sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Post 000014

Ao recobrar a consciência, o cientista se viu cercado pela completa escuridão. Sentiu de imediato a fraqueza da fome, mais intensa do que nunca.

Esforçou-se para movimentar o corpo, percebendo algo que o despertou completamente. Estava mergulhado em uma substância viscosa, um liquido muito grosso que dificultava enormemente seus movimentos.

Ele havia desmaiado porque o esforço emocional exigido pela situação desesperadora fora demais para seu estado debilitado. Escapara por muito pouco, exigindo o máximo de seu corpo e mente – somente para, ao acordar do desmaio, se ver novamente em dificuldades.

Por mais que se debatesse – ou “tentasse” se debater – não conseguia, ao menos aparentemente, sair do lugar.

Mas de que adiantaria tentar se movimentar naquela substância, se não sabia nem mesmo onde era em cima ou embaixo? Se conseguisse avançar, como saberia que a direção escolhida o levaria a superfície? Talvez acabasse se aprofundando ainda mais naquele liquido viscoso.

Aquela viagem ao Microverso estava sendo muito mais difícil e perigosa do que poderia ter imaginado.

Tinha uma enorme e vital tarefa a cumprir – e nem ao menos conseguia se manter vivo sem complicações.

“Só espero” – pensou o cientista – “que o maluco responsável por tudo isso esteja em situação muito pior”.

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A sonda retornou depois de algum tempo. A duração de sua ausência significava que ela não havia encontrado nada além da substância misteriosa numa extensão de 100 metros. O cientista renovou o programa da sonda e a enviou em outra direção, baseado nos resultados anteriores. Esperava que ela encontrasse a superfície e lhe indicasse a direção.

Desde o inicio daquele procedimento ele permanecia completamente imóvel, tanto por reconhecer a inutilidade em se debater dentro daquela espécie de piche, como por ser a imobilidade agora algo vital para o sucesso de seu estratagema.

Todos os instrumentos detectores e analisadores da sonda estavam desligados, e toda a energia do microrreator da mesma estava dirigida apenas aos seus dispositivos de antigravidade e propulsão. Isto era necessário para que ela pudesse se movimentar através daquele ambiente viscoso, que gerava uma atração de aproximadamente 2g.

Pela densidade do material em que estava imerso e pela força gravitacional à qual estava agora submetido, o cientista calculou estar em torno de 50 metros abaixo da superfície. Por segurança, programara a sonda para percorrer sempre 100 metros em linha reta antes de retornar.

Visando ter energia suficiente para se locomover naquele ambiente desfavorável, a sonda não poderia utilizar o seu registrador de índice gravitacional. Mesmo o registrador de consumo energético estava desativado. Com esse aparelho funcionando, a sonda poderia registrar um aumento ou uma redução do consumo energético do antigravitador, caso se afastasse ou se aproximasse da superfície do planeta, respectivamente. Se a sonda registrasse uma redução do consumo, significaria que a gravidade à qual estava submetida era menor do que a do ponto de partida, ou seja, estava se aproximando da superfície, do ambiente livre daquela espécie de piche. Se a sonda, porém, registrasse um aumento do consumo, que já era quase de 100%, estaria se afundando mais naquele “liquido”. De qualquer forma o cientista saberia qual seria a direção correta a seguir para sair daquele lugar.

Contudo, precisando utilizar cada fração de energia disponível para conseguir simplesmente se movimentar, a sonda tinha que dispensar todos os sensores, inclusive os registradores de índice gravitacional e de consumo energético. A sonda estava, portanto, “cega, surda e muda”.

Então, o que faria o cientista para saber a direção da superfície? Não seria seu estratagema inútil?

Não. Não era inútil.

Ironicamente, a própria falta de instrumentos, a “cegueira” da sonda, é o que permitiria agora ao cientista determinar a direção da superfície, Claro, com os sensores tudo seria mais simples e seguro, mas eles não podiam mesmo ser utilizados.

A sonda estava com o detector gravitacional e o registrador de consumo - que também serviam como controladores de potência - desligados. A conclusão era óbvia.

Com a capacidade máxima de impulsão e incapaz de avaliar a força gravitacional à qual estava submetida, quando a sonda se aproximasse ou saísse para a superfície, algo iria mudar: sua velocidade aumentaria. A capacidade máxima, no momento suficiente apenas para locomovê-la a 10m/s sob gravidade de 2g, numa gravidade menor faria com que o deslocamento fosse muito mais rápido (já que o registrador de índice gravitacional, inativo, não cumpriria uma de suas principais funções, que era controlar – no caso, reduzir – automaticamente a potência do microreator, para manter constante a velocidade da sonda).

Caso a sonda se aprofundasse mais no liquido, não tendo mais fontes de energia às quais recorrer (pois os aparelhos estavam na regulagem máxima), não conseguiria prosseguir e retornaria imediatamente após avançar poucos metros. Isso porque apesar de avançar a favor da atração gravitacional, estava programada para anular essa força, que cresceria além da capacidade do antigravitador.

Se o registrador de índice gravitacional estivesse funcionamento, a sonda simplesmente utilizaria a atração como propulsão para prosseguir no deslocamento. Detectaria o incremento natural a favor da direção de seu deslocamento e desativaria o antigravitador, mantendo o aparelho propulsor como base.

O cientista possuía, portanto, dois valores seguros para alcançar seus objetivos.

Se a sonda seguisse paralelamente à superfície, avançando e retrocedendo os 100 metros, retornaria em 20 segundos. Se descesse mais, em 4 segundos estaria de volta.

Portanto, se ela partisse em direção à superfície, voltaria em um intervalo de tempo intermediário entre estes dois valores. Assim, o cientista poderia descobrir a direção desejada, conforme as variações do tempo que a sonda demorasse para retornar até ele.

Descobriu a direção em que a sonda retornava em quatro segundos. Ela ficava sobre a sua cabeça.

Enviou a sonda diversas vezes na direção dos pés até descobrir o ponto em que ela retornava mais rapidamente até ele. Então, fixou nela um cabo de ribélio que fazia parte do equipamento do traje.

Conservando na sonda a potência máxima, programou-a agora para que seguisse continuamente na direção desejada, até que ele desse o sinal de retorno pelo controle remoto. Felizmente, a programação da sonda era realizada através de uma linha especial de radiocomunicação. Seria impraticável qualquer trabalho manual mais complexo, dentro daquela escuridão total e impenetrável por qualquer lanterna ou holofote. Aquele material denso no qual estava mergulhado constituía-se em uma barreira física que impedia a passagem de fótons.

O cientista prendeu a outra extremidade do cabo em uma argola que havia no pulso do traje protetor. Então deu o sinal de partida para a sonda. Ela seguiu imediatamente na direção escolhida, e durante alguns tensos segundos o cientista ficou sentindo o cabo desenrolar-se em suas mãos.

Ele não sabia de onde estava conseguindo forças para executar tais procedimentos, imerso naquela substância que atrapalhava seus movimentos e em vista do estado de extrema fraqueza em que se encontrava. Talvez aquela última reserva de energia recentemente despertada com a descarga de adrenalina durante a queda em direção a OXI-17 ainda não houvesse se esgotado, afinal.

Quando o cabo se esticou, o cientista levou um leve tranco, começando involuntariamente a executar um giro de 180 graus dentro do líquido.

Se a sonda tinha força suficiente para puxá-lo, então forçosamente devia agora já estar sob uma gravidade bem inferior a 2g – ou seja, ao ar livre.

Ele começou a subir bem lentamente, içado pelos aparelhos antigravitacional e propulsor da pequenina sonda. Logo, impaciente graças à debilidade física e mental, cometeu um gesto inconsequente, algo arriscado e desnecessário. Retirou uma das três mãos que seguravam no cabo e ligou os microjatos propulsores do traje, que ainda contavam com os dois microrreatores adicionais. Agora que estava na direção certa, imaginou que aquilo ajudaria, acelerando a subida.

Sua velocidade de ascensão de fato aumentou. O traje de ribélio não corria perigo com a energia represada pela substância viscosa que o cercava, mas o cientista se arriscava a perder o equipamento propulsor. Com os bocais dos jatos entupidos pelo líquido espesso, poderia ter ocorrido uma implosão. Felizmente, a força das emissões de partículas em alta temperatura foi suficiente para calcinar imediatamente a matéria que bloqueava os bocais de saída dos jatos.

Após alguns minutos de enorme expectativa, o cientista saiu abruptamente para a luz do sol. Ofuscado, mas muito aliviado, demorou alguns instantes para se adaptar à claridade e lançar um olhar ao redor.

Desligou os jatos e trouxe a sonda de volta. Estava tão aliviado que mal conseguiu evitar um desmaio por esgotamento psíquico. Ele precisava encontrar comida dentro de poucas horas. Se perdesse os sentidos agora, talvez nunca mais acordasse.

Viu que estava no meio de um mar. Num raio de aproximadamente 10 metros à sua volta, a substância viscosa apresentava-se negra, provavelmente afetada pelo calor que ele emanara quando, incandescente, mergulhara do céu naquele ponto. Após esta circunferência negra, o mar viscoso assumia uma coloração marrom.

Ao longe o cientista avistou uma pequena ilha rochosa, sobressaindo solitária em meio àquela paisagem monótona.

Permanecendo presa ao cabo que a ligava ao traje, a sonda, ainda regulada na potência máxima, recebeu uma ordem para seguir na direção da ilha. Sem dificuldades, o cientista foi rebocado pela sonda com o auxílio adicional dos microjatos do traje, até chegar à estéril formação rochosa. Ele agarrou-se às pedras do litoral, desativou a sonda e os jatos e, com algum esforço, conseguiu se arrastar para cima da ilha, saindo do mar escuro. Deitou-se sobre as pedras, exausto.

