O cientista-analítico que monitorava o computador do CTI estava aborrecido. Particularmente, ele achava aquele serviço uma perda de tempo, sem qualquer utilidade prática. Travava-se, pura e simplesmente, de acompanhar o funcionamento da máquina e analisar suas reações durante o unitransporte.
Por que ele ainda precisava ficar de olho nos indicadores? Não havia mais motivos para isso. Todas as reações e processos que ocorriam quando alguém permanecia no Microverso já eram conhecidos, estavam extensivamente analisados e registrados.
Não existia mais qualquer perigo, todos os fatores de compensação interuniversal já estavam mapeados e eram meticulosamente conhecidos. O equipamento transportava alguém para o Microverso e mantinha uma carga de energia equivalente em seu lugar, extraída do local de destino – evitando, assim, um desequilíbrio energético entre os universos. Quando o enviado retornava, o CTI desfazia a carga energética, até então estabilizada em compartimentos especiais nas entranhas da máquina. Ambos os procedimentos precisavam ser absolutamente simultâneos, claro, para manter a integridade entre os dois níveis universais.
O processo era seguro. A carga energética era retirada do Microverso no mesmo instante em que se realizava a emissão do indivíduo e da nave ou qualquer equipamento que este porventura levasse consigo. A energia retirada do Microverso equivalia exatamente à representada pela matéria enviada através do CTI. Quando a massa retornava ao seu universo, imediatamente a carga energética retornava ao Microverso.
Esta era um processo perfeito e exaustivamente estudado. Até agora nada de anormal fora registrado.
O Cientista-Chefe do Instituto (antes cientista-chefe apenas do projeto CTI, agora promovido graças ao sucesso obtido) porém, exigira que durante aquele específico unitransporte houvesse um cientista-analítico monitorando o computador. Questão adicional de segurança, já que desta vez o enviado permaneceria durante muito mais tempo no Microverso. Poderia acontecer algo inédito durante a experiência. O enviado permaneceria por quase 5.700 anos no Microverso, ou seja, quase três minutos no tempo normal do universo (TNU).
A última remessa já estava há meio minuto TNU no Microverso, e até agora nada de especial fora constatado. Foi quando, após exatos 36 segundos transcorridos, algo no monitor do computador chamou a atenção do analítico.
“Pelos primeiros cientistas” – pensou ele, assustado – “Isso não pode ser verdade! Não pode!”
Seus dedos treinados correram rapidamente sobre as teclas no painel do console do computador, solicitando uma análise equidinamofásica imediata.
Quarenta e um segundos e trinta e nove centésimos.
O computador colocou a análise na tela e o cientista não quis acreditar no que viu. Tinha que tomar uma providência imediata.
Quarenta e oito segundos, setecentos e sessenta e dois milésimos.
Não podia permitir que a marca de cinqüenta segundos e doze milésimos fosse atingida. Tudo dependia dele agora.
Sua mão caiu sobre a tecla de emergência.
Sem perda de tempo mensurável, o CTI trouxe o enviado de volta a seu universo. O cientista-analítico olhou apavorado para o monitor de permanência, agora parado.
Cinqüenta segundos e meio milésimo!
Respirou aliviado. Por uma questão de onze e meio milésimos de segundo, acabara de salvar o Multiverso da destruição total, pelo simples pressionar de uma tecla em tempo.
Evitara a ocorrência da maior catástrofe imaginável.
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Uma reunião de emergência dos cientistas envolvidos com o CTI foi imediatamente convocada.
Os registros do computador referentes ao incidente foram analisados cuidadosamente e não restou dúvida a respeito do perigo.
O transporte interuniversal não era seguro.
A carga energética retirada do Microverso não garantia o equilíbrio perenemente. Após transcorrido um certo prazo, variável de acordo com o tipo e quantidade do volume unitransportado, a carga entraria em colapso, e a matéria enviada ao Microverso não poderia mais retornar. Neste caso, haveria um desequilíbrio permanente entre os dois universos subsequentes e então fatalmente o Multiverso teria o seu tempo contado. O conjunto de universos não resistiria à tensão causada por aquela desarmonia e, em dado momento, desabaria sobre si mesmo, desmantelando-se a partir do uninível doente, em uma reação em cadeia.
