Quando seu suprimento contava com 120 horas de ar respirável, o cientista encontrou um planeta que parecia ser ideal. Dez mil quilômetros acima da superfície, ele preparou a sonda exploradora para enviar ao mundo, que batizou como OXI-8 (por se tratar do oitavo astro com oxigênio que visitava).
A sonda, que era uma esfera de 10 cm de diâmetro, foi enviada ao planeta para analisar a atmosfera, além de detectar os compostos minerais e eventuais formas de vida que ali existissem.
Ao retornar, a sonda confirmou as impressões visuais do cientista acerca da composição atmosférica do planeta azulado, trazendo-lhe uma análise satisfatória. A atmosfera era respirável, e havia vegetação rasteira cobrindo quase toda a superfície, onde também viviam animais de pequeno porte.
A sonda forneceu a distância exata entre o cientista em órbita e a superfície do planeta, considerando as coordenadas centrais do hemisfério visível, ou seja, o ponto do solo mais próximo dele. Assim, ele programou e ativou o STEP, materializando-se a poucos centímetros do solo. O método de executar um salto sobreespacial ao interior da esfera planetária sem o equipamento necessário para absorver o choque dimensional não era, de modo algum, recomendável - contendo certa taxa de risco ao próprio operador.
Porém, ele não tivera tempo de se preparar adequadamente antes do unitransporte, e não possuía o equipamento padrão das operações planetárias ao Microverso: uma espaçonave individual. – onde contaria com um recurso perfeito para a situação em que se via agora. Se não quisesse pousar diretamente com o veículo na superfície do mundo, teria ainda a sua disposição um transmissor OLEV de matéria – o meio-termo entre um STE e um sistema de cabines teleportadoras.
O transmissor OLEV, que também realizava um teletransporte através da 5ª dimensão, era equipado para absorver o eco dimensional resultante da ruptura da barreira espaço-tempo, mas não possuía a comodidade e segurança de um terminal receptor. Transmitia a carga para quaisquer coordenadas espaciais tridimensionais previamente determinadas. Assim como as cabines, ele absorvia os ecos dimensionais do teleporte – já o STEP, não. A aparelhagem necessária para a absorção do choque de ruptura era complexa e mais volumosa do que alguém seria capaz de levar por ai preso ao traje espacial.
Até agora, não havia arriscado a perigosa manobra de chegar à superfície de algum astro com o auxilio do STEP - a sonda o havia precavido antecipadamente das condições desfavoráveis dos planetas OXI-1 a OXI-7. Mas OXI-8 parecia corresponder a todas as suas necessidades. Ou quase todas.
Pisando sobre o tapete verde de vegetação do planeta, o cientista pegou algumas frutas exóticas entre os dedos. Eram macias e pareciam nutritivas. Colocou uma no analisador do seu traje.
A composição química era boa e o fruto continha muitos nutrientes. Porém o aparelho acionou um alarme, pois detectara entre os componentes uma bactéria mortal para o organismo do cientista.
Nada de mais, claro. Havia uma infinidade de espécimes vegetais naquele planeta, e alguns deles certamente deveriam ser adequados ao seu metabolismo.
Contudo, depois de horas analisando centenas de frutas, legumes, raízes e até folhas das mais variadas espécies, o cientista enfim desistiu. Toda a vegetação do planeta parecia estar contaminada por aquela bactéria.
Decepcionado, resolveu analisar alguns ovos de animais que encontrou. O resultado, naturalmente, foi o mesmo. Os animais nativos alimentavam-se da vegetação e, conseqüentemente, das bactérias que ela continha. Examinou então uma amostra do solo e descobriu uma porcentagem incrível desses microorganismos nocivos ao seu metabolismo. Parecia que a vida em OXI-8 era fundamentada nessas bactérias. Provavelmente, um hipotético e repentino desaparecimento daquela forma de vida em particular acabaria por exterminar todo o ecossistema do planeta.
Mas uma coisa ainda intrigava o cientista. Se o solo do planeta era infestado de bactérias, então por que a sonda indicara uma atmosfera prefeita para o seu organismo?
Decidiu analisar o ar ao seu redor e os instrumentos não registraram uma única bactéria. Então era isso!
Os microorganismos parasitas não sobreviviam ao ar livre. Viviam exclusivamente no solo e nos vegetais, alimentando-se de materiais orgânicos ou minerais. O ciclo de vida em OXI-8 limitava-se ao espaço dentro da faixa de um metro acima do solo. Ultrapassada essa faixa, existiam apenas os gases que compunham a atmosfera do planeta - nada de plantas, insetos ou microorganismos. Devido às características dos movimentos de rotação e translação do planeta, nele não surgiam correntes de ar capazes de movimentar e estender esta ridícula faixa vital. OXI-8 era um mundo muito jovem e, aparentemente, sem grandes expectativas em matéria de evolução. A vida nele parecia estar condenada a durar pouco tempo, até que as bactérias de proliferassem a ponto de consumir e esgotar todo o alimento disponível. Quando não tivessem mais do que se alimentar, tornando a face do planeta totalmente estéril, finalmente morreriam, deixando OXI-8 desprovido de formas de vida.
A natureza falhara - pensou o cientista - ao criar naquele mundo uma bactéria parasita sem inimigos naturais.
Não, não falhara.
A natureza nunca falhava. Seria um sacrilégio cientifico afirmar o contrário. Quando ela criou um mundo em que a vida duraria pouco tempo, deve ter tido suas razões dentro de um contexto maior. Se esse mundo existia, era porque possuía uma determinada função dentro do Multiverso.
Tudo tinha sua razão de ser. Mesmo que fosse apenas para decepcionar um cientista em busca de alimentos.
O cientista obrigou sua mente a abandonar os devaneios metafísicos. Não era um bom momento para divagar sobre suas tendências ao Gasagismo – corrente iniciada pelo cientista Gasag eras atrás, e que defendia a inexistência do acaso no Cosmo. Algo que, por sua vez, automaticamente pressupunha a existência de uma vasta inteligência central orquestrando tudo.
Mas agora, mais do que nunca, o tempo urgia. De volta à ação!
Ele encheu seus tubos de oxigênios vazios com o ar do planeta. O problema das reservas de ar respirável estava temporariamente resolvido, contando novamente com 300 horas de uso constante.
O que era dez vezes mais do que durariam suas atuais reservas alimentares.
Continuava incessantemente as consumindo, mesmo o que o ejetor de dejetos orgânicos do traje fosse acionado apenas, em média, a cada sete ou oito horas. Afinal, era um sistema de emergência, de uso apenas eventual. Supunha-se, claro, que um explorador espacial do povo cientista nunca precisaria ficar tanto tempo atuando em condições tão desfavoráveis quanto aquelas. Imaginava-se que sempre disporiam dos confortos de uma nave e o traje espacial seria utilizado em raras e curtas circunstâncias.
Agora, a questão era que, se o analista aventureiro não encontrasse logo um mundo que lhe fornecesse alimentos adequados, não chegaria a gastar um sexto de sua atual reserva de ar.
Um morto, afinal, não respira.
Eu sempre aqui,acompanhando a saga e no aguardo de seu próximo post my friend!
ResponderExcluirBeijo grande
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