Sentiu vontade de dormir, uma vontade quase irresistível. Estava muito, mas muito cansado mesmo. Dois dias sem dormir, aliados ao esforço físico-psíquico das últimas horas e à fraqueza provocada pela fome o deixavam no auge da exaustão.

Começou a pegar no sono. Como ansiava por um pequeno descanso! Apenas para relaxar um pouco e recuperar as forças... tão cansado...que mal havia num pequeno cochilo?

Tão relaxante... gostoso... necessário... tão... t...

Não!

Levantou-se do chão com um salto, apavorado. Às portas da morte, quase havia dormido! Poderia ter sido o sono definitivo!

Procurou clarear o raciocínio embotado. Em hipótese alguma poderia dormir agora. Não antes de se alimentar.

Se dormisse, dificilmente acordaria. Seria o fim.

Desprendeu a sonda do cabo e mandou-a localizar as formas de vida que ela havia detectado antes da sua trágica queda em OXI-17. Agora com todos os sensores reativados, ela retornou após apenas alguns segundos percorrendo as redondezas. Sequer saíra do campo de visão do cientista, que estranhou o ocorrido – afinal, não se avistavam quaisquer indícios de vida, sequer vegetal. O enfraquecido analista estudou ansiosamente os resultados.

Em toda a redondeza vasculhada, somente em dois pontos a sonda não detectara vida: na área negra do mar, onde o cientista mergulhara, e, com exceção dele próprio, na área ocupada pela ilha rochosa. Fora isso, a sonda registrou emissão de pulsos orgânicos por toda parte. Eles não se movimentavam e não podiam ser focalizados, estavam em todo o mar escuro.

O cientista raciocinou um pouco – agora já com certa dificuldade, diga-se de passagem.

Aquela vida não estava em todo o mar.

Era o próprio mar.

Aquela substância escura e viscosa, na qual há pouco estava imerso, consistia em uma exótica forma de vida. Provavelmente, era o único habitante e o dono absoluto de OXI–17. Não era como os mares de outros planetas, que possuíam microorganismos em abundância misturados com o líquido. A sonda, em sua atual programação, não registraria isso como forma de vida. Aquele mar era um único ser, evoluído e fragmentário, sem coesão.

O cientista foi até a margem da ilha e colheu uma amostra do mar. Colocou a amostra no analisador do traje, ligando-o.

O resultado foi decepcionante.

Mais que decepcionante, completamente desesperador.

E o cientista já se considerou um indivíduo morto.

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quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Post 000013

O alimentador do traje espacial, que agora só tinha reservas para mais 30 horas de consumo, era um equipamento automático. O alimento era colocado em seu interior e transformado em plasma alimentício, que ficava armazenado. Periodicamente, o alimentador, ligado diretamente ao corpo da pessoa por um tubo hipodérmico flexível, injetava uma determinada quantidade de plasma alimentício no organismo do indivíduo, o suficiente para mantê-lo abastecido de nutrientes até a próxima dose. Era um sistema inteiramente independente, que mantinha a pessoa alimentada mesmo se ela estivesse inconsciente. Neste processo, os sistemas digestivo e excretor do individuo permaneciam quase inativos. Não havia realmente alimento para ser processado pelo organismo - o plasma alimentício era composto exclusivamente pelos ingredientes absorvidos, essenciais à sobrevivência do corpo. Ou seja, apenas aquilo que seria efetivamente aproveitado pelo organismo após uma refeição normal.

O cientista abandonou OXI-8, programando o STEP para transportá-lo ao espaço. De lá, escolheu uma estrela próxima e saltou novamente.

No interior do sistema, gastou algumas horas saltando de planeta em planeta detectado pelo rastreador de eco gravitacional, um pequeno e fantástico aparelho de longo alcance. O sistema possuía uma larga e animadora faixa de vida, ou seja, planetas que ofereciam condições adequadas de temperatura para o surgimento espontâneo de vida nativa. Talvez isto realmente ocorresse em alguns desses mundos, mas o cientista não teve qualquer razão para verificar pessoalmente. A sonda exploradora fez o seu serviço.

Nenhum planeta de oxigênio nesse sistema.

Continuou saltando de estrela em estrela, seguindo uma imaginária linha reta utilizando como ponto de referência o superluminoso centro da galáxia. Aquela era uma galáxia muito pequena. E muito jovem, também. Por isso, em tese, seria difícil encontrar planetas que já houvessem produzido formas de vida mais desenvolvidas – mais ainda que no aglomerado galáctico de origem do povo cientista, que os decepcionara profundamente ao não lhes revelar qualquer outra civilização, à despeito de ser uma região estelar já bem antiga.

Eventualmente, o cientista encontrava mundos de oxigênio - sem que qualquer deles, por um motivo ou outro, servisse a seus propósitos. Alguns eram desprovidos de vida, outros eram nocivos ao seu organismo. Encontrava planetas e luas muito promissores, mas acabava descobrindo que eram radioativos ou possuíam microorganismos perigosos, como OXI-8.

Com suas reservas alimentares recém-esgotadas e já se sentindo um pouco debilitado, materializou-se na esfera gravitacional de OXI-17. A sonda foi enviada para analisar a superfície do planeta. Quando ela retornou, o cientista constatou que não foram registradas situações de alerta, como radiações ou microorganismos nocivos. Em contrapartida, detectara uma forma de vida... mas não havia conseguido determinar a fonte dos impulsos orgânicos. Simplificando, não se sabia de que espécie era a vida nativa daquele planeta.

Mas aquilo era o suficiente para o cientista. No estado de fraqueza em que se encontrava, desnutrido e desesperado, ele não estava em condições de ficar aguardando uma determinação segura sobre o que realmente havia naquele mundo. Seu raciocínio já estava ficando lento, o temperamento revelava uma irritação atípica e o corpo apresentava um leve tremor. Assim, resolveu arriscar um micro-salto até a superfície do planeta.

O STEP foi acionado.

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Se o cientista estivesse com seu raciocínio em ordem e não fosse tão precipitado e descuidado – justificadamente, é claro – teria verificado em seus instrumentos que OXI-17 emitia ininterruptos impulsos energéticos que interferiam no sobreespaço. Claro, não se poderia esperar que alguém no estado físico e psicológico em que o pobre analista se encontrava no momento conseguisse de fato ser meticuloso a ponto de examinar uma possibilidade tão remota quanto aquela.

Próximo de um planeta comum, o uso do STEP já seria arriscado. Em OXI-17, porém, era simplesmente impossível.

No momento do salto, os impulsos pentadimensionais do planeta interferiram no funcionamento do aparelho, provocando o desastre.

O cientista não saiu do lugar. O salto não se concretizou.

Contorcendo-se de dor, ele sentiu como se o universo ao seu redor estivesse explodindo. Depois de intermináveis segundos de sofrimento e perplexidade, os efeitos do choque sobreespacial passaram, devolvendo-lhe a percepção das coisas.

Então, surpreso ao ver que ainda estava vivo, o cientista prestou atenção à paisagem que o rodeava e localizou OXI-17, imóvel, ainda ocupando o mesmo ponto no espaço antes da tentativa do salto, em relação à sua própria posição.

Alguns momentos de observação a mais, contudo, puseram abaixo esta primeira impressão. Imóvel?

Imóvel, não! O planeta parecia se aproximar vertiginosamente dele.

Percebeu apavorado o que acontecia.

Estava caindo.

O micro-aparelho antigravitacional do seu traje, que até então anulava a força da gravidade de OXI-17, mantendo-o pairando em um ponto fixo do espaço atmosférico, não estava mais funcionando. Certamente era uma conseqüência do choque sobreespacial.

O cientista caia cada vez mais rápido, conforme a atração gravitacional do planeta se tornava mais intensa em função da assustadoramente crescente proximidade da superfície. Se ele não fizesse algo para impedir o choque com a superfície de OXI-17, A violência do impacto reduziria seu corpo a uma pasta orgânica quase liquefeita encerrada no interior de um traje espacial intacto.

O campo protetor, devidamente ajustado na amplitude máxima e em regulagem bem aberta, teria a capacidade de amortecer o impacto fatal, conforme uma maior porcentagem dele fosse entrando em contacto com o solo. Não era a finalidade para a qual o campo fora projetado, mas salvaria a vida do cientista, reduzindo gradativamente a velocidade da queda.

Uma redução abrupta seria tão fatal quando um impacto direto. Sem uma inicialização em amplitude máxima, na situação atual o campo energético de nada valeria como proteção à sua integridade física. Mesmo sem entrar em contato direto com a superfície, o cientista seria destroçado quando a queda terminasse abruptamente, graças aos princípios da inércia sobre massa. A questão não era colocar algo entre ele e o solo que se aproximava, mas utilizar um recurso (mesmo improvisado) de frenagem da velocidade de queda.

Extrapolando o sentido literal para o qual fora projetado, o campo teria sua potência, normalmente concentrada em uma esfera com diâmetro inferior a dois metros, distribuída num raio de quilômetros. Durante o procedimento que estava imaginando, conforme se aproximasse do planeta estaria reduzindo o tamanho da esfera, cuja consistência cada vez mais densa em contato com o solo seria como uma almofada, reduzindo a velocidade da queda. No final, assumiria suas dimensões compactas, normais, adquirindo a consistência sólida que em outras situações seria a proteção ideal contra algum tipo de agressão.