Tudo deixaria de existir da forma que era conhecida.
Os cientistas realizaram uma seqüência de testes, determinando que cada tipo ou quantidade diferente de matéria possuía seu próprio prazo de permanência no Microverso. Também influía decisivamente no prazo a natureza da substância utilizada como meio de ingresso, em lugar do outrora exclusivo ribélio.
No caso do incidente, a carga energética corresponde ao enviado, sua nave e seus equipamentos levaria cinqüenta segundos e doze milésimos para entrar em colapso.
Havia apenas uma maneira de manter o equilíbrio seguramente.
Para cada porção de matéria enviada ao Microverso, uma porção equivalente, do mesmo tipo e volume, deveria ser retirada do uninível de destino. Uma troca real e exata precisaria ser feita. Isso significa que, depois de enviar uma criatura viva através do CTI, outra criatura viva e de mesma massa corporal teria que ser deixada em seu lugar, retirada do próprio Microverso. O mesmo ocorreria com um pedaço de rocha ou qualquer outra espécie de objeto.
Seqüestrar, arrancar um ser vivo de seu meio e mantê-lo hibernando, para depois colocá-lo em seu ambiente milhares de anos depois não atendia nem um pouco aos preceitos de conduta moral do povo cientista – mesmo que se tentasse justificar tal atrocidade como algo necessário em prol do desenvolvimento científico.
Além disso, mesmo efetuando tal processo utilizando matéria inorgânica, como robôs especializados, o fator de risco era demasiadamente alto para ser aceito. Uma falha em algum ponto e... o Multiverso encontraria o seu fim. Não se podia incorrer em perigos de tal amplitude, era o tipo de decisão e risco que ser algum – ou raça alguma – deveria possuir o direito de lidar.
O transporte interuniversal não era seguro.
E uma característica profunda e marcante do povo cientista era o firme propósito de jamais executarem qualquer experiência que soubessem ser perigosa. Ainda mais se a magnitude do perigo fosse tão absurdamente grande.
O conselho tomou uma decisão. A prática do transporte interuniversal deveria ser suspensa.
O uso do CTI estava proibido.
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Em todo o planeta, os CTIs estavam sendo gradativamente desmantelados. Os laboratórios do Instituto onde o projeto era realizado foram temporariamente desativados. O caso todo começara a se desenrolar pouco antes do falecido encarregado pelo abastecimento entrar no aerocarro e tomar, pela última vez, o rumo da “residência” de Honoh. Enquanto o renegado iniciava a parte ativa de seus planos, escondendo o cadáver de sua primeira vítima fatal e fugindo do exílio, a decisão de abortar o projeto e inativar os equipamentos corria pelo planeta.
A sede do Instituto
Ele não sabia de nada a respeito da descoberta do perigo representado pelo transporte interuniversal. Afinal, não estava mais conectado à rede de informações do Instituto - através da qual um alarme planetário fora divulgado, alertando sobre os riscos e proibindo o uso do CTI.
Por outro lado, algumas sedes do Instituto ainda estavam realizando pequenos testes com as máquinas antes de desmontá-las.
Parecia que o destino estava favorecendo Honoh na realização de seus planos, pois uma destas máquinas, ainda funcionais, estava localizada justamente na sede do Instituto em Cidade Arera.
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Honoh chegou
Escolheu um lugar qualquer para pousar. A rua, que não se dedicava ao trânsito de veículos, e sim, a proporcionar vagas de estacionamento de aerocarros e movimentação de pedestres, não possuía qualquer característica especial.
A única coisa que interessava ao rebelde naquela rua era um acessório encontrado em qualquer quadra de qualquer rua, bem como em qualquer edifício do planeta. Eram os notórios pontos de teleporte, compostos por um par de cabines. Sua presença caracterizava aquele mundo tanto quanto a dos seres nativos.
