo com a duração do primeiro e último combate psíquico que enfrentavam – ou seja, segundos.

Essa curiosa e singular forma de vida, realmente inédita, constituía a personificação de um dos maiores desejos do povo-cientista (naquele momento e por razões nada científicas, claro, principalmente do cientista quase morto de fome que estava preso em OXI–17). Ou seja, ser uma criatura auto-suficiente em matéria de alimentação. Um processo onde não havia respiração, ingestão, metabolismo, excreção ou queima de nutrientes para geração de energia. Claro, precisava existir um combustível para o processo, mas a solução para este mistério seria certamente um mecanismo ainda desconhecido para o povo cientista, que atualmente julgava já ter decifrado quase por completo os meandros da biologia. Mas uma coisa agora parecia evidente – a fonte de energia que permitia às células se digladiarem com fusões e cisões deveria estar diretamente relacionada às emissões energéticas que se originavam no planeta, afetando o sobreespaço (causadoras da pane nos equipamentos do cientista e subseqüente explosão que causara sua queda). Seria fascinante investigar a fundo o mecanismo da natureza que tornara tal inexplicável fenômeno possível, decifrando a forte que sustentava a biologia do ser-mar em sua inusitada existência. Seria aquele o caminho para a receita da imortalidade?

A forma excepcional pela qual o ser-mar se mantinha vivo não ofereceria empecilho algum para o cientista produzir nutrientes em seu alimentador, utilizando uma porção dessa matéria orgânica como matéria-prima para converter em plasma alimentício.

Se não fosse por um fator. Um terrível fator.

O analisador não conseguiu descobrir qualquer forma de matar as células sem tornar o alimento impróprio para o consumo. E para o plasma alimentício poder ser utilizado pelo cientista, seria absolutamente indispensável que estas células estivessem mortas.

As células do ser-mar, vivas dentro do organismo indefeso do cientista (ou de qualquer outro ser), iriam atacar com sua energia psiônica as células originais do indivíduo, matando-as. Mesmo que, por incompatibilidade genética, não lhes fosse possível se fundir à célula estranha, absorvendo-a, elas continuariam atacando, enquanto se espalhavam como um câncer, destruindo órgão após órgão até a falência das funções vitais.

Ou seja, o ser-mar não lhe servia como alimento.

E era o único material orgânico em OXI–17.