Mas a sincronia entre a compressão do campo expandido e a aproximação final do solo precisaria ser bem manipulada. No final da queda, readquirindo a consistência de um campo capaz de repelir frio, calor, descargas energéticas e objetos sólidos em alta velocidade, a pequena esfera estaria envolvendo o cientista em um raio de dois metros, impedindo que tocasse no chão. Neste momento, o campo já teria cumprido sua finalidade improvisada, podendo ser desativado.

O percurso da queda, antes do campo amplificado ter contato com o solo e agir como amortecedor, não oferecia perigo, apesar do intenso calor provocado pela entrada na atmosfera, graças ao atrito entre a massa atraída pela gravidade e as moléculas de oxigênio e outros gases atmosféricos presentes em sua trajetória. O traje espacial do cientista, além de boa parte de seu equipamento, era feito de ribélio com uma camada isolante interna de teomulida, protegendo-o totalmente contra as condições de atrito e temperatura do ambiente externo.

Esses pensamentos não duraram mais que alguns segundos, enquanto o cientista levava sua mão ao dispositivo que acionaria o campo de força protetor. Ele ainda não havia olhado para a sua cintura, onde estariam presos todos os instrumentos. Por isso, quando seu dedo tocou a tecla de ativação do campo e não aconteceu nada, o choque que levou ao finalmente dirigir seu olhar para a faixa de equipamentos foi indescritível. Pânico era um termo que não expressava suficientemente o estado de desespero que o dominou.

Tinha motivos de sobra para tanto.

No local onde antes ficava instalado o STEP, agora não havia absolutamente mais nada! E tanto o gerador de campo protetor, instalado à direita do STEP, quanto o gerador antigravitacional, localizado à esquerda, estavam obviamente incapacitados – já que, de ambos, só restava uma metade da peça. Não se viam mais as outras metades, antes encostadas ao também desaparecido STEP. A parte do traje sobre a qual haviam sido instalados estes equipamentos mostrava agora um remendo, certamente providenciado pelo sistema de reparo instantâneo da vestimenta espacial (que, no entanto não acionara o alarme de vazamento. Provavelmente o alarme de danos também fora avariado pelo choque sobreespacial).

Quando viu o remendo no traje espacial, o cientista subitamente tomou consciência de uma dor intensa na parte de seu corpo abaixo dele. Bom, seria mesmo de se esperar que um choque capaz de obliterar até mesmo algo feito de ribélio pudesse também ter causado um ferimento no vulnerável material orgânico logo abaixo. Provavelmente perdera um naco de carne da cintura. Mas não podia se preocupar com isso agora. Suas atuais chances de sobrevivência eram ridículas, e qualquer outra coisa perdia toda a importância frente a este fato aterradoramente real.

Todas estas considerações consumiram mais alguns preciosos instantes. Ele já começava a perceber detalhes geográficos da superfície de OXI-17.

Com dificuldade, obrigou sua mente cientifica a calcular uma forma de salvá-lo. Nunca havia sentido a morte tão próxima. Seu cérebro fez um esforço supremo para encontrar uma saída enquanto suas mãos há trabalhavam no equipamento do traje, avaliando os danos e possibilidades.

Sua vida sempre fora calma, tranqüila. Agora, tudo mudara. De repente, se via envolvido em situações que o obrigavam a sobrecarregar seu cérebro e suas emoções até os últimos limites. Em um prazo de poucas horas, agora pela segunda vez, estava sendo obrigado a conhecer e lidar com uma sensação completamente nova não apenas em sua vida, mas na da maioria absoluta de seus conterrâneos ao longo dos últimos milênios: o desespero máximo. Seus novos aprendizados eram à base de um tratamento de choque. Aprenda ou morra - e leve todo o Multiverso consigo.

No estado de nervosismo em que se encontrava, vendo sua vida tão perto de chegar ao fim, ele até se esqueceu da debilidade que atacava seu organismo faminto. Era como se novas reservas de energia saíssem de dentro de si, um último e secreto recurso despertado pelo perigo da situação. Sua mente, que antes do desastre estava embotada, confusa e lenta, agora parecia mais desperta e ágil do que nunca. Uma súbita – e talvez derradeira – onda de vitalidade invadiu seu corpo e mente.

Já conseguira elaborar mentalmente o único procedimento que poderia salvá-lo agora. A última esperança. Talvez – provavelmente, até – não funcionasse, mas não poderia deixar de ao menos tentar.

Ágil e focado como nunca antes, o cientista fez todas as ligações necessárias entre os equipamentos do traje, numa velocidade e precisão jamais experimentadas por ele. Nas metades que sobraram dos semidesaparecidos projetores de antigravidade e de campo protetor, felizmente estavam salvos e intactos os microrreatores que forneciam energia a esses dois aparelhos. Em poucos segundos, já percebendo a incandescência que estava surgindo ao redor do traje, fez uma ligação precária entre os dois microreatores e o equipamento propulsor.

Os jatos de propulsão do traje, que não haviam sido atingidos pelo choque sobreespacial, serviam para locomover o individuo submetido à ação do aparelho antigravitacional dentro do raio de atuação da força atrativa de algum astro. No espaço sideral, onde não havia força gravitacional, os jatos atuavam independentemente do antigravitador, impulsionando a pessoa na direção desejada. Os jatos, em número de três, eram cilindros de dez centímetros de diâmetro e trinta de comprimento, dispostos a distâncias iguais ao redor da cintura do traje e presos sobre um eixo móvel, que direcionava os bocais dos jatos de acordo com a vontade do operador. Dos três bocais eram expelidos feixes de partículas gerados por um único microrreator. Os bocais, para movimentar adequadamente o indivíduo, deviam ser apontados na direção oposta à desejada. Os feixes de partículas, então, impulsionariam o corpo sem ação da gravidade. Um método simples, um sistema até primitivo para os padrões da raça-cientista, embora, claro, perfeitamente eficaz dentro da situação a que se propunha ser necessário.

Sem o auxilio do antigravitador, estando o corpo submetido à gravidade de um planeta como OXI-17, contudo, os jatos tornavam-se inúteis. O microrreator que os alimentava não produzia energia suficiente para criar feixes de partículas fortes o bastante, que conseguissem vencer a atração gravitacional de um astro volumoso.

Era um ponto falho no equipamento, só agora notado, pois só agora se tornava relevante. A energia do microrreator era insuficiente para competir com uma força de atração superior a 0,3g. Não se fora cogitada a hipótese de pane no aparelho antigravitacional do traje.

Os jatos estavam agora com os bocais apontados na direção da superfície que se aproximava vertiginosa e inexoravelmente. A força gravitacional de OXI-17 era de 1g exato.

Sabendo que precisava conseguir na primeira tentativa, o cientista ligou os microrreatores dos aparelhos semidesaparecidos ao distribuidor de energia dos jatos. A energia destes dois microrreatores foi somada à do microrreator original do equipamento de propulsão. Como todos os microrreatores do traje eram do tipo padrão M-9, os dois adicionais, somados ao convencional dos jatos, produziam em conjunto energia suficiente para criar feixes de partículas capazes de vencer uma atração gravitacional de 0,9g, um décimo de g a menos do que a de OXI-17.

Os últimos ajustes foram angustiantes para o cientista. Ele já não tinha uma visão direta do equipamento, em função da incandescência que cercava o traje no choque da entrada na atmosfera em grande velocidade. Foi obrigado a completar a operação improvisada exclusivamente pelo tato, sabendo que não poderia falhar na primeira vez. Um erro e seria tarde demais para tentar novamente.

Quando completou o serviço, apenas seis quilômetros antes de chegar à superfície do planeta, ligou imediatamente a chave de ativação dos jatos. Percebeu, com enorme satisfação, a súbita vibração deles através do traje e o choque provocado pela frenagem repentina.

No último quilômetro a velocidade já estava reduzida a ponto de não poder lhe causar danos fatais no impacto. O choque com a superfície poderia ser evitado caso os três microreatores produzissem energia para anular ao menos 1g, porém, anulando 0,9g, isso era impossível, e o impacto inevitável. Mas a descida seria suficientemente retardada.

Enquanto percorria o quilômetro final, o cientista teve um segundo para desejar ardentemente que a superfície de OXI-17, especialmente no ponto de choque com a superfície, fosse bem macia. Sem campo de força protetor, poderia sair bem ferido dessa queda.

Mais tarde se arrependeu por ter desejado isso.

Alguma força cósmica pareceu ouvir seu pedido – e exagerou ao atendê-lo.

Chegou ao final da queda e, de modo um tanto brusco, estabeleceu contato com a superfície do planeta.Ainda teve tempo de reverenciar a memória dos Primeiros Cientistas pelo fato de estar e poder continuar vivo. Ao menos por enquanto.

Então perdeu os sentidos.

sábado, 21 de novembro de 2009

Post 000012

Quando seu suprimento contava com 120 horas de ar respirável, o cientista encontrou um planeta que parecia ser ideal. Dez mil quilômetros acima da superfície, ele preparou a sonda exploradora para enviar ao mundo, que batizou como OXI-8 (por se tratar do oitavo astro com oxigênio que visitava).

A sonda, que era uma esfera de 10 cm de diâmetro, foi enviada ao planeta para analisar a atmosfera, além de detectar os compostos minerais e eventuais formas de vida que ali existissem.