Honoh desceu do aerocarro, postou-se próximo a uma cabine teleportadora e ficou estudando os arredores, disfarçando e esperando que alguém vestindo um traje de membro do Instituto Científico se aproximasse dela.
O primeiro criminoso do povo cientista possuía o cartão vibratório do encarregado que havia matado. O cartão teria que ser inserido na fenda do console interno da cabine, para que fosse permitido o teleporte ao interior do edifício do instituto
Contudo Honoh não conhecia tal código.
Por isso, estava aguardando o surgimento de alguém que desejasse usar aquela cabine com um destino idêntico ao dele.
Meia hora depois Honoh viu, do lado oposto da rua, um indivíduo de marcação verde aproximando-se da cabine. Honoh então caminhou em sua direção, controlando a velocidade dos passos, evitando ser percebido pelo outro e tentando aparentar naturalidade, alcançando-o a dois metros da cabine.
- Saudações, colega – disse ele ao indivíduo, enquanto terminavam juntos de caminhar, parando em frente à cabine – Está indo ao Instituto?
O inimigo planetário nº1 fez como se tivesse acabado de notar a presença do outro, apesar de possuir, como o resto de seu povo, visão global. Qualquer pessoa, ao ver um desconhecido aproximando-se de uma cabine teleportadora a qual ele mesmo se dirigia, não faria o mínimo esforço para alcançá-la antes que o outro entrasse nela, já que o sistema de transporte por teleporte era instantâneo, e não havia qualquer sentido em pegar carona com alguém para economizar tempo.
Como aquele indivíduo não era conhecido seu – o que, por sinal, não seria nada bom, dada sua atual condição de renegado e criminoso exilado – Honoh teve que simular uma situação casual com ele, chegando à cabine no mesmo instante, sem deixar que o outro percebesse antes que também caminhava em direção à ela e fingindo também não o ter notado durante o percurso.
O ex-membro do Instituto havia conseguido fazer com que chegassem à cabine juntos, mas, para evitar que o outro lhe fizesse uma gentileza, cedendo-lhe o uso do terminal de teleporte em primeiro lugar, perguntou se ele também iria para o Instituto. Caso a resposta fosse afirmativa, seria natural que ambos entrassem juntos, já que teriam o mesmo destino.
- Saudações, colega – disse o indivíduo, antes de responder a pergunta de Honoh – Sim, estou indo para lá. E você?
Pronto!
- Também – respondeu, abrindo a porta para que o outro entrasse primeiro – Vamos entrar.
Para que o estratagema de Honoh desse resultado, era imprescindível que o outro entrasse primeiro na cabine.
Deu certo! Quando o rebelde entrou, o indivíduo já estava no console, digitando o código do Instituto de Ciências da Cidade. O problema estava resolvido. O computador já tinha o endereço desejado, mas, registrando a presença de duas pessoas em seu interior, seria necessário que houvesse a apresentação de dois cartões vibratórios do Instituto distintos, um para cada usuário.
E isso Honoh possuía.
Os dois inseriram seus cartões na fenda e a cabine teleportadora os transportou, transmitindo suas estruturas atômicas pelo hiperespaço para o terminal receptor instalado na sede do Instituto
De todas as “cenas de crime” que Honoh estava colecionando, aquela estava destinada a ser a principal.
Legal que a cada novo post eu acabo relendo tudo desde o início,rsrsrsrsrsrsrs,não resisto!
ResponderExcluirE mais uma vez vou ficar aqui,aguardando mais um trecho dessa Odisséia,que me deixa a roer as unhas de tanta curiosidade!!!!
Beijo na alma amore!
R
Que bom que esteja gostando, moça. Se você já está roendo as unhas agora, imagine quando chegarmos na parte onde começa a ação de verdade, com um monte de cenários e personagens novos aparecendo a todo momento... espero conseguir acelerar o ritmo das minhas atualizações, para mergulharmos logo na fase onde a trama se ramifica e a coisa passa a esquentar pra valer.
ResponderExcluirBeijo do Macroverso.
A