Ao retornar, a sonda confirmou as impressões visuais do cientista acerca da composição atmosférica do planeta azulado, trazendo-lhe uma análise satisfatória. A atmosfera era respirável, e havia vegetação rasteira cobrindo quase toda a superfície, onde também viviam animais de pequeno porte.

A sonda forneceu a distância exata entre o cientista em órbita e a superfície do planeta, considerando as coordenadas centrais do hemisfério visível, ou seja, o ponto do solo mais próximo dele. Assim, ele programou e ativou o STEP, materializando-se a poucos centímetros do solo. O método de executar um salto sobreespacial ao interior da esfera planetária sem o equipamento necessário para absorver o choque dimensional não era, de modo algum, recomendável - contendo certa taxa de risco ao próprio operador.

Porém, ele não tivera tempo de se preparar adequadamente antes do unitransporte, e não possuía o equipamento padrão das operações planetárias ao Microverso: uma espaçonave individual. – onde contaria com um recurso perfeito para a situação em que se via agora. Se não quisesse pousar diretamente com o veículo na superfície do mundo, teria ainda a sua disposição um transmissor OLEV de matéria – o meio-termo entre um STE e um sistema de cabines teleportadoras.

O transmissor OLEV, que também realizava um teletransporte através da 5ª dimensão, era equipado para absorver o eco dimensional resultante da ruptura da barreira espaço-tempo, mas não possuía a comodidade e segurança de um terminal receptor. Transmitia a carga para quaisquer coordenadas espaciais tridimensionais previamente determinadas. Assim como as cabines, ele absorvia os ecos dimensionais do teleporte – já o STEP, não. A aparelhagem necessária para a absorção do choque de ruptura era complexa e mais volumosa do que alguém seria capaz de levar por ai preso ao traje espacial.

Até agora, não havia arriscado a perigosa manobra de chegar à superfície de algum astro com o auxilio do STEP - a sonda o havia precavido antecipadamente das condições desfavoráveis dos planetas OXI-1 a OXI-7. Mas OXI-8 parecia corresponder a todas as suas necessidades. Ou quase todas.

Pisando sobre o tapete verde de vegetação do planeta, o cientista pegou algumas frutas exóticas entre os dedos. Eram macias e pareciam nutritivas. Colocou uma no analisador do seu traje.

A composição química era boa e o fruto continha muitos nutrientes. Porém o aparelho acionou um alarme, pois detectara entre os componentes uma bactéria mortal para o organismo do cientista.

Nada de mais, claro. Havia uma infinidade de espécimes vegetais naquele planeta, e alguns deles certamente deveriam ser adequados ao seu metabolismo.

Contudo, depois de horas analisando centenas de frutas, legumes, raízes e até folhas das mais variadas espécies, o cientista enfim desistiu. Toda a vegetação do planeta parecia estar contaminada por aquela bactéria.

Decepcionado, resolveu analisar alguns ovos de animais que encontrou. O resultado, naturalmente, foi o mesmo. Os animais nativos alimentavam-se da vegetação e, conseqüentemente, das bactérias que ela continha. Examinou então uma amostra do solo e descobriu uma porcentagem incrível desses microorganismos nocivos ao seu metabolismo. Parecia que a vida em OXI-8 era fundamentada nessas bactérias. Provavelmente, um hipotético e repentino desaparecimento daquela forma de vida em particular acabaria por exterminar todo o ecossistema do planeta.

Mas uma coisa ainda intrigava o cientista. Se o solo do planeta era infestado de bactérias, então por que a sonda indicara uma atmosfera prefeita para o seu organismo?

Decidiu analisar o ar ao seu redor e os instrumentos não registraram uma única bactéria. Então era isso!

Os microorganismos parasitas não sobreviviam ao ar livre. Viviam exclusivamente no solo e nos vegetais, alimentando-se de materiais orgânicos ou minerais. O ciclo de vida em OXI-8 limitava-se ao espaço dentro da faixa de um metro acima do solo. Ultrapassada essa faixa, existiam apenas os gases que compunham a atmosfera do planeta - nada de plantas, insetos ou microorganismos. Devido às características dos movimentos de rotação e translação do planeta, nele não surgiam correntes de ar capazes de movimentar e estender esta ridícula faixa vital. OXI-8 era um mundo muito jovem e, aparentemente, sem grandes expectativas em matéria de evolução. A vida nele parecia estar condenada a durar pouco tempo, até que as bactérias de proliferassem a ponto de consumir e esgotar todo o alimento disponível. Quando não tivessem mais do que se alimentar, tornando a face do planeta totalmente estéril, finalmente morreriam, deixando OXI-8 desprovido de formas de vida.

A natureza falhara - pensou o cientista - ao criar naquele mundo uma bactéria parasita sem inimigos naturais.

Não, não falhara.

A natureza nunca falhava. Seria um sacrilégio cientifico afirmar o contrário. Quando ela criou um mundo em que a vida duraria pouco tempo, deve ter tido suas razões dentro de um contexto maior. Se esse mundo existia, era porque possuía uma determinada função dentro do Multiverso.

Tudo tinha sua razão de ser. Mesmo que fosse apenas para decepcionar um cientista em busca de alimentos.

O cientista obrigou sua mente a abandonar os devaneios metafísicos. Não era um bom momento para divagar sobre suas tendências ao Gasagismo – corrente iniciada pelo cientista Gasag eras atrás, e que defendia a inexistência do acaso no Cosmo. Algo que, por sua vez, automaticamente pressupunha a existência de uma vasta inteligência central orquestrando tudo.

Mas agora, mais do que nunca, o tempo urgia. De volta à ação!

Ele encheu seus tubos de oxigênios vazios com o ar do planeta. O problema das reservas de ar respirável estava temporariamente resolvido, contando novamente com 300 horas de uso constante.

O que era dez vezes mais do que durariam suas atuais reservas alimentares.

Continuava incessantemente as consumindo, mesmo o que o ejetor de dejetos orgânicos do traje fosse acionado apenas, em média, a cada sete ou oito horas. Afinal, era um sistema de emergência, de uso apenas eventual. Supunha-se, claro, que um explorador espacial do povo cientista nunca precisaria ficar tanto tempo atuando em condições tão desfavoráveis quanto aquelas. Imaginava-se que sempre disporiam dos confortos de uma nave e o traje espacial seria utilizado em raras e curtas circunstâncias.

Agora, a questão era que, se o analista aventureiro não encontrasse logo um mundo que lhe fornecesse alimentos adequados, não chegaria a gastar um sexto de sua atual reserva de ar.

Um morto, afinal, não respira.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Post 000011

Quando, subitamente, viu-se em meio a uma escuridão completa, o cientista acendeu as luzes externas do traje e olhou para o cronômetro.

No momento do unitransporte, a contagem inicial fora interrompida, registrando 3 minutos 47 segundos e 99 centésimos.

Apenas dois centésimos de segundo antes do Juízo Final.

Caso esses dois centésimos houvessem transcorrido antes do unitransporte, seria impossível restabelecer o equilíbrio entre os dois universos sequenciais.

Agora, precisava substituir a remessa anterior do CTI, voltando a seu universo de origem com uma carga bem maior do que carregava no momento.

Assim, após esgotados os 3:48:01 minutos do prazo de eficácia da imitação energética que o CTI retirara do Microverso, esta matéria “roubada” manteria perpetuamente o equilíbrio comprometido. Não importaria o que acontecesse com ela depois, sua função já estaria cumprida – afinal, nada se perde, tudo se transforma. O que importava ali era o local onde esta transformação ocorreria.

O cientista obrigatoriamente deveria retirar do Microverso a quantidade de matéria orgânica viva equivalente ao conterrâneo desaparecido, somada à quantidade de matéria inorgânica sem vida e energia que o fugitivo carregava, equivalente a seus equipamentos.

Isso tudo, naturalmente, teria que acontecer antes que transcorressem os dois centésimos de segundo que faltavam em seu universo original, o que equivalia a pouco mais de um ano e um mês no Microverso. Esse era todo o tempo de que dispunha o cientista para cumprir sua tarefa.

Após este prazo, o equilíbrio entre os universos não mais poderia ser restabelecido, o que quer que se fizesse depois. A carga energética que substituía a matéria unitransportada entraria em colapso e uma nova matéria enviada no sentido inverso seria considerada pelo Cosmos com uma anomalia inteiramente nova, que também precisaria ser eventualmente compensada. Mas isto já não teria importância, não faria diferença. No exato momento do colapso anterior seria disparada, a partir dos dois universos envolvidos, uma espécie de onda de choque que avançaria nível após nível, como um câncer se alastrando pela infindável sequência de universos - em tese, iniciando um processo que faria suas estruturas ruírem em cascata, uma após a outra.

Obviamente, estes eram resultados teóricos que seu povo não fazia a menor questão em testar e comprovar na prática, a despeito de sua inerente ânsia em conhecer a fundo cada detalhe das engrenagens que faziam o Todo funcionar. De nada adiantaria submeter o que fora postulado a uma verificação real... e não sobrar alguém vivo para colher os resultados depois. Em casos assim, o melhor era confiar nos cálculos minuciosa e exaustivamente realizados. Apoiar-se no vasto e profundo conhecimento que detinham sobre as leis do Cosmo, por constituírem uma raça que nascera para a ciência, com currículo há milênios impecável.

Pouco mais de um ano um mês.

Esse era o intervalo de que dispunha o cientista para salvar o Multiverso.

Esse era o todo o tempo que poderia usar para encontrar as matérias que precisavam ser levadas ao seu universo de origem, salvando o Multiverso da destruição total. Era seu prazo limite para evitar que tudo deixasse de existir como era conhecido. Enfim, era a divisa que agora guiava as ações daquele despretensioso, porém destemido, cientista analítico do Instituto Científico.

Ele olhou para a nova contagem em seu cronômetro, iniciada assim que fora unitransportado. Já haviam se passado mais de dez minutos desde a sua chegada, desde o inicio de sua viagem não programada ao Microverso. Estava agora em missão vital e precisava começar a agir. Continuaria meditando quando pudesse.

Pareceu a ele que estava neste momento em pleno espaço entre constelações, um extenso vazio distante das aglomerações de estrelas mais próximas. Podia ver ao longe alguns pontos ofuscantes e irregulares. Eram as constelações daquela galáxia do Microverso, que, em seu universo de origem, o cientista sabia serem moléculas ou grupos de moléculas do objeto que estava no interior do compartimento de projeção do CTI.

Ele nunca havia sido unitransportado antes, e tampouco realizara longas viagens estelares em seu universo. Por isso, não possuía qualquer experiência em espaçonáutica. Mas, como qualquer um de sua raça, conhecia relativamente bem toda a parte teórica da coisa.

Confirmou as impressões visuais com os limitados sensores do traje - que ainda não conseguiam medir a distância exata até a estrela mais próxima, sinal inequívoco de que estava em uma região relativamente vazia daquela galáxia. Assim, ajustou o gerador STEP (equipamento de Salto Sobreespacial Portátil), que era parte primordial de seu equipamento espacial, para que realizasse um deslocamento em direção à constelação mais próxima.

O STEF (Saltador Sobreespacial Fixo, que em naves espaciais era bem maior devido à maior quantidade de massa que deveria “carregar”) era um aparelho que movimentava uma porção de matéria sem a mínima perda de tempo e por enormes distâncias, através da Quinta Dimensão (mais conhecida como Sobreespaço). Quando ativado, o STEF “perfurava” a barreira dimensional entre o espaço-tempo normal (Quarta Dimensão) e o Sobreespaço, onde o fator tempo não existia. Com a manipulação da própria energia sobreespacial que o STEF usava como combustível, a matéria que ele era encarregado de deslocar conseguia sustentar-se no ambiente estranho, penetrando através da fenda criada e saindo instantaneamente por outro rombo na parede dimensional – este, criado no ponto de destino de volta à Quarta Dimensão, previamente determinado pelo operador. Era como se o objeto fosse removido de um ponto do espaço normal e retornasse em outro, subvertendo e desprezando os fatores distância e tempo.

Assim como no sistema de cabines teleportadoras no planeta natal dos cientistas, o STEF constituía-se de um método de transporte instantâneo - mas não poderia ser acionado no interior da esfera gravitacional de um planeta. As fendas abertas no espaço-tempo através dele, ao cooptar maiores doses de energia que permitiam vencer distâncias astronômicas, geravam ondas que seriam prejudiciais aos fluxos de energia naturais e artificiais de uma região. Nas imediações de um astro - e próximo a uma civilização avançada - isto seria desastroso. Já o sistema de cabines, embora se valesse de princípios idênticos aos STE’s, não permitia que os choques dimensionais se propagassem. Eles eram criados, contidos e camuflados no interior das cabines especialmente projetadas. Algo que, por sua vez, limitava o alcance do equipamento.

O uso dos STE’s era proibitivo dentro de uma esfera planetária ainda por outras razões. Tratava-se de um método impreciso, só aconselhável para cobrir distâncias espaciais, sempre com margem de erro de alguns segundos-luz. Isso porque o operador muitas vezes não tinha como visualizar ou conhecer propriamente um ponto exato de destino. Apenas definia a distância, muitas vezes estipulando o salto na base do palpite, de acordo com dados dos sensores de longa distância e seu próprio senso de avaliação.

De qualquer forma, o sistema STE era o mais rápido e eficiente meio conhecido de realizar viagens interestelares ou até intergalácticas. E para utilizá-lo, não importava em que universo se estivesse, pois cada nível do Multiverso possuía as mesmas regras cósmicas, a mesma base da física, as mesmas conexões com todas as demais dimensões.

Quando a breve contagem regressiva do aparelho terminou, o salto foi realizado.

O cientista olhou em direção à constelação de destino. Não parecia estar mais perto, e de qualquer forma a distância ainda era grande demais para que seus limitados sensores portáteis pudessem medir adequadamente.

Ou seja, o salto fora muito curto.

Realizou outro deslocamento, desta vez ajustando o STEP para uma distância dez vezes maior.

Agora sim, já se notava uma ligeira aproximação.

Conforme ia saltando e avançando em direção a seu objetivo imediato, o cientista acostumava-se com o processo, tanto na sensação imediata de locomover-se a tal “velocidade” como no manejo adequado e seguro do STEP.

Quando finalmente chegou na constelação desejada, enfim se tornou um especialista em determinar as distâncias dos saltos entre a posição em que se encontrava e um ponto especifico escolhido no espaço, mais freqüentemente composto de uma estrela-alvo qualquer. Com a perícia inerente a sua raça, dominou rapidamente a técnica de conjugar dados dos sensores com avaliação visual, para se deslocar através de uma região espacial desconhecida da melhor forma possível.

Então resolveu começar logo a procurar um planeta adequado para a realização de sua tarefa principal. Sua reserva de oxigênio contava com pouco mais de 194 horas de ar respirável, e suas rações alimentares já estavam reduzidas à metade.

Saltando de um sistema solar a outro, procurava um mundo de oxigênio apropriado a sanar uma dupla - e vital - função: suprir sua necessidade de renovar os suprimentos para sua própria sobrevivência e obter os materiais que deveriam ser enviados a seu universo de origem dentro de 13 meses.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Post 000010

2ª PARTE: PROVIDÊNCIAS

Quando estava prestes a abaixar a chave-mestra de desativação do CTI, o cientista-analítico viu na tela do computador que aquilo já não adiantava mais. Endereçou um rápido olhar para a plataforma de atuação.

Vazia.

Então ele voltou-se novamente para o painel e acionou o sistema de retorno.

Mas nada aconteceu!

Assustado, verificou no computador o que havia de errado e foi tomado por um pânico instantâneo. No auge da incredulidade, descobriu que o sistema de rastreamento fora desativado. Pior ainda, o ponto de destino havia simplesmente sido apagado da memória do computador!

Perdeu valiosíssimos segundos em sua perplexidade.

Era inacreditável, aterrador! Aquele maluco não sabia que com isso colocava em risco a existência de todo o Multiverso? Essa atitude poderia fazer com que ele próprio, juntamente com todos os universos, deixasse de existir! Ele não apenas se condenara como condenara consigo o Multiverso inteiro!

A não ser que alguém tomasse uma providência.

Antes que fosse tarde demais, o que aconteceria em no máximo alguns minutos!

O modesto analista de dados, que naquela manhã chegara ao Instituto contando com um plantão calmo e sem surpresas, começou a correr contra o relógio como jamais fizera antes em sua longa vida. Não podia perder tempo. Agora tudo dependeria apenas dele e de sua rapidez.

Tudo, literalmente.

_________________________________________________________

O cientista iniciou o que seria a missão de sua vida. Sem parar de trabalhar no computador, olhou para o mostrador do CTI e viu que 11 segundos já haviam transcorrido do unitransporte realizado. O computador forneceu os primeiros dados: considerando a massa unitransportada e a natureza da matéria utilizada como meio de penetração no Microverso (ele não sabia de que matéria se tratava e nem pesou em perder tempo indagando isso ao computador), o simulacro energético retirado do ponto de destino levaria três minutos, quarenta e oito segundos e um centésimo para entrar em colapso, contados a partir do momento em que o unitransporte fora realizado. Se a quantidade de matéria enviada fosse grande (como uma pequena espaçonave, por exemplo), o prazo de estabilidade seria muito menor. Ainda bem que não era esse o caso.

De qualquer forma, não haveria tempo para retirar de dentro do compartimento de projeção a matéria utilizada como meio de entrada no Microverso (qualquer que ela fosse), localizar um laboratório onde houvesse algum equipamento de desintegração disponível, chegar com o objeto ao local e conseguir acesso para utilizá-lo. O procedimento de destruição seria uma das duas únicas opções ainda viáveis para evitar o desastre iminente. A outra, claro, seria a reposição da carga enviada. Para isto, seria preciso ir ao encalço do insano fugitivo e trazê-lo de volta com toda a carga que levara (algo inviável, dada a aparente impossibilidade de rastreá-lo e localizá-lo dentro de toda uma galáxia desconhecida e sem qualquer ponto de referência). Então, só lhe restava um caminho: o de improvisar, “seqüestrando” do Microverso de destino uma porção de matéria exatamente equivalente ao lote enviado, tanto em tipo quanto em quantidade, levando-a em definitivo para o universo do povo cientista.

Olhou para o mostrador de tempo: 20 segundos já haviam se passado.

O computador não cessava de fornecer as informações solicitadas pelo cientista, que não podia se dar ao luxo de ficar refletindo sobre elas. Seus dedos corriam sem interrupção sobre as teclas. Ele mal conseguia memorizar os dados recebidos, antes que a tela fornecesse outros novos.

A máquina expeliu de uma fenda a lista que continha a quantidade exata de matéria orgânica viva, matéria mineral sem vida e energia que havia sido transportada ao Microverso. O cientista apanhou o cartão com a lista e o colocou em um bolso, sem parar de trabalhar no teclado.

Programou o CTI para realizar o próximo unitransporte sobre um ponto qualquer da matéria que estava no compartimento de projeção, assim que alguém pisasse sobre a plataforma de atuação. Não se esqueceu de também reativar o sistema rastreador do computador.

Pegou um cronômetro especial e o acertou com o mostrador do computador no instante em que este indicava 47 segundos exatos transcorridos desde o último unitransporte realizado, além de ajustá-lo para interromper a contagem e iniciar uma nova assim que ele próprio fosse unitransportado.

Saiu correndo em direção aos armários. Em tempo recorde, vestiu o traje espacial e abasteceu-se de oxigênio e alimentos o melhor que as circunstâncias permitiram. Também pegou o aparelho sinalizador de retorno, que, quando ativado, transmitiria o comando para que o CTI o trouxesse de volta do Microverso.

Enquanto corria, agora em direção à plataforma de atuação, olhou novamente em seu cronômetro.

3 minutos e 42 segundos.

Equipar-se adequadamente para a operação consumira um tempo precioso. Desesperado, o cientista deu um salto incrível e caiu sobre a plataforma.

3 minutos e 45 segundos,

Seguindo a programação de emergência que o cientista havia previamente introduzido no computador, o CTI ativou o campo energético da plataforma e sugou as micromatérias da área no mínimo tempo possível.

Então o novo unitransporte foi realizado.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Post 000009

Honoh imediatamente localizou um indivíduo sentado em frente ao computador CTI, que estava funcionando naquele momento. O encosto especial do banco impedia que o indivíduo pudesse vê-lo.

Aproximou-se do outro sorrateiramente, protegido pelo encosto da poltrona, e lhe aplicou um forte golpe em sua parte mais sensível. O ataque fez o indivíduo perder imediatamente os sentidos.

Como já estava na etapa final de seus planos, não precisaria se preocupar em fazer algo permanente – ou seja, matar. Quando o outro se recobrasse, ele pretendia já estar muito, muito longe dali.

Seria este gesto um resquício do temperamento sensível de sua raça, ainda arraigado em seu subconsciente? Mesmo sendo agora uma morte desnecessária – ao contrário do que ocorrera em seu primeiro ataque, onde a vítima teria tempo de acordar e denunciá-lo - o cuidado em não tirar a vida quando isto se tornou uma opção válida o aborreceu. Queria ter a consciência de haver se desvencilhado totalmente de todos os antigos pudores, pois ainda teria muito trabalho duro pela frente ao longo de seus próximos milênios de vida. Mas agora não podia deter-se em reflexões sobre esta questão, perdendo tempo valioso. Precisava de absoluta concentração nos próximos passos.

O renegado precisava agir rápido antes que o cientista acordasse ou outros o descobrissem naquele local.

Encontrou e apertou no painel do computador a tecla de retorno do CTI. Com isto, repentinamente um outro indivíduo materializou-se sobre a plataforma de atuação da máquina.

Em vista de seu regresso abrupto e imprevisto, o cientista mostrava-se muito confuso e Honoh soube se aproveitar disso para pegá-lo desprevenido. Correu até a plataforma e lançou-se sobre o outro, desferindo um potente golpe endereçado à parte mais sensível dos indivíduos de sua raça, ou seja, no espaço localizado entre a borda inferior da boca circular e um dos braços.

Todavia, mesmo pego de surpresa, o adversário ainda conseguiu, por puro instinto, se desviar ligeiramente. Assim, o golpe de Honoh atingiu apenas seu antebraço. Apesar de não ter obtido o efeito desejado, a investida do rebelde serviu para deixar paralisado um dos três braços do cientista.

O povo dos cientistas não conhecia a violência, não sabia agir dentro deste tipo de circunstância. Por isso, somente alguém com as motivações de Honoh seria capaz de enfrentar adequadamente uma luta corpo-a-corpo. Os membros de sua raça não dominavam quaisquer princípios de ataque e muito menos de defesa corporal.

Com a vantagem de um braço a mais, foi fácil para o criminoso decidir a luta a seu favor. O outro posicionou o braço imobilizado à sua frente - no meio do corpo, em relação ao adversário. Assim os dois braços ilesos, um de cada lado do que estava ferido, poderiam defender a área sensível localizada sobre o membro agora imóvel. Mas ele continuava com a desvantagem de ter apenas dois braços para defender três pontos fracos.

Honoh também posicionou um dos braços bem no meio do corpo em relação ao adversário, frontalmente ao braço ferido deste. Quando simulou um ataque com os outros dois braços, posicionados lateralmente, contra as áreas sensíveis sobre os dois braços ilesos do outro, o oponente não teve alternativa. Defendeu as duas áreas visadas, obrigando que os dois braços sãos deixassem de proteger o braço paralisado, para interceptarem os dois ataques simultâneos. Com essa manobra, o terceiro braço de Honoh, bem de frente ao braço ferido do outro, ficou livre para investir contra a parte sensível acima do mesmo , agora desprotegida, atingindo-a fortemente com os dedos.

Seu adversário perdeu a consciência e caiu pesadamente sobre o solo.

Honoh o arrastou para fora da plataforma de projeção do CTI. Agora não tinha tempo a perder.

Em todo o planeta, não existiam quaisquer sistemas de defesa para proteger as instalações importantes. Os seres do povo cientista desconheciam os conceitos de invasão ou vandalismo, por serem de uma raça totalmente inocente e de alta integridade moral. Por isso, nunca chegaram a imaginar a necessidade de conceber um sistema de alarme que defendesse suas instalações. Tal idéia era realmente inconcebível.

Deste modo, Honoh sentia-se tranqüilo e seguro, a despeito do ataque desferido contra dois cientistas em serviço dentro de um importante laboratório do Instituto Científico. A única coisa que o preocupava agora era a possibilidade da chegada inesperada de alguém ao recinto. Isso justificava sua pressa – além, claro, da alta dose de pura ansiedade em concluir o plano-mestre.

Também não se poderia desconsiderar, claro, a possibilidade de alguma das pessoas com quem ele havia interagido nas últimas horas reconhecê-lo, mesmo que tardiamente. Com a descoberta de sua fuga, seria possível refazerem seus passos até aquele local e capturarem-no em tempo. Algo assim podia estar se desenrolando naquele exato momento.

O delinqüente apanhou sua maleta, deixada ao lado da cabine de teleporte, e foi até um bloco metálico com painéis de controle, encostado à parede. Nele, abriu uma portinhola onde existiam as inscrições: "Compartimento de Projeção".

Naquele momento, no interior do compartimento de projeção do CTI, havia um fragmento rochoso, que estivera servindo como passagem ao Microverso quando Honoh ali chegara. Era ao interior dessa porção de matéria que havia sido enviado (e trazido abruptamente de volta) o cientista com o qual o rebelde havia lutado.

Honoh substituiu a pedra pelo que havia na maleta e fechou a portinhola.

Encaminhou-se novamente ao computador do CTI e, utilizando o manual que ganhara do encarregado morto por ele, selecionou um agrupamento molecular - ou uma galáxia, dependendo do ponto de vista - na porção de matéria que acabara de colocar no compartimento de projeção. Aquela galáxia seria agora o novo ponto de destino de quem fosse unitransportado pelo CTI.

Depois de ajustar corretamente o local escolhido, Honoh programou o computador para apagá-lo de sua memória assim que o próximo unitransporte fosse concluído. Também desativou o sistema que monitorava a matéria transportada pela máquina. O dispositivo permitia ao computador manter contato com o enviado e seus equipamentos, acompanhando seus movimentos e podendo trazê-lo de volta a qualquer instante. Dessa forma, desligando-o, o renegado conseguiria a liberdade definitiva. Agora, depois do unitransporte, ninguém mais poderia rastreá-lo e encontrá-lo no Microverso.

Por fim, Honoh programou o computador para que o CTI realizasse um unitransporte dentro de dez minutos.

Dirigiu-se a um armário e retirou dele um traje espacial, além de suprimento de ar e alimentos para mil e trezentas horas. Vestiu o traje e guardou os suprimentos em uma bolsa especial, bem amarrada ao traje. Então, encaminhou-se para a plataforma de atuação do CTI.

O traje espacial, os suprimentos de ar e os mantimentos seriam necessários caso a máquina o transportasse para o espaço sideral do Microverso. Eles garantiriam sua sobrevivência até que os fantásticos equipamentos do traje o levassem a um mundo com oxigênio respirável.

Além disso, quando subisse na plataforma de atuação do CTI, um campo energético seria ativado ao redor dela, isolando-a totalmente do ambiente do laboratório. Depois, toda e qualquer micromatéria, inclusive o oxigênio, seria sugada da área de atuação do CTI, sobre a plataforma. Assim, toda pessoa enviada ao Microverso sem estar dentro de uma nave espacial forçosamente teria que vestir um traje especial e suprimentos de ar e alimentos. O traje e o ar já seriam necessários antes mesmo de realizado o unitransporte.

Honoh sorriu ao se lembrar de que ele fora o primeiro ser a realizar este processo de preparação e o primeiro a ser transportado pelo CTI.

Agora, seria o primeiro, e provavelmente o único a jamais regressar de um unitransporte interuniversal.

Subiu na plataforma de atuação e foi cercado pelo campo energético.

Olhou para o mostrador em seu pulso e viu que restava apenas meio minuto antes do unitransporte fatídico, do qual não haveria mais retorno. Começou a acompanhar febrilmente a passagem dos segundos quando algo imprevisto ocorreu.

O cientista-analítico que Honoh abatera em primeiro lugar começou a recobrar os sentidos. Com dificuldade, se levantou e viu no chão o companheiro, que deveria ainda estar explorando o microverso rochoso. Seu parceiro estava caído perto da plataforma de atuação, que agora encontrava-se cercada pelo campo energético indicativo de um unitransporte iminente.

Então, o outro olhou em direção à plataforma - em sua direção - vendo-o de pé sobre a área de atuação do CTI através do campo de energia. Deve ter julgado, acertadamente, ser aquele o seu agressor - pois correu de imediato até o computador para tentar impedir que o CTI efetuasse o unitransporte.

Observando o cientista-analítico alcançar o computador, Honoh, preocupado, olhou para o seu mostrador de tempo. Sorriu, então, satisfeito e aliviado.

Tarde demais!

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Subitamente, Honoh viu-se pairando em pleno espaço sideral.

Seu plano havia resultado em êxito total! Nada mais poderia trazê-lo de volta a seu próprio universo. Seu agora odioso universo de origem.

Caso a porção de matéria no compartimento de projeção, para onde o CTI o unitransportara, fosse um objeto sem vida ou mesmo uma criatura inferior qualquer, os outros ainda teriam uma forma de reverter o processo, realizando a troca entre a carga energética de imitação retirada do Microverso e a matéria enviada ao mesmo, que era ele e sua bagagem.

Para isso bastaria que eles destruíssem a estrutura atômica dessa porção de matéria. Automaticamente, o unitransporte seria desfeito.

Acontece que não era esse o caso.

A porção de matéria não era um objeto sem vida ou uma criatura inferior, sem inteligência.

Seus conterrâneos jamais se atreveriam a destruí-la – a não ser que fosse, talvez, por um motivo muito mais forte do que simplesmente ir ao encalço de um ex-exilado que, no final das contas, estava agora novamente exilado, e da forma mais definitiva possível. Talvez, se algo absurdo estivesse em jogo... o fim do mundo ou coisa do gênero... eles cogitassem desintegrar aquela porção de matéria. Mas, claro, “absurdo” era a palavra mandatória nesta idéia, já que Honoh, como um dos primeiros especialistas em unitransporte, confiava plenamente na segurança do processo.

De qualquer forma, no tempo que eles levariam para deliberar a respeito, decidir e efetuar a desintegração, já teriam se transcorrido no microverso alguns dos milhares de anos de vida que restavam a Honoh. Haveria muito tempo para ele planejar e agir à vontade no novo e inexplorado ambiente, realizando os incríveis projetos que lhe povoavam a mente e escapando definitivamente do alcance das garras de seus conterrâneos, a despeito de qualquer ação que eles viessem a adotar.

Agora, ele não tinha a menor pressa. O tempo estava definitivamente a seu favor.


terça-feira, 20 de outubro de 2009

Post 000008

- O código do laboratório do CTI? – repetiu o cientista, olhando para o símbolo desenhado no traje do interlocutor – Mas você não é do Departamento de Genética?

- Sou sim – respondeu Honoh – mas acontece que um amigo meu trabalha aqui com o CTI, e essa entrega para ele é urgente. Ele deve estar lá agora.

- E por que não enviaram um robô-entregador para fazer isso?

- É um assunto delicado e particular. Eu preciso falar pessoalmente com ele.

- Essa aí é a entrega urgente? - perguntou o cientista, apontando para a maleta que o outro segurava.

- É sim – confirmou Honoh – está aqui dentro. E o código?

- Ah, sim. Desculpe – disse o cientista que Honoh havia interpelado, fornecendo-lhe enfim o código do laboratório onde estava instalado o CTI – Neste momento só há duas pessoas trabalhando lá. Uma delas deve ser a que você quer encontrar. Acho que estão realizando os testes finais na máquina, antes do desmonte.

- Obrigado, colega.

- Por nada, colega.

Honoh afastou-se do outro, tomando a direção da cabine interna mais próxima.

“Testes finais antes do desmonte?”. O comentário deixou o renegado um pouco espantado, mas não se atreveu a perguntar de que se tratava. Não seria conveniente agora, tão próximo do sucesso completo de seu plano-mestre, assumir qualquer espécie de risco, por mínimo que fosse. Da forma com que falara, seu interlocutor dera a impressão de se tratar de um assunto sobre o qual todos estariam mais do que cientes. Provavelmente planejava-se a transferência daquele CTI para outro local, talvez até para outra cidade (se isto representasse a inauguração de uma laboratório novo naquele prédio, em lugar do antigo, era natural se esperar que todos os membros do instituto na cidade estivessem a par do caso, acompanhando-o com interesse).

Honoh chegou à cabine interna amarela, entrou e digitou o código recém adquirido.

O único indício de que o teleporte havia ocorrido foi uma luz azulada que por um breve instante substitui a iluminação interna da cabine fechada. Mas aquela luz azulada não era emitida no interior da cabine onde entrara o indivíduo. Era a iluminação projetada após uma recepção, ou seja, o indivíduo já se encontrava em outra cabine, a receptora dona do código digitado na primeira.

Honoh abriu a porta e saiu da cabine instalada no laboratório em que se encontrava seu objetivo final.

Um Conversor de Transporte Interuniversal.


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Ele estava monitorando o computador da máquina.

Isso, agora, era obrigatório – e aquela era uma experiência classificada como altamente perigosa. Uma experiência para a qual só poderia ser incumbido um dos melhores elementos, um dos operativos cientistas mais qualificados do Instituto.

Não havia mais pessoas no laboratório. Ele precisava dedicar sua total atenção às indicações do computador e não necessitava de qualquer auxílio – e muito menos da ocasional e involuntária distração proporcionada pela presença de outra pessoa.

O banco onde ele estava sentado fora equipado com uma espécie de encosto alto, para impedir que a chegada de alguém no recinto o distraísse ou incomodasse. Aquilo impedia que sua visão global abrangesse o resto da sala, além do painel do computador. Ninguém suspeitava que justamente esta medida, ao invés de ajudar, traria a desgraça.

Quem recearia a inesperada e completamente improvável ação de um criminoso? A própria noção de “crime” era desconhecida no planeta Ro.

Até alguns segundos atrás, houvera um outro indivíduo com ele no laboratório. Agora este outro já se encontrava no interior de um átomo, átomo este que estava no interior de uma molécula, que por sua vez estava no interior de uma pedra que fora depositada no interior do compartimento de projeção da máquina.

Cabia a ele evitar que um eventual imprevisto impedisse o enviado de retornar dentro do prazo combinado e programado no computador da máquina, previamente estipulado em metade do prazo de estabilidade da imitação energética. Era uma dupla medida de segurança.

Esta era uma das últimas experiências permitidas, atendendo ao apelo de uma facção de cientistas interessados em completar os registros iniciais referentes ao processo como um todo.

Contudo, esta sua atual obrigação - por sinal de enorme responsabilidade - não chegava nem aos pés da que lhe estava destinada para um futuro próximo. Como poderia suspeitar o quanto aquela tarefa simples, embora vital, se complicaria?

Naquele momento, aquele cientista cônscio de seus deveres estava absolutamente longe de desconfiar até que ponto tais deveres chegariam. Algo certamente além de sua atual capacidade de fantasiar. Imaginava que não teria muito mais ação além de simplesmente observar os monitores, mas não poderia estar mais enganado...

Ele jamais teria adivinhado a tarefa que o Destino lhe reservara.

Mas, afinal, quem poderia ter previsto a inacreditável crise que estava por vir?

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Post 000007



O cientista-analítico que monitorava o computador do CTI estava aborrecido. Particularmente, ele achava aquele serviço uma perda de tempo, sem qualquer utilidade prática. Travava-se, pura e simplesmente, de acompanhar o funcionamento da máquina e analisar suas reações durante o unitransporte.

Por que ele ainda precisava ficar de olho nos indicadores? Não havia mais motivos para isso. Todas as reações e processos que ocorriam quando alguém permanecia no Microverso já eram conhecidos, estavam extensivamente analisados e registrados.

Não existia mais qualquer perigo, todos os fatores de compensação interuniversal já estavam mapeados e eram meticulosamente conhecidos. O equipamento transportava alguém para o Microverso e mantinha uma carga de energia equivalente em seu lugar, extraída do local de destino – evitando, assim, um desequilíbrio energético entre os universos. Quando o enviado retornava, o CTI desfazia a carga energética, até então estabilizada em compartimentos especiais nas entranhas da máquina. Ambos os procedimentos precisavam ser absolutamente simultâneos, claro, para manter a integridade entre os dois níveis universais.

O processo era seguro. A carga energética era retirada do Microverso no mesmo instante em que se realizava a emissão do indivíduo e da nave ou qualquer equipamento que este porventura levasse consigo. A energia retirada do Microverso equivalia exatamente à representada pela matéria enviada através do CTI. Quando a massa retornava ao seu universo, imediatamente a carga energética retornava ao Microverso.

Esta era um processo perfeito e exaustivamente estudado. Até agora nada de anormal fora registrado.

O Cientista-Chefe do Instituto (antes cientista-chefe apenas do projeto CTI, agora promovido graças ao sucesso obtido) porém, exigira que durante aquele específico unitransporte houvesse um cientista-analítico monitorando o computador. Questão adicional de segurança, já que desta vez o enviado permaneceria durante muito mais tempo no Microverso. Poderia acontecer algo inédito durante a experiência. O enviado permaneceria por quase 5.700 anos no Microverso, ou seja, quase três minutos no tempo normal do universo (TNU).

A última remessa já estava há meio minuto TNU no Microverso, e até agora nada de especial fora constatado. Foi quando, após exatos 36 segundos transcorridos, algo no monitor do computador chamou a atenção do analítico.

“Pelos primeiros cientistas” – pensou ele, assustado – “Isso não pode ser verdade! Não pode!”

Seus dedos treinados correram rapidamente sobre as teclas no painel do console do computador, solicitando uma análise equidinamofásica imediata.

Quarenta e um segundos e trinta e nove centésimos.

O computador colocou a análise na tela e o cientista não quis acreditar no que viu. Tinha que tomar uma providência imediata.

Quarenta e oito segundos, setecentos e sessenta e dois milésimos.

Não podia permitir que a marca de cinqüenta segundos e doze milésimos fosse atingida. Tudo dependia dele agora.

Sua mão caiu sobre a tecla de emergência.

Sem perda de tempo mensurável, o CTI trouxe o enviado de volta a seu universo. O cientista-analítico olhou apavorado para o monitor de permanência, agora parado.

Cinqüenta segundos e meio milésimo!

Respirou aliviado. Por uma questão de onze e meio milésimos de segundo, acabara de salvar o Multiverso da destruição total, pelo simples pressionar de uma tecla em tempo.

Evitara a ocorrência da maior catástrofe imaginável.

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Uma reunião de emergência dos cientistas envolvidos com o CTI foi imediatamente convocada.

Os registros do computador referentes ao incidente foram analisados cuidadosamente e não restou dúvida a respeito do perigo.

O transporte interuniversal não era seguro.

A carga energética retirada do Microverso não garantia o equilíbrio perenemente. Após transcorrido um certo prazo, variável de acordo com o tipo e quantidade do volume unitransportado, a carga entraria em colapso, e a matéria enviada ao Microverso não poderia mais retornar. Neste caso, haveria um desequilíbrio permanente entre os dois universos subsequentes e então fatalmente o Multiverso teria o seu tempo contado. O conjunto de universos não resistiria à tensão causada por aquela desarmonia e, em dado momento, desabaria sobre si mesmo, desmantelando-se a partir do uninível doente, em uma reação em cadeia.

Tudo deixaria de existir da forma que era conhecida.

Os cientistas realizaram uma seqüência de testes, determinando que cada tipo ou quantidade diferente de matéria possuía seu próprio prazo de permanência no Microverso. Também influía decisivamente no prazo a natureza da substância utilizada como meio de ingresso, em lugar do outrora exclusivo ribélio.

No caso do incidente, a carga energética corresponde ao enviado, sua nave e seus equipamentos levaria cinqüenta segundos e doze milésimos para entrar em colapso.

Havia apenas uma maneira de manter o equilíbrio seguramente.

Para cada porção de matéria enviada ao Microverso, uma porção equivalente, do mesmo tipo e volume, deveria ser retirada do uninível de destino. Uma troca real e exata precisaria ser feita. Isso significa que, depois de enviar uma criatura viva através do CTI, outra criatura viva e de mesma massa corporal teria que ser deixada em seu lugar, retirada do próprio Microverso. O mesmo ocorreria com um pedaço de rocha ou qualquer outra espécie de objeto.

Seqüestrar, arrancar um ser vivo de seu meio e mantê-lo hibernando, para depois colocá-lo em seu ambiente milhares de anos depois não atendia nem um pouco aos preceitos de conduta moral do povo cientista – mesmo que se tentasse justificar tal atrocidade como algo necessário em prol do desenvolvimento científico.

Além disso, mesmo efetuando tal processo utilizando matéria inorgânica, como robôs especializados, o fator de risco era demasiadamente alto para ser aceito. Uma falha em algum ponto e... o Multiverso encontraria o seu fim. Não se podia incorrer em perigos de tal amplitude, era o tipo de decisão e risco que ser algum – ou raça alguma – deveria possuir o direito de lidar.

O transporte interuniversal não era seguro.

E uma característica profunda e marcante do povo cientista era o firme propósito de jamais executarem qualquer experiência que soubessem ser perigosa. Ainda mais se a magnitude do perigo fosse tão absurdamente grande.

O conselho tomou uma decisão. A prática do transporte interuniversal deveria ser suspensa.

O uso do CTI estava proibido.

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Em todo o planeta, os CTIs estavam sendo gradativamente desmantelados. Os laboratórios do Instituto onde o projeto era realizado foram temporariamente desativados. O caso todo começara a se desenrolar pouco antes do falecido encarregado pelo abastecimento entrar no aerocarro e tomar, pela última vez, o rumo da “residência” de Honoh. Enquanto o renegado iniciava a parte ativa de seus planos, escondendo o cadáver de sua primeira vítima fatal e fugindo do exílio, a decisão de abortar o projeto e inativar os equipamentos corria pelo planeta.

A sede do Instituto em cidade Guzug nunca possuíra um CTI, e a máquina mais próxima deste local, onde Honoh executara a ação no Centro de Geração e Tutela Inicial, estava localizada em Cidade Arera. Assim, foi para lá que Honoh se dirigiu.

Ele não sabia de nada a respeito da descoberta do perigo representado pelo transporte interuniversal. Afinal, não estava mais conectado à rede de informações do Instituto - através da qual um alarme planetário fora divulgado, alertando sobre os riscos e proibindo o uso do CTI.

Por outro lado, algumas sedes do Instituto ainda estavam realizando pequenos testes com as máquinas antes de desmontá-las.

Parecia que o destino estava favorecendo Honoh na realização de seus planos, pois uma destas máquinas, ainda funcionais, estava localizada justamente na sede do Instituto em Cidade Arera.

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Honoh chegou em Cidade Arera e estacionou o aerocarro.

Escolheu um lugar qualquer para pousar. A rua, que não se dedicava ao trânsito de veículos, e sim, a proporcionar vagas de estacionamento de aerocarros e movimentação de pedestres, não possuía qualquer característica especial.

A única coisa que interessava ao rebelde naquela rua era um acessório encontrado em qualquer quadra de qualquer rua, bem como em qualquer edifício do planeta. Eram os notórios pontos de teleporte, compostos por um par de cabines. Sua presença caracterizava aquele mundo tanto quanto a dos seres nativos.

Honoh desceu do aerocarro, postou-se próximo a uma cabine teleportadora e ficou estudando os arredores, disfarçando e esperando que alguém vestindo um traje de membro do Instituto Científico se aproximasse dela.

O primeiro criminoso do povo cientista possuía o cartão vibratório do encarregado que havia matado. O cartão teria que ser inserido na fenda do console interno da cabine, para que fosse permitido o teleporte ao interior do edifício do instituto em Cidade Arera. Além de utilizar o cartão específico correspondente, quem quisesse ser teleportado à cabine receptora da sede do Instituto deveria também digitar o código do edifício no painel de console da cabine.

Contudo Honoh não conhecia tal código.

Por isso, estava aguardando o surgimento de alguém que desejasse usar aquela cabine com um destino idêntico ao dele.

Meia hora depois Honoh viu, do lado oposto da rua, um indivíduo de marcação verde aproximando-se da cabine. Honoh então caminhou em sua direção, controlando a velocidade dos passos, evitando ser percebido pelo outro e tentando aparentar naturalidade, alcançando-o a dois metros da cabine.

- Saudações, colega – disse ele ao indivíduo, enquanto terminavam juntos de caminhar, parando em frente à cabine – Está indo ao Instituto?

O inimigo planetário nº1 fez como se tivesse acabado de notar a presença do outro, apesar de possuir, como o resto de seu povo, visão global. Qualquer pessoa, ao ver um desconhecido aproximando-se de uma cabine teleportadora a qual ele mesmo se dirigia, não faria o mínimo esforço para alcançá-la antes que o outro entrasse nela, já que o sistema de transporte por teleporte era instantâneo, e não havia qualquer sentido em pegar carona com alguém para economizar tempo.

Como aquele indivíduo não era conhecido seu – o que, por sinal, não seria nada bom, dada sua atual condição de renegado e criminoso exilado – Honoh teve que simular uma situação casual com ele, chegando à cabine no mesmo instante, sem deixar que o outro percebesse antes que também caminhava em direção à ela e fingindo também não o ter notado durante o percurso.

O ex-membro do Instituto havia conseguido fazer com que chegassem à cabine juntos, mas, para evitar que o outro lhe fizesse uma gentileza, cedendo-lhe o uso do terminal de teleporte em primeiro lugar, perguntou se ele também iria para o Instituto. Caso a resposta fosse afirmativa, seria natural que ambos entrassem juntos, já que teriam o mesmo destino.

- Saudações, colega – disse o indivíduo, antes de responder a pergunta de Honoh – Sim, estou indo para lá. E você?

Pronto!

- Também – respondeu, abrindo a porta para que o outro entrasse primeiro – Vamos entrar.

Para que o estratagema de Honoh desse resultado, era imprescindível que o outro entrasse primeiro na cabine.

Deu certo! Quando o rebelde entrou, o indivíduo já estava no console, digitando o código do Instituto de Ciências da Cidade. O problema estava resolvido. O computador já tinha o endereço desejado, mas, registrando a presença de duas pessoas em seu interior, seria necessário que houvesse a apresentação de dois cartões vibratórios do Instituto distintos, um para cada usuário.

E isso Honoh possuía.

Os dois inseriram seus cartões na fenda e a cabine teleportadora os transportou, transmitindo suas estruturas atômicas pelo hiperespaço para o terminal receptor instalado na sede do Instituto em Cidade Arera.

De todas as “cenas de crime” que Honoh estava colecionando, aquela estava destinada a ser a principal.